G RAN R ECESSIÓ
2.1. M ERCANTILITZACIÓ , PROTECCIÓ SOCIAL I EMANCIPACIÓ
Entende-se que a Reforma Psiquiátrica se dá na implantação e permanência de serviços substitutivos aos manicômios, bem como a partir da quebra e substituição do paradigma de atenção pautado na patologia (realizado principalmente no manicômio) pelo paradigma de atenção pautada no sujeito integral e realizado em serviços de bases territoriais. Para identificar essas mudanças poderiam ter sido escolhidos diversos encaminhamentos metodológicos como, por exemplo, avaliar a política de Saúde Mental do município de Salvador através de leis, portarias e decretos e de analise quantitativa dos serviços substitutivos na cidade.
Porém, ao entender que boa parte das mesmas se dá no cotidiano dos serviços e passam pelos trabalhadores que as executam, esta obra teve como objetivo principal conhecer os desafios enfrentados pelos trabalhadores no cotidiano dos serviços substitutivos em Saúde Mental a partir de seu ponto de vista. Buscou- se apreender quais são, de fato, as questões que eles localizam como precisando ser solucionadas, quais delas acreditam que há resolução e quais delas não acreditam haver essa possibilidade. Os profissionais puderam apontar elementos de seu trabalho que facilitam seu desenvolvimento ou mesmo que auxiliam nas soluções dos entraves que apresentam. Essas facilidades, assim como as dificuldades, poderiam acontecer em diversos âmbitos e esteve-se atento para que fossem contemplados todos os que trouxessem.
O interesse de debater tais questões veio das observações feitas em campo quando da prática através do Programa de Residência Multiprofissional da UNEB: por um lado, via-se um trabalho bastante difícil de ser realizado e, por outro, eram vistos trabalhadores com questões diversas mas que mantinham-se ligados àquelas unidades e àqueles usuários.
Analisando o material coletado através das entrevistas e das observações com registro em diário de campo, foi necessário considerar a história de constituição desse CAPS e dessa RT pois acreditou-se na importância das mesmas para a
formação enquanto equipe dos trabalhadores que nelas atuam o que, por sua vez, poderia interferir sobremaneira nas concepções acerca das pessoas com sofrimento psíquico, nas concepções sobre Reforma Psiquiátrica e serviços substitutivos, além do papel e função dos serviços e na realização das atividades de trabalho em si.
De uma maneira geral, o encontrado à respeito dos trabalhadores e suas facilidades e dificuldades estavam atrelados quase que determinantemente pela categoria profissional e conseqüente função nas unidades. Mostrou-se importante analisar os serviços separadamente porque ao mesmo tempo em que estão ligados pela responsabilidade de um para com o outro, separam-se em equipamentos diferentes, com modos de funcionamento e funções diferentes. No entanto, mesmo o CAPS tendo profissionais de diversas categorias, dentre essas, aquelas que não prestam atendimento direto ao usuário, conforme anteriormente exposto, acreditou- se necessário que fossem trabalhadas como um conjunto, já que compunham o mesmo serviço e participam de momentos diferentes de sua organização, acreditando que todos estivessem implicados na atenção ao usuário. Assim, pareceu não somente correta como fundamental a escolha de abarcar a maioria das categorias profissionais existentes no CAPS, resultado que pôde ser observado ao ter se aproximado da organização e funcionamento da unidade como um todo, e não somente referente a alguns aspectos.
As principais dificuldades encontradas, em ambos os serviços, foram apresentadas como estando acima das possibilidades de resolução pelos próprios profissionais. Estas se referem a: excesso de atividades de trabalho, excesso de usuários para acompanhamento, escassez de recursos materiais, problemas com os equipamentos das redes de saúde mental e de saúde integral, entre outros. As principais facilidades e estratégias encontradas se referem, sobretudo, a comportamentos ou características pessoais como: gostar do trabalho que faz, acostumar-se com a falta de uma rotina de trabalho ou conseguir manipular sua rotina para dar conta de todas as suas tarefas.
Foi notório que os profissionais do CAPS demonstrassem mais fortemente uma tendência à individualização dos problemas e suas resoluções, em detrimento ao debate coletivo, do que os da RT. Isto pode acontecer tendo em vista que a
equipe do CAPS é maior, com várias categorias profissionais e com diferentes tipos de atividades. Desse modo, complexificando o trabalho como um todo, complexifica- se também suas questões, podendo culminar num sentimento de impotência frente a esses desafios cotidianos por enxergá-los maiores e mais complexos do que são ou devem ser considerados.
Os trabalhadores da RT, por sua vez, apontaram duas possibilidades interessantes. A primeira delas se refere ao que chamou-se de cuidado com o cuidador, que consiste em atentar aos cuidadores, cuidando deles para que também possam cuidar. Percebido ao longo das entrevistas, o trabalho em equipe foi apontado como fundamental para que as atividades de trabalho aconteçam, sejam minimizadas as barreiras encontradas e exista qualidade nessas atividades.
Considerou-se, ao longo de toda a discussão dos dados obtidos, o processo de desgaste a que vêm sendo submetidos ambos os grupos de trabalhadores relacionado não somente com as dificuldades citadas acima, com o processo de implantação dos referidos serviços, mas também com desgastes inerentes ao funcionamento de instituições públicas, tendo em vista que, como defendem diversos setores sociais (a academia, o poder público, os profissionais de saúde, etc), o SUS ainda está em consolidação e pode-se afirmar que os equipamentos propostos pela Reforma Psiquiátrica sofrem com um duplo processo: precisando se consolidar enquanto equipamentos de saúde publica e equipamentos de saúde metal.
Finaliza-se com o mais indispensável dessa pesquisa: acima de todos esses desafios, encontram-se pessoas dispostas a se manterem nesses serviços, atuantes e comprometidas com o que fazem, mesmo acreditando, muitas vezes, que estão fazendo para além do que deveriam/poderiam. Pessoas que se dispõe a pensar criticamente sobre suas atividades de trabalho mesmo que, por motivos variados, não estejam conseguindo atuar para resolver conflitos e, com isso, sintam-se mais desgastados. Essas foram as pessoas que iniciaram, na prática, a Reforma Psiquiátrica em Salvador (e talvez até no estado da Bahia) e são as responsáveis para que se continue caminhando.