• No results found

Magnetfeltsensor HMC2003

3.3 Valg av sensor

4.1.1 Magnetfeltsensor HMC2003

A escuta dos trabalhadores de saúde nos diversos lugares em que a Tenda do Conto se faz, somadas as experiências vividas e as vozes dos entrevistados desvelam as dificuldades encontradas no percurso: “Não somos preparados para a escuta”; “há grande dificuldade de mobilizar a equipe”; “há uma enorme resistência ao novo”.

Em meio a um mundo onde sons são produzidos incessantemente e velozmente, pausar a “produção” do fazer cotidiano na saúde para disponibilizar-se à escuta em um espaço de convívio onde uma produção (não quantificável) é voltada para a criação de novos sentidos não se constitui em tarefa fácil.

Alguns importantes elementos nos levam a considerar que a escuta a que nos referimos carrega em si uma certa complexidade. Vejamos as considerações de Barbier (2002) acerca da escuta sensível:

Antes de situar uma pessoa em “seu lugar,” começa-se por reconhecê-la em “seu ser”, dentro da qualidade de pessoa complexa dotada de uma liberdade e de uma imaginação criadora[...]Escuta sensível aceita surpreender-se pelo desconhecido que, incessantemente, anima a vida. Por isso, ela questiona as ciências humanas e continua lúcida sobre suas fronteiras e zonas de incertezas. Neste caso, ela é mais uma arte que uma ciência, pois toda ciência procura circunscrever seu universo e a impor seus modelos de referência, até que se prove o contrário. É como a arte de um escultor sobre a pedra, que para fazer aparecer a forma, deve antes passar pelo trabalho do vazio e retirar todo o excesso para que a forma surja (BARBIER, 2002, p. 3).

Silenciar, desprender-se de interpretações e julgamentos, tentar desvencilhar-se dos próprios pensamentos, colocar-se em estado de atenção, reconhecer o outro em seu ser – na voz, na linguagem do seu corpo, na sua potência criadora, permitir-se surpreender-se diante do outro, muitas vezes, desconhecido; colocar-se no entre (dentro/fora) de si mesmo não parecem ser tão simples.

Sem o exercício da escuta, como compreender o sofrimento, as dores, os medos e as angústias? Como enxergar para além do processo saúde-doença? Como reverter processos enfraquecedores que não atendem aos desafios lançados cotidianamente no trabalho em saúde? Cabe-nos refletir sobre as possibilidades de algumas práticas inventivas abordadas nesse estudo contribuírem, de algum modo, para a produção desses efeitos amortecedores.

A partir de Fuganti (2009), na discussão: “Biopolítica e produção de saúde: um outro humanismo?” é possível pensar se ações inovadoras na saúde podem estar reproduzindo velhos

preconceitos, ou ainda, transmitindo comandos implícitos velados. Argumentando que mudanças nas práticas podem se revelar como mudanças de fachadas, o autor questiona: “até que ponto o cuidado mais humanizado pode, inversamente, mascarar o destrato com relação às forças mais nobres da vida?” Toda política que visa dar saúde, sem investir em condições que tornem o paciente médico de si mesmo ou em uma vontade de se tornar desnecessária, jamais rompe com as velhas formas de poder. Acrescenta:

Será que não se usa a saúde para despressurizar a panela de pressão social e abafar os movimentos políticos? A saúde pode ser uma prática de amortecimento político, assim como a escola e outras mais. A medicalização da vida, a judicialização do cotidiano batem a nossa porta como potências aterradoras! Será que ao produzir saúde não estamos anestesiando, produzindo amortecimento? (FUGANTI, 2009, p. 678).

Além do “despreparo para a escuta”, outras dificuldades vivenciadas pela equipe da Tenda do Conto, conforme vimos anteriormente, são descritas pelos entrevistados:

Vários são os problemas que surgem, como falta de espaço, falta de tempo em que todos os colegas participem.

As dificuldades são inúmeras no que se trata da logística do grupo. Não há qualquer apoio da instituição mor, os apoios são dos próprios servidores. E o que nos limita é perceber que existem casos mais complexos que precisam de um acompanhamento mais íntimo e não ocorre pelos entraves e deficiência do sistema (Djairo Alves, Natal).

Minha única frustração é de não poder participar dos encontros, capacitações, eventos relacionados a essa atividade de Educação Popular. Pois, pelo fato de eu morar no interior do Amazonas as informações aqui são mais difíceis de saber, quando sei de algum evento, já aconteceu (Renata Figueiró, Assistente Social da CASAI Tefé/AM).

A limitação de horário nos permitiu compartilhar de maneira sucinta nossas histórias (Hadoika Aiko Lacerda, Diretoria de políticas e ações em saúde – Secretaria de Saúde de Canoas- RS).

Percebo a universidade como um lugar de potência na formação dos futuros profissionais e na construção de espaços de reflexão com os profissionais no mundo do trabalho. Pelo fato de se tratar de uma universidade privada, a interlocução e a construção coletiva com os trabalhadores na perspectiva da educação permanente torna-se um fator de dificuldade, uma vez que a lógica privada, de lucratividade e mercantilização da educação termina impondo limites na expansão do território da educação para fora dos limites da universidade não conseguindo abarcar a Rede SUS a contento (Flávia Freire, psicóloga).

Insuficiência de pessoal, especialmente de Agentes Comunitários de Saúde; ausência de espaço físico adequado para comportar grande número de pessoas; falta de apoio dos gestores, indisponibilidade de tempo dos trabalhadores que ocupam-se em atender inúmeras demandas, limitação no tempo dedicado às práticas coletivas.

Diante de tantas dificuldades, poderíamos questionar se a Tenda do Conto, em meio às precariedades vivenciadas no Sistema Único de Saúde, poderia se constituir em apenas mais uma a reforçar o rol de práticas engessadas pelos protocolos, mascarando os destratos com a vida.

Reconhecemos os riscos de práticas inventivas se revestirem de velhas práticas que podem, inclusive, reproduzir os fazeres tradicionalmente biologicistas, com o foco voltado para o adoecimento e medicalização da vida. Assim como alguns espaços coletivos, devemos considerar a possibilidade de a Tenda do Conto ser reproduzida apenas como uma roda que apresenta mudança de cenário e participação dos usuários e se constituir em um espaço onde não há a disponibilidade para a escuta e o respeito ao outro, fomentando, desse modo, encontros despotencializadores.

Entretanto, diante de tudo que foi vivenciado, experimentado e escutado no percurso de sete anos de existência, podemos apostar na real imagem que visualizamos: a Tenda do Conto surge como um modo de trabalhadores e usuários entrarem em contato com suas potencialidades e, no convívio, perseguirem uma política da composição: inventando-se, reinventando-se, ressignificando olhares e fertilizando novos caminhos no cotidiano.