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3.3 Valg av sensor

4.1.2 Analog signalbehandling

Neste estudo, ao explorarmos alguns dos caminhos percorridos pela prática inventiva Tenda do Conto, encontramos, nas Artes de Fazer, Artes de Contar e Artes de Inventar, paisagens dos percursos de sete anos de uma experiência que, trazendo à luz histórias e saberes de pessoas anônimas, desafia-nos a pensar sobre os nossos modos de fazer saúde. Demonstrando-nos que nenhuma vida é igual a outra, cada Tenda do Conto anuncia que a vida de cada um vale a pena ser vivida; convoca-nos ao respeito à vida, às singularidades e à ressignificação do trabalho em saúde.

Reler o que foi escrito até aqui é como refazer a mala depois de uma longa viagem. A volta se faz partida. O ponto de chegada é um porto; não é um ponto final. Uma espécie de “navegação de cabotagem” – término de uma jornada e início de várias outras.

Diante dos objetos gastos pelo tempo, velhas histórias se despem e se revestem. Reencontramos histórias contadas e não contadas, vislumbramos as que estão por vir e imaginamos as que permanecerão adormecidas no esquecimento. Nos nossos olhares, saltam os olhos dos narradores; as histórias que se desenham nas linhas da pele, nas vozes e nas mãos. Mãos que dão passagem e voz aos sentimentos: tranquilas descansando sobre os braços da cadeira de balanço, nervosas movendo-se em gestos, ou receosas, amparando-se umas nas outras ao se entrelaçarem.

A releitura – o “refazer da mala” – faz pulsar as histórias. Convida-nos a recontá-las. Repetem-se as palavras tantas vezes ditas durante o ato de montar a Tenda: “se esses objetos falassem...”. E os objetos nos falam.

Diante de nós, o livro do velho Olívio conta sua história. Seu Olívio Martins Viana adentrara o pequeno consultório da Unidade do Panatis, havia oito anos. Aproximava-se com elegância, andar tranquilo arrastando suas sandálias de couro cru, boina escura, camisa branca de cambraia. Espalhando cheiro de lavanda enquanto trazia as histórias em versos “na ponta da língua,” encantava-nos com a musicalidade das rimas, com o seu jeito de tocar a ponta do chapéu entre uma e outra estrofe e o dedo erguido em direção ao horizonte, como se estivesse a convocar para perto de si o lugar das memórias guardadas. Ignorando o movimento fora do consultório, empenhávamo-nos em nos descobrirmos. Enquanto tentávamos capturar as imagens com a filmadora entre as mãos, ele nos envolvia ensinando sobre a arte de contar e escutar histórias. Ao retirarmos da mala o seu livro, reencontramos suas letras na dedicatória escrita com dificultoso cuidado: “aqui escrevo meu agradecimento por sua gentileza e

reconhecimento de meu simples talento”. Seu Olívio falava-nos, a seu modo, sobre o desejo de todo ser, de ser reconhecido, sobre a reciprocidade alheia às regras de mercado e a circularidade do dom.

A ausência de Seu Olívio nas Tendas nos últimos dois anos e a escrita deste texto conduziram-nos até a sua casa. Encontramos o poeta de olhos semifechados sentado em sua cadeira de balanço, os pés apoiados sobre uma almofada no banco à sua frente. Com 93 anos vividos, já não enxerga e anda com dificuldade. Ao ouvir a saudação chamando pelo seu nome, logo nos reconheceu e disparou entre sorrisos os primeiros versos; os mesmos versos declamados no vídeo e nas primeiras Tendas. Seu bisneto de onze anos, que assistia a tudo com interesse, confessou-nos: “vi o vô no vídeo; quero ser poeta que nem ele”.

Da pequena caixa de madeira enfeitada com flores pintadas à mão, salta o rosário de Dona Carmelita fazendo-nos lembrar as histórias que soavam como preces na voz da narradora que se foi; as contas de vidro fazem reluzir na lembrança as imagens de seus vestidos largos, o guarda-chuva carregado sob o braço e a sacola onde se misturavam medicamentos, biscoitos, convites para a Tenda e prescrições médicas. Pela voz de Dona Carmelita, usuária que contava sobre os amigos da comunidade que partiram, o processo da morte e do morrer, tão pouco discutido entre os trabalhadores de saúde, foi introduzido na Tenda e passou a ocupar naturalmente seu lugar dentre as histórias abordadas nas narrativas. Desse modo, a Tenda seguiu compondo e recompondo histórias de nascimento, morte e vida; entre homenagens, despedidas, chegadas e partidas.

