5. ANALYSIS AND THOUGHTS ON THE PORTAL PROJECT
5.6 M EASURING P ROJECT P ROGRESS
Todos sabemos, por experiência vivida, o que é uma casa. Porém, a familiaridade com o objeto muitas vezes nos leva a uma relação automatizada com ele e a simplicidade e a obviedade do seu significado podem esconder uma complexidade que merece ser considerada. Por isso, nos parece oportuno utilizar algumas linhas para refletir sobre as noções ligadas ao termo, destacando seu sentido dicionarizado e convencional, bem como aspectos ligados à interação homem- edifício, inerente à prática cotidiana de habitar o espaço. Embora não se trate de inventariar o desenvolvimento histórico da noção de casa, essas reflexões buscam retomar as balizas que servirão de referência para a análise das relações intersemióticas entre a poesia de João Cabral e a arquitetura de Le Corbusier, em relação à figura da casa.
Entre as acepções registradas no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa para o verbete
casa, temos:
Casa. S.f. 1 edifício de formatos e tamanhos variados, ger. de um ou dois
andares, quase sempre destinado à habitação 2 P cada uma das dependências em que é dividida uma habitação (c. de jantar) (c. de banho) 3 família; lar (a c. é fundamental na educação dos jovens) 4 o conjunto dos membros de uma família
(a c. dos Nabuco) 5 família soberana ou nobre; linhagem nobre (a c. dos
Bragança) 6 o conjunto dos bens dessa família (administrador da c. dos
Bragança) 7 o conjunto dos negócios e assuntos domésticos (a administração da c.) 8 mobiliário, roupas, louças e demais objetos que são necessários a uma residência (montar c.) 9 lugar destinado a encontros, a reuniões ou à moradia de certas categorias de pessoas, cujos interesses, origens e cultura por vezes representa ou expressa (c. do estudante) (c. dos artistas) (c. do Brasil) 10 estabelecimento ou firma comercial 11 nome de certas repartições públicas (c.
da moeda) (...) Ɣ estar em c. fig. estar à vontade Ɣ ETIM lat. Casa, ae
‘choupana, cabana, casebre, arribana’; cf. lat. domus, us ‘casa, habitação, domicílio’ (...) (HOUAISS, 2001)
No vocabulário arquitetônico, a definição do edifício-casa está ligada não apenas à de habitação, apresentada na primeira acepção do verbete, mas de habitação, geralmente unifamiliar, como nos mostra o Dicionário ilustrado de arquitetura:
quando se destina a uma única família, sendo comumente chamado casa, ou multifamiliar, quando se destina a mais de um domicílio, como, por exemplo, o edifício de apartamentos. (LIMA; ALBERNAZ, 1997-1998, p.305)
Assim, o edifício ao qual damos o nome de casa é aquele que se diferencia dos demais objetos arquitetônicos – uma igreja, um cinema, um clube, por exemplo - por ter sido pensado, projetado e construído para ser o lugar de moradia, normalmente de uma única família. É fruto, portanto, de um fazer projetual15 e construtivo que tem como premissa um programa arquitetônico específico: satisfazer as necessidades de moradia do homem. Ou seja, a casa se define arquitetonicamente não pela forma, mas pelo uso. É o fato de ser construída para servir como habitação que faz dela uma casa.
Enquanto objeto funcional, o edifício-casa é uma construção que deve conter espaços organizados e dimensionados de tal forma que possam atender a necessidades de ordem prática, cotidianas e rotineiras da família, claramente definidas: estar, dormir, cozinhar, comer, banhar-se, receber amigos, ler, brincar, descansar etc. Para isso, é composta por diferentes compartimentos ou cômodos - quartos, salas, cozinha, banheiros, área de serviço, de acordo com o programa arquitetônico e a verba disponível para a construção.
