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Informantinformasjon knyttet til planprosessen

6   Institusjonelle faktorer

6.11   Informantinformasjon knyttet til planprosessen

Neste trabalho, a pesquisa sobre regência verbal nos mostrou que o abismo entre a teoria escolar e a prática linguística é imenso. E esse abismo se dá porque o ensino tradicional insiste em dizer que o nosso país é monolíngue, com muitas variedades linguísticas de um português que já não é tão europeu, mas está longe de ser brasileiro. Como vimos no capítulo 2, esse discurso só serve para coitadizar aqueles que não falam a variante de prestígio. Em outras palavras, a língua padrão reconhece a existência dessa variante, mas elas não podem ter o mesmo prestígio social.

Daí, a miscelânea de conceitos e procedimentos por parte dos professores. O conceito de variação e mudança linguística adotado nas escolas é insuficiente para dar conta do que realmente acontece hoje com o sistema educacional brasileiro: o português utilizado nas escolas está longe de ser o mesmo que falamos no cotidiano. E a escola, enquanto insistir que falamos a mesma língua com variantes, segregará ainda mais a relação entre teoria linguística e prática pedagógica.

Utilizando as palavras de Bagno (2002, p. 164),

Falamos o português do Brasil, com suas múltiplas variedades, mas não reconhecemos valor à nossa língua materna, consideramos ela inferior à língua dos portugueses. Por isso, na hora de escrever, tentamos [...] obedecer regras que não têm correspondência em nossa gramática [...] de falantes

nativos do português do Brasil. (itálico no original).

Além de considerar ideal o português falado na Europa, existe uma “tentativa de descrever o português do Brasil com o aparato conceitual usado para estudar a gramática do português de Portugal” (BAGNO, 2002, P. 164). Assim, não tem como não nos afogarmos no “mar de contradições linguísticas”, pois o que a escola nos propõe é a sobreposição da visão de mundo que temos, enquanto brasileiros, por aquela que os portugueses adotam. E isso é absolutamente impossível!

Por apresentarem regras gramaticais muitas vezes antagônicas – como são as de regência –, o português ensinado na escola segue uma tendência de uso que não se

64 Diglossia vem do grego e significa “duas línguas”. Segundo Bagno (2002, p. 163), “empregamos esse

termo em Linguística para designar uma situação em que duas línguas são usadas ao mesmo tempo por uma mesma comunidade de falantes, sendo que uma delas em geral tem um status sociocultural mais prestigioso que outra”.

enquadra nos ambientes que os estudantes frequentam em seu cotidiano. Dessa forma, fazemos os seguintes questionamentos: se são tão diferentes, devemos continuar considerando que o português do dia a dia é uma variante do português da escola? Não é possível considerar que se trata de dois sistemas linguísticos distintos?

Para Martelotta (2009, p. 47),

não há como negar que existe uma influência dos padrões de correção impostos pela gramática [tradiescolar] sobre as restrições de combinação dos elementos linguísticos, que tende a crescer à medida que aumenta o nível de escolaridade do falante ou o grau de formalidade exigido pelo contexto de uso. Entretanto, propor que as restrições de combinação se explicam basicamente pelos ideais de correção não parece ser uma boa estratégia, já que todas as línguas do mundo apresentam, em número extremamente elevado, construções alternativas aos padrões gramaticais, como é o caso de construções portuguesas como “A gente vamos lá”, “Eu vi ele”, “Isso é pra mim fazer”, entre outras que são combatidas pelas normas gramaticais. Isso significa que o uso da língua não está regido, pelo menos em sua essência, pelos padrões de correção.

As regras prescritas pela gramática tradiescolar servem, pois, para explicar o funcionamento de uma língua que está longe de ser aquela utilizada pelo falante no seu dia a dia. Ela se restringe a contextos mais formais em que determinadas construções não são aceitas. Por essa razão, não é possível considerar essa gramática, cujos parâmetros se limitam ao certo e ao errado, como sendo a única capaz de definir as regras de combinação de elementos linguísticos.