Escavar nos outros e em nós mesmos suas histórias e nossas próprias histórias possibilita a ressignificação dos sentidos que damos ao trabalho em saúde e à vida. A escuta de si e a escuta do outro nos fazem ver a partilha e o cuidar como modos de abraçar a humanidade e de apreciar mais intensamente os momentos da existência, reposicionando-nos diante da vida.

No âmbito da Atenção Básica, reafirmando a saúde como produção de vida, a Tenda do Conto transpôs os muros dos serviços e adentrou as casas durante as visitas domiciliares. Ganhamos olhares que se voltaram para as miudezas. Olhares se voltaram em direção às caixas sobre as estantes que guardavam bilhetes e cartas, às fotografias nos porta-retratos ou dependuradas, às flores e fitas embrenhadas nas brechas das imagens dos santos, às datas marcadas nos calendários suspensos na parede da sala. Observar os detalhes nos modos de viver do outro aproxima-nos com leveza e suavidade; rega-nos, lentamente, como chuva fininha em plantas delicadas.

Como chuva leve no seco terreno do cotidiano do trabalho em saúde, surge entre as lembranças a imagem de uma sertaneja de 92 anos que acompanhávamos nas visitas domiciliares. Dona Senhorinha faleceu em 2013. Impossibilitada de andar e acometida por deficiência visual e auditiva, nunca pôde comparecer à Tenda do Conto. Lembrá-la agora nos faz pensar que levamos a Tenda do Conto até ela. Alegrava-se ao nos ver chegar. Contava-nos que a força das pernas havia “subido para os braços”. O reconhecimento dessa força levou-a a pedir à filha que prendesse uma corda ao teto de modo que a ponta da corda, ao descer, pudesse ser alcançada pelas suas mãos. Agarrando-se à ponta da corda, conseguia sentar-se na cama sem precisar de ajuda. Argumentando que “as vistas fugiram para as mãos”, pedia-nos que nos aproximássemos para que pudesse nos tocar. Enquanto passeava com as mãos sobre os traços das nossas faces, a sertaneja contava histórias de sua mocidade. Dona Senhorinha, além de nos mostrar que os sentidos se deslocam, fazia-nos enxergar que uma “Tenda do Conto” poderia acontecer em muitos lugares e, especialmente, dentro de nós. Enxergando com o corpo inteiro, emprestava-nos outras vistas aos nossos olhos aprisionados pelo arsenal de técnicas apreendidas. Como a corda suspensa no teto a nos apoiar, fazia-nos reconhecer forças antes ignoradas; enxergando-nos com as mãos, levava-nos a pensar no tempo que não nos damos, para lembrar e viver o que nos acontece, de modo a permitir que sejamos tocados pelos que nos rodeiam. A velha sertaneja mostrava-nos o tempo que nos é roubado, o presente que se comprime em duração sempre reduzida, os sentidos perdidos e os novos sentidos que deixamos de criar.

Entre velas, lamparinas, urupembas, fotografias, fuxicos e lampiões; entre os objetos que agem fazendo lembrar, a percepção de que uma vida não é apenas de cada um. Ao reunir pessoas para compartilhar o vivido, a prática da Tenda do Conto contraria o tempo veloz e a fragilidade dos laços, colocando-nos em contato com o saber da experiência e convidando-nos à proximidade humana.

A vida narrada, o contar-se e o escutar seguiram produzindo sentidos. No trabalho em saúde a escuta das narrativas entre trabalhadores e usuários, assim como o ato de contar o vivido operam reduzindo o distanciamento entre usuários, entre profissional e usuário, e entre profissionais, produzindo relações que possibilitam o fortalecimento dos vínculos, exploram a capacidade de cuidar do conjunto de trabalhadores e estimulam a cooperação entre diferentes saberes.

A releitura exaustiva dos arquivos, as entrevistas, os registros no diário de campo, a transcrição das narrativas, as vivências da Tenda do Conto nos diversos territórios, os olhares

sobre as fotos e as leituras e releituras dos diferentes autores reviraram, em muitos momentos, nosso pensar sobre a pesquisa, lançando-nos no desafio de fazer novos caminhos e reiterando a ideia de que pesquisar é também intervir.

Dentre as dificuldades do percurso, o sentimento inegável de insegurança dos primeiros passos no campo das Ciências Sociais; atender às exigências do trabalho no interior da unidade de saúde e aos convites para fazer a Tenda acontecer em outros espaços; perseguir uma escrita que contemplasse o rigor acadêmico aliando ciência e ação. Desafios muitas vezes inalcançados.