Porém, as necessidades humanas em relação ao espaço construído não se limitam aos aspectos técnicos e práticos da vida cotidiana; fazem parte das necessidades humanas a busca por segurança, conforto, privacidade, prazer (físico e estético), status social etc. O programa arquitetônico define, portanto, não apenas a função prática do edifício, mas também sua função mítica e simbólica. Retomando as palavras de Le Corbusier em Por uma arquitetura, temos:
A arquitetura tem um outro significado e outros fins que acusar as construções e responder às necessidades (necessidades tomadas no sentido, aqui subentendido, de utilidade, de conforto, de disposição prática). (LE CORBUSIER, 2004a, p.73)
15 Consideramos que, mesmo que não haja um profissional legalmente responsável pela elaboração do projeto e pela
construção da obra, o proprietário, o construtor ou quem quer que esteja construindo seguirá um “plano”, às vezes meramente intuitivo, outras vezes fruto da tradição construtiva do lugar, mas que num sentido lato pode ser considerado projeto.
Em Para uma crítica da arquitetura, Jorge Glunsberg, afirma que o habitante, ou o Homo
habitans, é o consumidor de um ambiente fabricado pelo homem, caracterizado pela alteração da
ecologia por descriminar os espaços naturais e criar espaços artificiais (Cf. GLUNSBERG, 1986). Esse habitante desenvolve uma relação imaginária com o habitat, em que a proximidade e a familiaridade acabam por estabelecer “uma confusão – uma fusão – entre ambos”, não percebendo a materialidade significante do objeto arquitetônico. Por outro lado, a relação estabelecida pode estar fundamentada numa consciência do espaço e do entorno, vistos como possibilidade de status social, por exemplo, ou como constructo dotado de valor espacial e estético que ultrapassam o simples aspecto funcional (GLUNSBERG, 1986, p.26-9).
Do ponto de vista de sua função mítica e simbólica, o edifício-casa deve receber sobredeterminações figurativas que sirvam de suporte à configuração temática de “estar em casa”, de intimidade, de segurança, de prazer. Ou seja, deve haver elementos espaciais, materiais ou não, que permitam aos habitantes sentirem-se à vontade, afastados do mundo exterior, num espaço íntimo e protegido, que lhes proporcione também conforto e prazer. Além dos elementos espaciais, outros elementos não considerados espaciais são necessários para que a casa possa se realizar como uma casa: a presença cotidiana das pessoas, os sons, cheiros, uma luz especial, lembranças etc. A sensação de familiaridade do espaço onde se vive só pode ser atingida com a concorrência de elementos espaciais e não-espaciais, nos quais podemos incluir o morador.
Não basta, portanto, que a construção satisfaça as necessidades práticas que a geraram; é preciso, além disso, que ela esteja em comunicação com seus habitantes e que os emocione. Para Le Corbusier, a emoção arquitetural é dada pela relação entre o homem e o volume construído, uma vez que “o volume e a superfície são os elementos através dos quais se manifesta a arquitetura”:
A arquitetura é jogo sábio, correto e magnífico dos volumes reunidos sob a luz. Nossos olhos são feitos para ver formas sob a luz; as sombras e os claros revelam as formas; os cubos, os cones, as esferas, os cilindros ou as pirâmides são as grandes formas primárias que a luz revela bem; suas imagens não são nítidas e tangíveis, sem ambigüidades. É por isso que são belas formas, as mais belas formas. (LE CORBUSIER, 2004a, p.13, grifo do autor)
Mas não podemos nos esquecer de que, se o volume e a superfície manifestam a arquitetura, sua essência está no espaço interior, a “jóia da arquitetura”, como diz Bruno Zevi (Cf. ZEVI, 1978). É a existência do espaço interior habitável que caracteriza e diferencia o objeto arquitetônico das demais construções humanas. Ponce observa que
potencialmente todos os espaços que nos rodeiam são habitáveis, ainda que sejam com distintos níveis de habitabilidade em função da freqüência e da duração de nosso contato com eles. Um caminho no bosque ou numa montanha tem um grau de habitabilidade muito menor do que o presente nos espaços que consideramos arquitetônicos. (PONCE, 2002)
O que significa dizer também que, embora a função prática de um teatro, por exemplo, seja diferente da função prática de uma casa, uma vez que o objetivo de utilização, a freqüência e a duração do uso desses espaços é diversa, ele também é uma espécie de habitat. Mesmo o curto período de permanência no interior de um teatro, durante a apresentação de um espetáculo, pode ser considerado um período de habitação desse espaço, pois, no decorrer desse recorte temporal, o homem estará em relação com o espaço e com os elementos espaciais que o compõem. Independentemente do partido arquitetônico adotado para a sua construção, um teatro tem a função prática de abrigar o público, os atores, técnicos etc. durante os espetáculos, oferecendo também condições técnicas para que este se realize (equipamentos de som, iluminação, recursos cenográficos, qualidade acústica, conforto térmico, visibilidade etc.). Ao mesmo tempo, a ambientação teatralizada do edifício tem a função mítica e simbólica de sugerir e propiciar ao público a sensação de ruptura com a realidade cotidiana e introdução num mundo da fantasia, onde tudo é possível.
