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Lovendring av 2006 – innskrenkninger i bruken av

6   Institusjonelle faktorer

6.6   Lovendring av 2006 – innskrenkninger i bruken av

Vimos no capítulo anterior que, para a semântica cognitiva, o significado linguístico não é arbitrário, porque deriva de esquemas sensório-motores. São, portanto, as nossas ações no mundo que nos permitem apreender diretamente esquemas imagéticos espaciais e são esses esquemas que dão significado às nossas expressões linguísticas. Por outro lado, a transitividade e a valência de um verbo são manipuladas pelo contexto discursivo e, assim, o falante elimina, centraliza, periferiza os elementos que fazem parte da cena discursiva, de acordo com a sua intenção comunicativa.

Essa explicação é uma boa pista para explicarmos o que os resultados qualitativos de nossa pesquisa nos revelaram. Para facilitar a leitura dos dados, agruparemos os verbos da nossa lista61 a partir do modo como eles são relacionados com a preposição a, que, como o leitor deve ter percebido, se transforma em um

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Com letra minúscula, porque temos humildade em reconhecer que ela está longe de ser um constructo fechado, como a Lista da gramática quer parecer ser.

“boneco de massa” nas mãos (ou na língua) do falante: ora ela desaparece, ora é trocada por outra preposição. A preposição com, que “aparece” no verbo namorar também é analisada.

4.2.1. O desaparecimento da preposição a: verbos obedecer/ desobedecer; pagar/ perdoar; aspirar (= desejar) e assistir (=ver)

Nesta subseção, indicamos a regência apregoada pelas gramáticas tradiescolares e manuais didáticos analisados e comparamos com a regência do uso, revelada pelos testes qualitativos. Assim, mostramos mais uma vez como eles são limitados para a discussão de regência verbal.

Com relação aos verbos obedecer e desobedecer, todos esses materiais apontam que tais verbos exigem a preposição a para introduzir complemento indireto. Ferreira (2003), Terra & Nicola (2003) e Almeida (1995) ressaltam uma particularidade importante desses verbos: “embora sejam transitivos indiretos, eles podem, mesmo na norma culta, ser usados na voz passiva” (FERREIRA, 2003, p. 560). E essas colocações são, no mínimo, curiosas. Em primeiro lugar, dizer que o verbo “exige” alguma coisa é o mesmo que dar a ele um status de entidade autônoma e independente, que se autogoverna sem a influência do falante. No entanto, embora exigentes, esses verbos são, ao mesmo tempo, “caridosos”, já que podem ser usados na voz passiva. Em linguística funcional-tipológica, a análise é bem mais real: o verbo passa à voz passiva por ter um argumento objeto direto disponível para avançar para a posição sintática de sujeito. Pragmaticamente, na voz passiva o ocupante da posição de objeto é elevado ao

status de tópico e passa a ocupar o primeiro plano da cena discursiva. Logo, estamos,

sim, diante de verbos transitivos diretos e não mais diante de verbos transitivos indiretos, cujos argumentos não dispõem de status gramatical e social para se tornar sujeito/tópico.

Os nossos alunos-colaboradores, por sua vez, mostraram que “obedecer/ desobedecer o” se relaciona a uma cena discursiva e “obedecer/ desobedecer ao” nos remete à outra. Trata-se, pois, de verbos iguais, mas diferentes? Não antecipemos as conclusões. Vejamos o que os outros verbos têm a nos mostrar.

No que se refere a pagar e perdoar, os manuais didáticos e gramáticas tradiescolares são novamente uníssonos: nos dois casos, o complemento direto deve ser a coisa paga/ perdoada e o indireto, introduzido pela preposição a, a pessoa paga/ perdoada. Também curioso observar que esses verbos não são tão bondosos quanto

obedecer/ desobedecer, ou seja, nenhum deles teoricamente admite construções como

“Meu irmão foi perdoado” e “Meu irmão foi pago”.

Novamente, os colaboradores indicam que há algo além da mera exigência gramatical. Primeiramente, porque usam (e abusam) do verbo pagar no sentido transitivo para pessoa (91%), bem como do perdoar (95%) nessa mesma acepção. Em segundo lugar, porque na análise qualitativa também demonstram que as construções “pagar o/ perdoar o” e “pagar ao/ perdoar ao” remontam a sentidos bem diferentes.

Os verbos aspirar (=desejar) e assitir (=ver) também apresentam um só discurso nas obras analisadas: exigem preposição a por serem transitivos indiretos. Terra & Nicola (2003, p. 147) fazem questão de ressaltar que “os verbos transitivos indiretos (exceção feita ao verbo obedecer e seu antônimo, desobedecer) não admitem voz passiva”, mas não fazem tanta questão assim de explicar o porquê de isso acontecer, limitando-se a classificar como inaceitáveis construções como “o filme foi assistido pelos alunos” e “o cargo era visado pelos funcionários”.62

Novamente os estudantes-colaboradores se mostram mais coerentes do que os próprios autores. Para não perder o costume, usam (e abusam) da transitividade direta para as duas acepções (73%, para aspirar, e 91%, para assistir) e dão explicações distintas para construções com e sem a preposição a.

