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La  construction  absolue

6   Analyse  du  choix  de  déterminant  avec  la  possession  inaliénable  en

6.1   Le  possessif  détermine  la  possession  inaliénable

6.3.10   La  construction  absolue

ii - agentes eletrônicos notas

Compu tad ores estão começando a alterar o processo comuni cacion al de u ma man eira qu e torna im possível para o usuário en tender o qu e es tá acon tecendo, quem es tá dizen do o q uê, qu ais fontes são confiáveis e quais não são, ou m esmo a qual pess oa se des tina certa ação comuni cacion al. A cap acid ade d e processamen to dos compu tad ores al tera tanto o co nteúdo com o a form a do sentid o comu nicado, desconstruind o as man eiras que usávamo s para reconhecer nosso pr óprio es tilo.

Dick Baeck er1

I. Realidade eletrônica

O conceito de sentido espectral surgiu de uma pesquisa realizada ent re os anos de 2002 e 2005. Esse trabalho tinha por objeto as salas de bate-papo d o sistema de teletexto multi- plataforma IRC (Internet Relay Chat)2, e por objetivo, d escrever a natureza instável e imprevisível

do sentido como fenômeno emergente nas salas de bate-papo. Essa mesma investigação terminou por identificar um padrão de interação característico tanto das plataformas de interação síncronas como das assíncronas. A produção de sent ido se desprend ia das variáveis contextuais, entendidas como a conjuntura sócio-cultural, e passava a ser definida como um fenômeno lingüístico e cibernético não intencionado.

Os usuários de IRC se ligavam uns aos outros em diferentes grupos de acordo com o assunto em pauta. A geometria dessa acomodação era o resultado de uma variação seqüencial de posicionamentos que se modelavam conforme um assunto cedia espaço para outro. Foi a partir dessa mecânica de coligações voláteis que estabelecemos o primeiro princípio da produção de sentido espectral: a aglutinação (netclustering). O segundo princípio de ordenação é a disrupção (breakthrough) do sentido. Esses dois movimentos são pares simétricos que correspondem à territorilização e desterritorizalização, originalmente descritas por Gilles Deleuze3 como dois

movimentos do sentido que perfazem os planos de imanência e de consistência.

A disrupção do sentido se fazia presente na emergência de determinada palavra ou frase. De modo inesperado e extraordinário, essas proposições criavam uma fenda ou irrupção de sentido que desenhava um pad rão particular de interação social: a propagação viral de formas e idéias. Esse efeito, que causa um estado de redobrada atenção nos usuários que participavam da

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conversação, era normalmente causado por uma palavra aleatória. Uma vez que qualquer palavra- chave em um determinado tema (thread) era potencialmente capaz de um efeito viral, concluía-se que o mecanismo que originava esse padrão de interação não poderia estar nas palavras em si mesmas, mas no efeito ou uso dessas palavras. Isto é, no sentido.

Embora a tradição hermenêutica entendesse o sentido como uma variável contextual, a pesquisa sugeriu que essa definição conceitual encontrava sérias limitações quando aplicada à comunicação eletrônica. A pesquisa indicava, com isso, a possibilidade de se trabalhar a produção de sentido eletrônica desvinculada de variações contextuais. Foi essa pesquisa seminal que sugeriu a proposição de um sentido particu lar aos circuitos elet rônicos. Desde então, este modelo de produção de sentido vem sendo chamado de espectral.

A análise original de Jacques Derrida4, em A Escritura e a Diferença, indicava que as

circunstâncias e intenções do texto constituem partes ativas do contexto. Indic ava também, por outro lado, que o contexto não impõe limite ao sentid o de um texto, uma vez que o sentido na linguagem exigia o cultivo da ausência em detrimento da presença. Sent ido era então um apagamento da consciência, e a linguagem literária não era entendida como simples ferramenta, mas como um ambiente. Da mesma maneira que um escritor não controla a linguagem, mas é incluído nela, o signo espectral assume que a linguagem nos fala e nos escreve, e o sentido é uma variável independentemente da subjetividad e5. Como no sonho de Mallarmé de uma máquina de

geração de texto autônoma, o sentido eletrônico seria o resultado de um fluxo da escrita onde a linguagem realiza a si mesma. Esse sentido independeria das intenções entre emissor e receptor, pois o próprio texto é liberado da necessidade de expressão e se apresenta como interação sígnica, um arranjo regulado menos pelos conteúdos significados do que pela própria natureza do significante. Anthony Wilden resume o problema:

Não é mui to im portante qual a int enção ou o qu e alguém quer di zer. O q ue im porta, afinal, é o qu e el es dizem e o que eles fazem. Qualqu er „cálculo de intenções‟ ou motivações é em verdade uma cons trução psi cológica sem saída p orque, dess a perspectiv a, todas as m otivaçõ es são válidas. (...) Quando tr atamos da linguagem, portan to, n ós não lidamos com o conceito de au tor, mas co m o con cei to d e t exto. D e ou tro m odo n ós cairíamos naquil o que a críti ca li terária tem denomi nado como „a fal ácia da intenção‟.6

A pesquisa anterior manteve um registro contínuo das interações em determinadas salas de bate-papo na t entativa de encontrar palavras-chave, frases de efeito ou termos que pudessem explicar o aumento quantitativo e qualitativo das interações. Com a exceção de temas notadamente controversos, curiosidades sexuais ou a tentativa intencional de sabotagem do canal por parte de alguns usuários, não havia qualquer identidade ent re essas palavras que causavam uma explosão interativa. Uma parte significativa dessas manifestações se explicava em razão das incompreensões e barreiras comunicacionais resultantes da falta de informações visuais do meio. O conceito de multiálogo7, apresentado por Gar y Shank8 em 1993, foi pioneiro ao tratar a questão

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do sentido em ambientes eletrônicos como um fenômeno comunicacional que transcende o escopo da lingüística.

Os impasses metodológicos relacionados com o sentido eletrônico retornariam na década seguinte, especialmente a partir de 2004, com o fenômeno das redes sociais da internet. Essas redes sociais indicavam que a questão transcendia uma plataforma específica e não se restringia às interfaces síncronas. Também a área de comentário d os blogs começava a apresentar, a partir de 2005, um padrão de interação entrópico com elementos de incomunicação. De acordo com Huberman, Romero e Wu9, as novas redes sociais d errubavam as barreiras entre as plataformas

de interação síncronas e assíncronas e sugeriam um padrão de interação comum a elas.

Mas antes do fim de 2006, uma plataforma de interação específica já combinava interação síncrona e rede social. O Tw itter10, com isso, liquidou com a divisão que já se mostrava artificial e

conferiu credibilidad e ao detalhado estudo sobre os relacionamentos nas redes sociais divulgado pelo Laboratório de Computação Social da Hew lett Packard11, que enfatizava que a conexão entre

usuários não significa qualquer interação necessária entre eles. No caso específico do Tw itter, as conexões apresentadas eram insignificantes do ponto de vista interativo. O relatório afirmava ser necessário localizar uma estrutura invisível nas redes sociais — um circuito que faria com que os usuários confiassem nos boatos que leram e os passassem adiante, disseminando com isso uma idéia, uma crença ou uma moda. Em outras palavras, o critério de aglutinação da informação na comunicação eletrônica não podia ser explicado pelas redes sociais em si mesmas ou pela maneira como elas funcionavam.

A imagem de um sentido espectral d escreve o princípio de aglutinação da informação eletrônica. Não se refere, portanto, ao cont eúdo do discurso ou ao significado das mensagens apresentadas em um medium específico. Friedrich Kittler12 sugere que há uma correlação material

entre os med ia e a organização do mundo, isto é, haveria uma lógica dos med ia que evolui em sincronia com a percepção humana13. Essa sincronia, conquanto contingente e variável, sugere

certa oscilação ent re os aspectos materiais e fenomenológicos dos meios14. Com isso, os

processos digitais estariam implicados na circulação de informação e dariam forma ao sentido. O maior obstáculo para descrever esse modelo integrado de sent ido não é a distinção entre mensagem síncrona e assíncrona, mas entre mensagem intencional e automática. Isto é, mensagens enviadas por agentes humanos e mensagens geradas por um programa automatizado, como é o caso dos sistemas automatizados dos bancos ou dos provedores de acesso à int ernet. Uma vez que dispositivos gerem mensagens, classifiquem informação e ofereçam respostas a perguntas, eles fazem parte do processo comunicacional. O desafio é abordar esses dois tipos de mensagens dentro de um modelo integrado de informação e comunicação.

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A pornografia15 se apropriou dessas ferramentas para comercializar um bate-papo no qual

a imagem interativa das garotas é transmitida para o consumidor. O usuário acredita ver e interagir com corpos cuja origem, localização ou existência real é desconhecida . Os limites interativos proporcionados por programas inteligentes como os chatterbots, que simulam o diálogo humano, são objeto de estudo desde os princípios da internet. O sucesso duvidoso, mas ocasionalmente efetivo, desses programas16 de interação faz-de-conta também é parte do

processamento do sentido eletrônico. Esses sistemas, mesmo oferecendo uma interação precária, estão acoplados à maquinaria da informação digital de tal maneira que a separação entre a intencionalidade dos agentes humanos e a automação dos sistemas elet rônicos se torna impraticável. O sentido espectral é o resultado dessa perda de referências materiais entre emissores e receptores.