Assim, por habitar seu interior, estabelece-se uma relação de comunicação e de co- produção mútua entre habitante e o objeto arquitetônico. Mais do que simples “usuário” do espaço arquitetônico, por menor que seja o grau de conscientização do habitante, “os espaços arquitetônicos nos interpelam a todo instante e de diferentes formas”. (Cf. BRANDÃO, 2002, p.12).
Convém lembrar que Le Corbusier reivindicava a “máquina de morar”, insistindo que ela era também “máquina de comover”. Deveria ser, a um só tempo, funcional e produtora de sensações, capaz de unir razão e sensibilidade.
Se é capaz de mobilizar e interagir com o habitante, o espaço arquitetônico opera como uma espécie de sujeito, produzindo efeitos modalizantes, de acordo com as intenções de projeto do arquiteto (ou idealizador da obra), que atribui ao espaço essa ‘competência para submeter’. Ludmila L. Brandão adverte, porém, para o fato de que, embora haja um arquiteto (ou engenheiro ou construtor ou o proprietário) que projeta, constrói e atribui ao espaço a competência para agir sobre as pessoas, esses efeitos modalizantes produzidos pelo espaço na interação com outros elementos espaciais, materiais ou não, e, sobretudo, na interação com o habitante, não podem ser totalmente controlados pelo arquiteto (Cf. BRANDÃO, 2002). Apesar disso, talvez seja esse o desejo que move a maioria dos arquitetos - e não apenas eles, mas também pintores, escultores, poetas etc. – ao projetar suas construções: atribuir ao objeto construído a competência para agir sobre as pessoas.
Vejamos o que propunha Le Corbusier para a “máquina de comover”:
A arquitetura é um ato de vontade consciente. Arquitetar “é colocar em ordem”.
Pôr em ordem o quê? Funções e objetos. Ocupar o espaço com edifícios e estradas. Criar receptáculos para abrigar os homens e criar comunicações úteis para chegar até eles. Agir sobre nossos espíritos mediante a habilidade das soluções, sobre os nossos sentidos por meio das formas propostas a nossos olhos e das distâncias impostas a nossa caminhada. Comover, por meio do jogo das percepções a que somos sensíveis e das quais não podemos nos desvencilhar. Espaços, distâncias e formas, espaços interiores e formas interiores, caminhadas interiores e formas exteriores, espaços exteriores – quantidades, pesos, distâncias, atmosfera, é isso com que agimos. São estes os acontecimentos que estão em causa. (LE CORBUSIER, 2004b, p.78)
Vale a pena registrar mais um trecho em que o arquiteto enfatiza a necessidade de conscientização dos arquitetos em relação ao seu compromisso enquanto criador de objetos comoventes. Segundo ele, é preciso estar consciente dos efeitos de sentido que quer criar e utilizar os recursos espaciais necessários para isso:
Ritmos, distâncias, tempos da arquitetura, fora da casa e dentro da casa. Uma questão de lealdade profissional nos obriga a dedicar toda a nossa solicitude ao interior da casa. Entramos nela. Recebemos um choque e é a primeira sensação. Ficamos impressionados com o tamanho de um cômodo que se segue a outro, com a forma de um cômodo que se segue a outro. Arquitetura é isso!
De acordo com a maneira como se entra num cômodo, isto é, de acordo com a situação da porta na parede do cômodo, a comoção será diferente. Arquitetura é isso!
Mas como recebemos a comoção arquitetônica? Pelo efeito das relações que percebemos. O que propicia tais relações? As coisas, as superfícies que vemos. Nós as vemos porque são iluminadas e, ainda mais, a luz do sol age sobre o animal humano com uma eficácia enraizada no próprio âmago da espécie.
