Na cena 1, parte II, ato II, voltamos ao segundo cenário, a praça de Ferrara, com o
balcão e o alojamento. Vemos Dom Alfonso e Rustighello, enrolados num manto. Eles conversam sobre a cena anterior em que Rustighello foi testemunha: “Sim, monsenhor, foi assim que aconteceu. Eu não sei com que bebida ela restituiu-lhe a vida e o fez escapar pelo pátio do palácio Negroni” (II,II,1,f.1). Dom Alfonso o acusa de ter permitido a fuga de Gennaro, mas Rustighello justifica-se dizendo que não pôde entrar com a porta trancada. Enfim, os dois cúmplices travam um dinâmico diálogo sobre o que Rustighello deveria ter feito, suas desculpas e argumentos contrários: se abrisse a porta, teria que matar Gennaro e a senhora, sem ter recebido ordens. Mas o duque retruca: “Rustighello! Os bons servidores são aqueles que compreendem os príncipes sem que tenhamos o trabalho de dizer tudo” (II,II,1,f.10). As duas personagens funcionam como uma dupla, mesmo que a relação de poder não seja igualitária: um manda, o outro obedece ou esquiva-se. Portanto, exige-se cumplicidade absoluta. Matar a filha do papa complicaria sua vida, pensa Rustighello, e se
não a matasse, posteriormente conciliada com o duque, ela o mandaria enforcar. A intimidade entre os dois permite dom Alfonso chamar o criado de “imbecil”. Mas nem tudo esta perdido: Gennaro ainda não partiu. Dom Alfonso prepara um plano: “Nesse caso, nós o emboscaremos atrás da casa. Já é noite. Nós o mataremos quando ele passar” (II,II,1,f.18). Mas o duque encaminha a função para Rustighello executar a ação, que a repassa ao duque. O ritmo cômico se impõe no diálogo com falas curtas que jogam com a escolha das armas e métodos para o crime. Rustighello propõe chamar os guardas para “despachar” Gennaro, sem que nenhum dos dois suje as mãos. Dom Alfonso contrapõe: “Meu querido, o senhor Machiavel329
me diz seguidamente que, nesses casos, o melhor seria que os príncipes resolvessem seus próprios negócios” (II,II,1,f.28). Eles se escondem na sombra, sob o balcão quando Máffio chega cantarolando. O caráter cômico da cena, marcado pela dinâmica, ritmo e linguagem familiar, contrapõe com a cena anterior, e sua eminência trágica. Chamamos a cena de “Um manto e dois patetas”.
Na cena 2, ato II, parte II, Máffio fala com Gennaro sobre a ceia na casa da princesa
Negroni. Gennaro não foi convidado e diz que parte em quinze minutos. As razões, ele lhe contará em Veneza. Máffio lembra-lhe do juramento que fizeram: de não se deixarem jamais, de serem inseparáveis, irmãos. O conflito entre os dois é justamente esse: Gennaro quer retornar à Veneza, levando consigo Máffio e esse quer que Gennaro fique para a ceia no palácio da princesa Negroni. As vantagens de um lado e outro são apresentadas: belas mulheres e alegres convidados à mesa em oposição aos bandidos e precipícios da estrada. No entanto, Gennaro precisa partir. Máffio tem um mau pressentimento com a viagem e Gennaro, que tem um mau pressentimento com a ceia. Os dois concluem que não querem deixar um ao outro e entram num acordo: Máffio propõe aproveitarem a noite na casa da Negroni e depois partirem na primeira hora. Gennaro decide falar ao irmão sobre a urgência de sua partida. Contando-lhe o acontecido ao ouvido, os dois saem do foco de atenção.
A dupla, Dom Alfonso e Rustighello, destaca-se na cena. Rustighello pergunta se devem atacar, mas Dom Alfonso prefere, antes, conhecer o término dessa história. Os dois assistem o desfecho de dentro da cena. Máffio volta-se rindo com a ingenuidade de Gennaro. Para ele, Lucrécia fingiu essa história para aproximar-se de Gennaro, por quem está apaixonada. Essa “história toda”, para Máffio, é “comédia pura”. Na comédia, ele encontra justificativas para todas as passagens da cena. Justamente a cena, que identificamos uma
329 Maquiavel, autor de O príncipe, tinha contatos diplomáticos com muitos principados. O retrato que ele pinta
estilística trágica em relação ao seu possível desfecho, é recebida, através da narrativa de Gennaro, como pura comédia. Máffio minimiza a situação, apesar de lembrar-se das ceias dos Borgia.
Quanto à ceia da princesa Negroni, ela será deliciosa. Tu virás. Que diabo! É preciso, no entanto, raciocinar um pouco e não exagerar. Tu sabes que eu sou prudente e sensato. Sabemos que houve duas ou três ceias famosas onde os Borgias envenenaram, com bom vinho, alguns dos seus melhores amigos, mas isso não é motivo para se deixar de cear. Isso não é motivo para sempre se ver veneno no admirável vinho de Siracusa, nem para se ver uma Lucrécia Borgia por trás de todas as belas princesas da Itália. Isso tudo são espectros e futilidades. Nesse caso, somente as crianças de peito estariam seguras daquilo que bebem, e poderiam cear tranquilamente. Por Hércules, Gennaro. Sois criança ou sois homem? Retornas à ama de leite ou vens cear? (II,II,2, f.29)
A imagem da ama de leite, a mulher que amamenta, que nutre, traz em si a imagem materna. Encontramos Gennaro em torno do tema “A mãe” desde o início do drama, e mesmo anterior a ele, por narrativa. Há, talvez inconscientemente, um retorno à mãe. Novamente, vemos a personagem em um momento de conflito e escolha. Ele não quer transparecer o medo (infantil), no entanto, sabe que há perigos em partir ou ficar. Ficar em Ferrara, ir à ceia à noite, significa “tomar a atitude de um homem corajoso”. A ação determina o caminho, crescer. Mas sua ingenuidade o leva a desdenhar uma escolha: “O que será, será. É uma escolha como qualquer outra. Está dito. Tu me apresentarás à princesa Negroni. Eu vou contigo” (II,II,2,f.30). Os dois saem de cena.
Dom Alfonso deixa o esconderijo acompanhado por Rustighello que traz a espada desembainhada pronto para atacar. Mas não será preciso. O duque lembra: “Eles cearão na casa da princesa Negroni. Se estou bem informado... Ele se interrompe e parece meditar por um instante. Depois começa a rir” (II,II,2,f.33). Enquadrando os temas da cena, apresentamos: “Os irmãos”; “Os convidado para a ceia da senhora”; “Coisas do amor”; “Partir ou ficar”; “O pressentimento”; “Sois criança ou homem?”; “O que será, será”; “O homem que ri”.