Com essa análise, chegamos à conclusão de que, nesses verbos, a preposição a não se faz mais necessária no (P)B para ligar o termo regente ao termo regido, uma vez que as relações estabelecidas por eles são altamente transitivas, isto é, ocupam o mais alto grau na escala de transitividade de Hopper & Thompson (1980): há dois participantes (um agente e um paciente); o verbo indica ação; há um aspecto durativo mais definido; o agente tem mais controle sobre a ação, que é real; o objeto é conhecido e altamente afetado pelo agente. Quando a preposição a está presente, o aspecto durativo é menos definido; o agente não tem tanto controle assim; a ação tende a ser hipotética e mais durativa; e o objeto não é tão conhecido e/ou afetado pelo agente.

Podemos perceber aqui como a análise “listal” dos verbos problemáticos exclui

uma série de informações interessantes que podem efetivamente conduzir o aluno a dar sentido à regência verbal. Afinal, os estudantes-colaboradores estão nos mostrando que as relações de regência não são construídas aleatoriamente e que é possível buscarmos explicações mais científicas para seu entendimento.

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4.2.2. A permuta da preposição a: verbos ir e preferir

Nesse grupo, temos construções em que a preposição a, antes exigida pelo verbo, é preterida por outra. No caso de ir, o falante seleciona a preposição em; já para

preferir, temos a expressão do que.

A presença do verbo ir nas Listas de Regência, por si só, já é problemática. Almeida (1995, p. 167) considera que regência só se refere “a verbos de predicação incompleta, pois que os intransitivos, sendo completos, não regem palavra alguma”. Ora, se ir é um verbo intransitivo, ele não deveria figurar nessas Listas. O fato é que ele não só figura, como também figura exigindo preposição a quando indica lugar. Nas gramáticas tradiescolares e manuais didáticos analisados, a confusão está formada: Terra & Nicola (2003, p. 148), para justificar a presença de ir e chegar na Lista, informam que

alguns verbos intransitivos, sozinhos, não possuem sentido completo; exigem um adjunto adverbial, chamado por alguns gramáticos de complemento

circunstancial, uma vez que tais adjuntos integram o sentido do verbo,

indicando a eles uma circunstância (geralmente de lugar). (grifos no original)

Por sua vez, Ferreira (2003, p. 559) ensina que os verbos ir e chegar “exigem preposição a introduzindo o adjunto adverbial de lugar”, mesma explicação dada por Cereja & Magalhães (2003).

Essas definições remetem as discussões de regência e transitividade à era do “adjunto é termo acessório e pode ser eliminado” e à do “complemento é integrante e não pode sair”. A confusão ocorre porque no caso específico dos verbos ir e chegar os gramáticos procuram explicações para suas limitações metodológicas onde raramente pedem auxílio: na semântica – embora, como vimos, é ela quem comanda a sintaxe, sendo ambas subordinadas à pragmática. Assim, fica difícil explicar ao aluno que na sentença “vamos ao cinema”, o sintagma “ao cinema” possa ser eliminado sem qualquer prejuízo. Se adotarmos o conceito de valência semântica anteriormente apresentado, chegaremos facilmente à conclusão de que o verbo ir pede, semanticamente, dois argumentos semânticos, embora um deles seja, sintaticamente, apenas um adjunto; mas quem disse que tem de ser a sintaxe a determinar a semântica? É justamente o contrário...

Voltando aos resultados, nossos alunos-colaboradores mostram que a preposição

a já não é tão eficaz na regência do PB, uma vez que 97% deles preferem construir a

relação “ir em”. A regência “ir a”, ao que parece, os conduz para outras interpretações. No caso de preferir, menos polêmico que ir, as gramáticas tradiescolares e os manuais didáticos nos ensinam que ele também é exigente e cobra a preposição a para o complemento preterido e a transitividade direta para o complemento preferido. Novamente, a expressão “preferir algo do que alguma coisa” é totalmente ignorada.

E, novamente, os dados qualitativos nos conduzem a uma interpretação diversa:

do que nos remete a significados diferentes do que a.

4.2.3. O aparecimento da preposição com: verbo namorar

O último verbo de nossa lista também é tratado unissonamente nas gramáticas tradiescolares e manuais didáticos analisados: transitivo direto. Sacconi (2009, p. 470) tenta explicar a presença da preposição com – e obviamente não convence:

No português do Brasil, porém, usa-se esse verbo como transitivo indireto, à moda do italiano: namorar com alguém. Por que, afinal, nós, brasileiros, usamos namorar com? Porque a língua nos permite estar de namoro com. O povo usa namorar com não só por analogia com tal construção, mas também porque se diz corretamente casar com e noivar com. Então, o homem do povo, com certa lógica, raciocina assim: Se eu posso noivar com ela e até

casar com ela, por que é que não posso namorar com ela? E vai

namorando com ela...63 (grifos no original)

Novamente os dados mostram uma relação diferente entre “namorar alguém” e “namorar com alguém”, e a preposição com é, talvez, a grande responsável por essa mudança de interpretação.