Meçam então a importância capital do lugar onde abrirão uma janela. Vigiem o modo pelo qual esta luz é recebida pelas paredes do cômodo. Na verdade, desenrola-se aqui uma grande partida arquitetônica, aqui adquirem apoio as impressões arquitetônicas decisivas. Observem que já não se trata mais de estilos ou decoração. (LE CORBUSIER, 2004b, p.83)
Num outro âmbito de mobilização, que não esse conscientemente buscado na elaboração do projeto e na construção do objeto arquitetônico, encontra-se aquela criada pela própria essência do morar: a permanência no tempo. Assim, paradoxalmente, a função prática de morar implica uma relação a tal ponto intensificada pela extensão temporal de (con)vivência homem- espaço, que a casa acaba por transcender sua função prática (proteção, descanso etc.) e passa desempenhar também função mítica de proporcionar a seus moradores o prazer de “estar em casa”. É o que afirma Ludmila Bandão, conforme apresentamos acima, em relação à impossibilidade de o arquiteto prever e controlar totalmente a relação dos habitantes com o espaço que propõe construir e os efeitos que essa interação efetivamente irá produzir. Embora haja o desejo de controle (de luta contra o acaso, como a empreendida na arquitetura de Le Corbusier e por João Cabral em sua poesia), ele não é total, pois a casa não é apenas edificação; é também algo imaterial, co-produzido pelo habitante, e passa pela sensação de “estar em casa”.
Em busca de uma definição da natureza do espaço arquitetural, Alain Renier se aproxima do problema com uma definição em negativo:
Em effet, l’organisation systémique qui sous-tend l’espace à definir, n’est pás réductible à l’espace du géomètre dit “euclidien” qui se bornerait à façonner des solides de Platon. De la même manière, l’espace architectural ne peut être réduit à l’espace du plasticien, qui ne verrait (le conditionnel est employé à dessin) que matières et couleurs réunies dans une organisation sensible. Il ne peut être réduit non plus à celui de l’engénieur qui, maîtrisasant une technique particulière pour ne pás dire parcellaire, le transformerait em um objet physique aseptisé de toute appropriation. L’espace architectural ne peut être réduit par ailleur à celui de l’architecte qui, croyant dépasser les insuffisances des autres approches sectorielles, verrait dans l’élaboration patiente de son système formel la fin unique de son action. Enfin, l’espace em question ne peut être réduit à celui du
spécialiste des sciences humaines qui, à ne considérer l’espace du constructeur que comme le moyen d’une pratique sociale, risquerait de ne pas reconnaître la complexité de as constituition physique. L’espace architectural n’est pás seulement l’objet de pratiques sociales, Il est pratique sociale. (RENIER, 1979, p.53)
Se o que define a casa não é a configuração espacial em si, mas o seu uso (o fato de “funcionar como uma casa”), nem mesmo as funções inerentes ao habitar são suficientes para definir a casa enquanto tal, uma vez que elas não preexistem e não são determinantes, pois se alteram ao longo do tempo. Para Glunsberg, a velocidade das transformações sociais e espaciais interfere nas relações que o homem estabelece com o seu entorno:
a medida das transformações do entorno é inversamente proporcional à relação imaginária que se estabelece entre o sujeito do habitat e seu meio. Da mesma forma, se tivéssemos de mudar a linguagem permanentemente, não o faríamos como uma coisa natural, espontânea ou congênita, como ocorre com aquele que fala somente uma língua mãe e se confunde com ela, acreditando-a como a única possível. (GLUNSBERG, 1986, p.61)
Basta verificar o que nos apresentam Witold Rybczynski, Joseph Rykwert e Ludmila L. Brandão sobre as mudanças pelas quais passou a casa para entendermos isso.
Rybczynski mostra que não foi apenas o avanço tecnológico que determinou as mudanças pelas quais o conceito de casa passou ao longo do tempo; contribuíram para isso, o uso efetivo do espaço construído e as expectativas humanas em relação a esse espaço, tanto no que diz respeito à sua funcionalidade prática como em relação às expectativas físicas, estéticas e emocionais que motivaram as mudanças. Segundo o autor,
era pouco provável que alguém do século XVI tivesse seu próprio quarto. Foi mais de cem anos mais tarde que surgiram os cômodos onde os indivíduos pudessem ficar a sós – eram chamados de ‘privacidades’.
(...)