Por conta de seu destaque nos meios mais letrados de nossa sociedade, e, consequentemente, no sistema educacional brasileiro, as regras da gramática tradiescolar, a qual governa o Português Padrão – PP, acabam influenciando diretamente a gramática do falante do (Português) Brasileiro – (P)B, causando-lhe algumas alterações superficiais. Quanto mais conhecedor das regras da gramática tradiescolar, mais bem aceito o falante é nos meios mais letrados da sociedade, que “falam” Português Padrão.

O que o ensino de gramática, infelizmente, faz é transmitir a ideia de que o falante, para ser um bom usuário de língua, deve abandonar os conhecimentos já adquiridos em sua língua materna e ficar apenas com as regras da gramática tradiescolar, que não trata de sua língua materna. O que dificilmente fica claro para o alunado é que a gramática tradiescolar regula as regras do PP, língua idealizada para servir de instrumento único de comunicação nos meios mais formais; e que a língua

materna desse alunado é regulada por outra gramática, com regras diferentes daquelas que ele deveria aprender na escola. Por essas e outras razões, “português é tão difícil”.

Mais uma vez, aproveitamos dos lúcidos ensinamentos de Bagno (2002, p. 166):

É essa distância entre o que a tradição gramatical e o ensino conservador chama de “português” – um conjunto de regras voltadas essencialmente para determinados usos escritos da língua – e a língua que os brasileiros realmente falam (e escrevem em situações em que não estão sob o olhar policialesco da tradição e da escola), é essa esquizofrenia linguística, esse dilema que temos de enfrentar diariamente – é tudo isso que constitui o tipo especial de

diglossia que temos no Brasil.

Trazendo essas constatações para a regência verbal, podemos citar os seguintes exemplos:

(56) O aluno assistiu o filme. (assistiu = viu). (57) O aluno assistiu ao filme.

(58) Maria namora com João. (59) Maria namora João. (60) Eu cheguei no clube. (61) Eu cheguei ao clube.

Para o Português Padrão, as sentenças (56), (58) e (60) estariam erradas, uma vez que, para a sua gramática, o verbo “assistir”, no sentido de “ver”, é transitivo indireto – caso seja utilizado como transitivo direto fica no sentido de “ajudar”, “auxiliar”. O verbo “namorar” é transitivo direto. Já o verbo “chegar” rege a preposição “a” e não “em”.

Já para o (Português) Brasileiro, todas as construções acima são gramaticais. As sentenças (56), (58) e (60) são naturais dessa língua, uma vez que, para os contextos comunicativos em que ela ocorre, são perfeitamente aceitáveis. Já as construções (57), (59) e (61) seriam empréstimos do Português Padrão, o que mostra que o PB sofre influência direta do PP.

Isso mostra que (o Português do) Brasil e (o Português de) Portugal chegaram a/ em um ponto em que suas diferenças suplantam as semelhanças, principalmente nos aspectos semântico-pragmáticos, como pudemos ver no uso das preposições. Bagno (2002, p. 173) propõe uma saída para essa diferença linguística com a qual concordamos totalmente:

O reconhecimento das diferenças entre o Português Brasileiro e o português europeu, [...] a convicção de que são duas línguas diferentes – ainda que muito aparentadas [...] – permitirá criar, no Brasil, um ambiente linguístico muito mais respirável, tornando o ensino de língua mais democrático e realista, deixando para trás o peso da carga colonial, que é tão forte na nossa cultura.

Novamente, os resultados que nós obtivemos em nossa pesquisa comprovam essas afirmações. Ao admitirmos as diferenças entre as línguas, admitiremos também que a cultura brasileira e a portuguesa são diferentes e, como tal, não há de se falar em língua melhor ou superior à outra.

4.6. Nossos colaboradores parecem ter entendido o recado, mas ainda há muito que