Uma mala, uma mesa, objetos afetivos, pessoas em círculo para escutar e narrar fragmentos de suas vidas. Ao longo deste estudo, as leituras, somadas às vozes dos narradores, convocavam-nos a pensar que uma prática inventiva aparentemente simples, no que se refere ao formato e aos recursos materiais necessários para sua realização, revestia-se de complexidade. A Tenda do Conto se fez tenda do encontro. No compartilhamento de histórias, um campo aberto para as possibilidades de afetar e ser afetado pelo outro. Na circularidade da palavra, memórias, dores e sensibilidade emergem revertendo anonimatos em visibilidade e reconhecimento. Histórias de alegrias, perdas e superações; nascimento, infância, velhice, morte – a vida humana tornando-se a “matéria” de um trabalho imaterial/ afetivo onde escuta e narrativa tecem suas tranças nos tempos idos e presentes movendo os olhares sobre a saúde, deslocando-os em direção a um campo de sociabilidade e vida e se engendrando num circuito de produção de comunidade.

A equipe da Tenda do Conto permitiu-se viajar. A mala repleta de objetos, a todo instante e em todos os lugares anunciava, pelas universidades, praças, eventos e unidades de saúde, nessas viagens, a companhia dos narradores. E, mesmo nas ocasiões em que os objetos não eram transportados, o narrar das experiências como vivências coletivas se fez presente transbordando nas malas “imaginárias” que carregamos.

Em um lugar especial dessa mala, guardamos a Rede HumanizaSUS. A RHS, nosso objeto afetivo, fez-se também narradora e Tenda. Convocou a voz/escrita dos narradores de territórios diversos. Histórias de sertanejos com seus lampiões, porta-retratos, fuxicos e cadeira de balanço, deslocando-se da pequena unidade de saúde do Panatis na zona Norte de Natal/RN, atravessaram sertões, serras e mares; juntaram-se a outras histórias contadas, em diferentes sotaques, compondo novas Tendas – novos modos de pensar o cuidado pautado na escuta, no respeito e atenção à experiência do outro. Na RHS, experiências que se dão nos microespaços são validadas e ganham visibilidade, contrariando a lógica hegemônica de produção de

ausências. Tornando presentes as experiências ausentes a rede colaborativa atravessa o instituído, construindo, no presente, possibilidades outras de fazer saúde e delas cuidando por meio do apoio mútuo entre seus participantes, ativando coletivos e cultivando uma cultura democrática. No percurso deste estudo, os editores/cuidadores da RHS convocavam-nos a desassossegos. Constantemente, convites para conferirmos as novas publicações que discorriam sobre a Tenda do Conto em outros territórios e sobre o ato de contar e contar-se no trabalho em saúde desviaram-nos dos caminhos traçados, fazendo-nos ver as dissonâncias entre os tempos da pesquisa acadêmica com seus prazos previamente estabelecidos e o tempo da prática Tenda do Conto, que continuamente se refaz.

Surpreendemo-nos com os diferentes modos de fazer a Tenda do Conto, sua inserção na educação popular e na Política Nacional de Humanização. Usuários, educadores populares, trabalhadores da saúde mental e da Atenção Básica e apoiadores da Política Nacional de Humanização tornaram-se coautores da experiência que vem sendo reinventada nas diversas regiões, produzindo possibilidades de pequenas travessias no campo do cuidado. Aos nossos olhares voltados para as disfunções e adoecimento dos corpos, apresenta-se um cotidiano em construção que avança além das produções de atendimentos, relatórios e estatísticas. Apresentam-se desvios/passagens que nos convocam a subverter cristalizações em movimentos em direção ao outro, enxergando-o em seu modo de caminhar a vida.

Levando o vigor e a sensibilidade das narrativas a outros espaços, a Tenda do Conto fez-se presente nos cursos de formação, uniu-se à ciência no espaço acadêmico e reinventou-se como ferramenta de pesquisa; foi tema no Café filosófico da TV Universitária, na TV assembleia do Rio Grande do Norte, no programa Sintonia SUS da TVT (TV dos Trabalhadores), em publicações do Ministério da Saúde e na coluna “Gente Incrível” da revista mensal Vida Simples.

Nesse processo, à nossa escrita, incorporaram-se as marcas do inacabado. Há muito ainda a ser pensado e desvelado nos percursos dessa experimentação. A circularidade do dom permeando as artes de fazer e de contar, as ações dos objetos afetivos, o potencial transformador das narrativas e da escuta no trabalho em saúde, o olhar sobre a micropolítica do cotidiano, onde se dão encontros e invenções, compõem temáticas que apenas introduzimos e apresentam- se como campos que podem ser minuciosamente explorados nessa experiência, que segue afetando e convocando usuários e profissionais de saúde à coprodução do cuidado. No refazer da mala, as marcas dos inúmeros narradores, inscritas nos objetos e nas nossas memórias, nos

provocam. Refazendo no presente o vivido, nossos olhares se voltam para um porvir povoado de muitas histórias para contar.

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