Luhmann dá contorno ao conceito de sentido aproximando-o do conceito de meio (medium). Meio é o par oposto de forma, sistema binário que atravessa toda a sociologia luhmanniana. Dado um contínuo disperso e contingente de elementos, po r exemplo, uma montanha de areia ou uma multidão dispersa de indivíduos, alguma força se aplica a esse meio e lhe empresta uma forma46. Assim, o caminhar na praia empresta a forma de pegadas no contínuo
disperso da areia, e a reunião efêmera de ind ivíduos dispersos forma a opinião pública em determinados contextos. Um meio se condensa em forma e é essa dinâmica catalítica que se aplica ao sentid o, uma força que altera a d isposição dos elementos sem lhe t ransformar a natureza.
Para Luhmann, o sentido seria produ zido em uma trama de operações que sempre pressupõe o horizonte de sua própria operação. Sentido seria um meio, a contrapartida necessária ao fechamento operacional dos sistemas. Operacionalmente, ele seria o horizonte de uma operação que só acontece no momento de sua própria determinação, nem antes nem depois47. Luhmann também recorre a Deleuze48 para desenhar seu conceito de sentido, insistindo na
propried ade efêmera do conceito para enfatizar seu caráter de processamento, em oposição a um sentido como qualidade imanente ao mundo, uma criação, fundação ou origem. O conceito
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dispensaria qualquer idealismo apartado da dinâmica dos sistemas e só ganharia existência como um meio que os sistemas utilizam e reproduzem.
O construtivismo radical da teoria luhmann iana empresta um caráter autônomo aos conceitos. Não é diferente em relação ao sentido, cujas características e funções só ficam mais claras quando dispostos em relação dinâmica com os elementos de um sistema. A memória seria um desses elementos que participam da produção de sentido. Ela construiria estruturas de uso exclusivamente momentâneo para conservar a selet ividade e redu zir as possibilidades de captura. A memória permitiria com isso uma ilusão49 de identidade ao longo do tempo, função importante
na distinção entre sistema e ambiente.
Isso porque os sistemas criariam um ambiente part icular para suas células, separação que as protege e que possibilita a especialização funcional, isto é, permite a criação de organismos. Essa proteção proporcionaria limites aos sistemas sociais e psíquicos, que podem assim desenvolver observações entre sistema e ambiente. Isto é, permitem a distinção entre auto - referência e heteroreferência. Com isso, haveria uma dupla diferenciação entre sistema e ambiente
— re-entry, diz Luhmann, tomando de empréstimo o conceito de Spencer-Brow n50. A primeira
seria a distinção produzida pelo sistema, e a segunda, a distinção da observação que é feita no sistema.
A função da memória seria dispor os resultados das seleções prévias em momentos do presente, operação que inclui tanto o esquecimento como a recordação. O sistema percorria operações avaliadas como positivas ou negativas, operações de auto-referência e heteroreferência, buscando provisões para se adaptar a situações imprevisíveis. É o resultado dessas operações que Luhmann chama de sentido, um re-entry que incide em um mundo desprovido de elementos pré- dados, de substâncias ou de idéias. A relação entre sentido e memória permit e a fixação dos elementos que o sistema vai operar. Elementos estes sempre dispostos em um ambiente de complexidade ilimitada. Para os sistemas de sentido o mundo não é um mecanismo imenso que produz o estado
das coisas. O mundo é antes um potencial de surpresas ilimitadas; é informação virtual que, não obstante , necessita de sistemas para gerar informação51. Sentido é o elemento que permite a auto-referência dos sistemas
psíquico e social, o nexo que atrela uma comunicação a outra ao vislumbrar um excedente de possibilidades comunicativas.
Luhmann relaciona todas as identidades de sentido à processualidade recursiva: números, objetos empíricos, símbolos, signos ou frases. Assim, se por um lado o sentido desses elementos se estende para além daquilo que é captado na observação, por out ro lado isso não implica que tais elementos estivessem sempre lá, independentemente das operações de observação. Como não haveria qualquer fundamento ontológico na realidade, não haveria também nenhuma
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disposição de objetos ou capacidade de percebê-los para além das operações de observação. A substância do mundo seria ela mesma observações recursivas que remetem a um futuro, a possibilidades de observação infinitas que compreendem o mundo como realidade virtual.
Isso empresta um caráter histórico ao sentido porque sua processualidade conecta o surgimento contingente à indeterminação das possibilidades futuras. Toda determinação deve, portanto, passar pela operação de sentido, e toda inscrição no sentido tem como único fundamento a certeza de uma contingência recursiva. No caso da comunicação lingüística, essa recursividade se faz por meio das palavras de uma língua, que não obstante sejam em número mais ou menos calculável, podem ser usadas de maneiras incalculáveis. O mesmo é válido para a ordem das relações espaciais ou para o sentido das ações. Toda relação entre meio e forma, diz Luhmann52, é sempre uma questão de ordenação das possibilidades disponíveis no momento.