Além disso, os cômodos não tinham funções específicas; ao meio dia, o atril era retirado e as pessoas sentavam-se à mesa e faziam sua refeição. No final da tarde a mesa era desmontada e o banco longo virava um sofá. À noite, o que era sala de estar virava quarto de dormir. (RYBCZYNSKI, 2002, p.32)
início do século XX:
A demanda por moradias se tornou voraz e insaciável. As casas haviam sido um tanto negligenciadas pelos arquitetos do passado: eram produzidas por construtores que seguiam alguma prática estabelecida. Em uma cidade fortificada, as habitações ocupavam o espaço residual entre seus dois elementos públicos, as muralhas e as instituições. Da Antigüidade ao século XVIII, os artesãos tinham suas oficinas, os mercadores e mesmo os banqueiros tinham seus armazéns e escritórios, todos em suas próprias casas. Prédios de apartamentos alcançando até dez andares de altura já existiam no período final do Império Romano, mas, à medida que este declinava e as cidades antigas se despovoavam, foram aos poucos abandonados. Por outro lado, palácios toscanos e venezianos com três e quatro andares são os tipos mais conhecidos de habitação em que está estabelecida e fixada a combinação de moradia e dependências de trabalho. Do século XIV em diante, até os palazzi urbanos das famílias italianas mais poderosas tinham lojas ou armazéns no andar térreo e no mezanino, como as insulæ romanas; as melhores dependências ficavam no primeiro e no segundo andar; e apartamentos para famílias menos importantes, criados, ou mesmo locatários, nos andares superiores. (RYKWERT, 2004, p. 100-1)
A associação da moradia com o local de trabalho e a aglomeração de famílias em cortiços imprimiam um caráter público à casa. As casas eram apertadas e barulhentas, pois nelas moravam muitas pessoas. Dificilmente se poderia falar, então, em intimidade ou privacidade.
Por outro lado, podemos verificar que atualmente há uma tendência a unir novamente trabalho e moradia, porém as casas vão se transformando cada vez mais em habitação para uma única pessoa e não mais unifamiliar:
Isso é visível atualmente nas grandes cidades: a derrocada da família como instituição é acompanhada de uma mudança nos espaços domésticos. Mora-se, cada vez mais só. As divisões internas da antiga casa não mais são necessárias: dormir, fazer sexo, comer, até mesmo fazer a higiene, não exigem mais paredes internas. Come-se na rua, o sexo é feito freqüentemente nos motéis, enquanto o trabalho é cada vez mais produzido em casa. Por outro lado, os meios de comunicação trazem o mundo para dentro. Está-se em Roma, Nova York ou Hong-Kong sem sair da escrivaninha, via internet. Nem por isso a casa deixou de existir. O que ocorre é que o território-casa, sempre na relação com os outros tantos territórios, com o caos ou com o cosmo, emerge disponível, propício (ou não) ao atendimento destas ou de outras funções que são secundárias, até mesmo dispensáveis para se pensar a casa. (BRANDÃO, 2002, p. 65)
Se, num primeiro momento, essa volta da utilização do espaço doméstico também para a realização de atividades profissionais pode levar a imaginar uma volta correlata da mistura entre espaço público e espaço privado, não podemos nos esquecer que esse trabalho realizado em casa não exige mais a reunião de várias pessoas num único espaço. Pelo contrário, a simultaneidade das ações se dá não pela co-presença real dos envolvidos no processo de trabalho, mas pela comunicação informatizada. Curiosamente, essa mesma tecnologia de comunicação que possibilita o isolamento físico entre as pessoas, favorece a abertura da vida íntima, através das webcans, câmeras digitais etc. e da facilidade de publicação online, tornando acessível ao público tudo que se passa no interior desse espaço até então considerado privado. O homem da atualidade experimenta, dessa forma, um processo de complexificação cada vez maior na relação homem- espaço arquitetônico, em especial com sua moradia, provocado pelos apelos do novo contexto sócio-cultural em que está inserido e pela dificuldade também crescente de estabelecer os limites entre o que é do âmbito público e o que faz parte do universo privado.
Não cabe, porém, neste momento, enveredar pelo estudo da forma contemporânea de habitar, uma vez que os objetos de estudo a que nos dedicamos – a poesia de João Cabral e a