A origem dessa reflexão remota ao debate contemporâneo sobre autoria e morte do autor. Isso porque as mensagens geradas por máquinas afetam o receptor e comunicam um sentido cuja autoria e intencionalidade não são determináveis. Com isso, o sentido espectral contraria os preceitos do sentido intencionado, uma especialidade ordinariamente atribuída aos autores humanos, uma vez que se baseia na tese de que intencionalidade e subjetividade são componentes marginais à interação eletrônica. A cena comunicacional eletrônica não seria o resultado de uma produção hermenêutica intencional, mas de uma catástrofe estrutural e semântica no sentido empregado pelo matemático René Thom17, isto é, o efeito de uma

modificação essencial na estabilidade das formas que garantiam sentido aos discursos e eventos18.

Essa catástrofe semântica na estabilidade do sentido e autoria pode ser ilustrada em razão da vinculação condicionante entre sentido e meios técnicos de produção e reprodução. Fried rich Kittler faz de uma frase de Nietzsche a epígrafe de seu livro — nossos instrumentos de escrita

funcionam junto com nossos pensamentos19 — para ilustrar a influência do meio de produção no

pensamento do autor. A máquina teria não apenas antecipado a écriture automatique na obra nietzschiana, mas também alterado seu estilo de escrita e pensamento. Martin Stingelin20, por sua

vez, retoma a frase enigmática para indicar que a união de texto e máquina liquida com a concepção de autoria.

Essa mesma relação entre máquinas de escrever e a morte do autor pode ser encont rada em uma história mais prosaica: o teorema do macaco infinito, originalmente sugerido por Émile Borel21, em 1913, como uma proposição estatística sobre macacos e datilografia. Borel d izia ser possível, ainda que improvável, que mil macacos teclando frenética e aleatoriamente em mil máquinas de escrever produzissem, eventualmente, uma enciclopédia. O interessante na metáfora

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de Borel não é a proposição lógico-estatística, mas a hipótese de que a uma produção aleatória possa acidentalmente produzir algo que faça sentido.

A brincadeira, que mais tarde ecoaria no conto A Biblioteca Total de Jorge Luis Borges, foi levada a sério por Hugh Petrie22, para quem um conjunto mais sofisticado de máquinas de

escrever seria necessário. Petrie diz que se os macacos tivessem máquinas de escrever que digitassem palavras e pensamentos do período elisabetano (ao invés de letras), formadas de modo a refletir o pensamento elisabetano da época, a brincadeira dos macacos poderia produ zir não uma enciclopédia, mas algo ainda mais improvável: as obras completas de William Shakespeare23.

Para David Foster Wallace, por mais que os macacos consigam digitar toda uma enciclopédia ou as obras completas de Shakespeare, isso não significa que o texto tenha sentid o, uma vez que os macacos com máquinas de escrever não são responsáveis pelo sentido intencionado24. Mas se

consideramos que o texto tem sentido independente dos objetivos do autor25, e que nenhum

macaco teria intencionalment e escrito uma enciclopédia ou uma obra de Shakespeare, então a intencionalidade e a subjetividade deixam de ser uma questão essencial26.

Não é a posição de Barthes27, para quem o debate sobre a morte do autor remete à

impossibilidade hermenêutica de o autor responder pelas conseqüências de um texto. Seriam os leitores, e os leitores apenas, que responderiam e determinariam os sentidos últimos de um texto. Derrida28 esclarece a disposição entre contexto e autoria ind icando que as circunstâncias da

escrita e as intenções do autor são efetivamente parte do cont exto de um texto, mas o contexto não impõe limites ao sentido do texto. Isto é, a categoria do sentido seria não uma ferramenta do texto, mas um ambiente que lhe subsume. A perspectiva espectral, com isso, alude precisamente à hipótese que David Foster Wallace entende como absurda: que o texto não é produzido por nenhum autor específico. O sentido espectral é um sentido não intencionado, uma vez que perfaz tanto as proposições lingüísticas como a sutura da informação-comunicação.

Mas o debate pós-estruturalista também criou uma imago particular do sentido. Em oposição à trad ição platônica, que entende a presença como ontologicament e anterior à expressão e busca uma origem subjetiva em cada mensagem, a abordagem pós -estrutural concede uma atenção especial à escrita em detrimento da fala, uma inversão que apenas confirma a tradição hermenêutica. Os componentes do sentido espectral, diferentemente, carecem de uma metafísica da expressão e não se prendem a qualquer sentido intencional último: o registro da interação em uma sala de bate papo dificilmente poderia ser classificado como escrita ou fala. O sentido espectral se encontra, deste modo, com a abordagem não-hermenêut ica apresentada por Niklas Luhmann. Sentido seria uma operação serializada de seleções realizada pelos sistemas.

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