O sentido como um meio significa que a produção do sentido é rigorosamente uma operação de distinção. Elas aludem ao mesmo tempo para si mesmo e para um segundo, uma distinção que demanda sempre outra distinção e que reprodu z também a presença do elemento excluído, pois o sentido seria um mundo total, uma forma que em seus dois lados contém uma cópia de si mesma. O incorporado como atual é seguro mas instável, e o outro lado da forma é estável mas inseguro (pois não se pode prever o d esenlace). Esse processamento seletivo responde pela d inâmica invariável do sentido, e a única operação que poderia descartá-lo seria o vazio absoluto, o nad a ou o caos, porque toda negação t eria como potência aquilo que nega objetivamente. No que tange a conceitos e nomes, Deus seria o único nome que não seria definido por meio de distinções seletivas53.
Luhmann retoma a fenomenologia para definir a função desse sentido. Se a abordagem fenomenológica o d escreve como aquele excedente de remissões54 que, de maneira circular, é
acessível pelo próprio sentido, diz Luhmann55, então o sentido é um contexto de remissões
infinitas e indeterminad as, mas que se fazem acessíveis e se reproduzem de forma determinada. A forma do sentido se caracterizaria pela diferença entre atual e possível56, única distinção capaz de
constituí-lo. O problema é que, ao pensarmos no sentido, temos em mente um vetor imaginário que integra sociedade e indivíduos.
Luhmann resolve essa aporia ind icando que a atualização do sentido antecipa o possível, isto é, a atualização é simultaneamente projeção e realização dos novos estados do sistema57.
Tanto os sistemas psíquicos como os sociais seriam capazes de distinguir entre eles mesmos e os demais utilizand o o medium sent ido, meio que permite a observação do sistema e do ambiente como forma. Não é que o sentido incida sobre o mundo exterior (ambiente). O mundo exterior é em si inobservável, e é por isso que o sentido só poderia ser produzido como forma. Essa
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produção emerge então como comportamento próprio (Eigenbehavior, na terminologia de Heinz von Foerster) disposto em um presente atual cuja fu gacidade incide sobre eventos que sucedem simultaneamente. Mas uma vez que tenha sido assinalado um antes e um d epois, um passado e um futuro, a ausência de temporalidad e do sentido dá lugar a uma cronologia que pode inverter as disposições temporais. Isto é, pode utilizar o tempo para reduzir complexidade: tratar passado e futuro como se não fossem atuais58.
A circularidade dos conceitos da teoria dos sistemas de Luhmann condiciona sociedade à comunicação, e comunicação ao sentido. Para Luhmann, comunicação é processamento de sentido porque é o sentido e apenas ele que confere realidade aos sistemas pela atualização seqüencial das operações. A radicalização do conceito — como meio da observação submetido a distinções — dissolve o mundo d as substâncias em um horizonte de expectativas passível de intermináveis combinações, incontáveis distinções dispostas somente em função das observações. Mas permanece a circularidade no conceito de sentido, fruto da auto-referência operacional que empresta à teoria uma autêntica coerência tautológica.
A única saída para a ―destautologização‖ da auto-referência do sentido, diz Luhmann, seria a subdivisão do conceito em três modalidades ou dimensões59. A produção de sentido teria
três aspectos que Luhmann denomina ―dimensões do sentido‖. As descrições resultantes de cada processualidade seriam distintas e não guarda riam qualquer relação interdependente entre si60. A
primeira dimensão é objetiva e se refere à diferenciação fundamental entre o que tem importância para o sistema e o resto dos eventos. Ela estabelece a diferença entre sistema e ambiente e seleciona as informações que serão referenciadas em processos comunicativos futuros. A segunda dimensão é temporal e se vincula à memória do sistema. Ela distingue entre aspectos estruturais e variáveis de um evento, ou entre a situação original e futura de uma estrutura em relação a um evento. A percepção temporal estabelece d iferenciações entre estados presente e futuro do sistema, vinculando-os à contingência dos eventos do presente.
A terceira d imensão é social e reconhece os integrantes do processo comunicacional. Na terminologia luhmanniana, ela reconhece Alter como Alter e Ego como Ego, possíveis endereços da comunicação. É a dimensão social do sentido que permite às expectat ivas de Alter serem tomadas como válidas, estabelecendo uma relação de dupla contingência entre as expectativas de Alter e as d e Ego61. Essas diferentes dimensões do sentido seriam relacionais e em nada
ontológicas, isto é, os sentidos se definiriam em função de uma observação que pode assinalar um evento como parte de uma ou outra dimensão, não prescrevend o portanto qualquer posição fixa para os eventos da comunicação.
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De todo modo, como unidade operacional que traça distinções e indicações, o sentido seria também uma forma que se contém em si mesma, ou seja, é a diferença entre distinguir e indicar. A circularidade se repete: uma forma é, em última instância, uma distinção que volta a aparecer em si mesma como o distingu ido. Esses paradoxos da teoria luhmanniana só se resolvem por meio de um salto: aquilo que Luhmann chama de despar adoxização. Recompondo o paradoxo, essa operação é ela também, e de maneira reincidente, uma distinção.