É inegável a aceitação das mídias digitais pelo público contemporâneo e sua influência ainda está sendo debatida e analisada pela comunidade acadêmica em diversas áreas. A mudança de paradigmas suscita debate, gera especulações. A forma como a tecnologia se embrenha em nossas vidas cotidianas, se enraíza nas ações mais banais do dia a dia, influencia a própria forma como nos comunicamos e estende sua influência até à própria linguagem – não apenas a linguagem audiovisual, como apresentada nesse estudo – tem seus detratores e defensores.
Acredito que as mídias digitais, uma vez estabelecidas como meios válidos de criação e comunicação, venham a adicionar ao alcance da criatividade humana, reciclando e remodelando conceitos de forma sempre a agregar algo de valor, e não agir de forma a substituir ou tomar o lugar de outra forma de expressão.
Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças é um filme que exemplifica a
capacidade que as mídias digitais apresentam de ampliar o universo narrativo do filme e servirem como plataforma para que os fãs demonstrem seu fascínio pela obra. Além disso, o filme incorpora em sua própria linguagem híbrida elementos de outras mídias, gerando um produto audiovisual que carrega, em seu conteúdo e linguagem, características de sua contemporaneidade. Apesar dessa roupagem moderna, é um filme que não ignora o passado, fato comprovado pelas diversas pontes interdiscursivas que se traçam entre filmes de Alain Resnais e filmes do passado recente, assim como também mantém o diálogo com obras do cinema contemporâneo, trazendo em seu discurso, portanto, um caráter dialógico que busca pensar seu tempo sem ignorar a história do próprio audiovisual – características essas que espelham o próprio tema central do filme, a memória.
O conceito de dialogismo, em sua essência, visa o crescimento de um indivíduo através do diálogo, de conhecer coisas que o “eu” não sabe através do contato com o “outro”. Creio que o diálogo entre diferentes mídias e a conseqüente hibridização de linguagens sirva ao desenvolvimento da sociedade, que encontre novos meios de exprimir seus anseios e lidar com eles.
Novas percepções surgem com novas tecnologias, e a adoção de tais tecnologias de forma tão rápida quanto tem acontecido lançam questionamentos sobre a natureza humana. Talvez estejamos nos encaminhando para uma sociedade de ciborgues, e no embate entre homem e máquina, a questão sobre o que nos faz realmente humanos tem relevância.
Como a obra de Michel Gondry – e outras obras aqui estudadas – apresenta, por mais que a tecnologia avance e saiba “ler” nossos desejos e intuições mais profundas, e possa remediar as dores mais íntimas, o sentimento que guardamos de uma experiência, algo tão imaterial, tão inefável e etéreo quanto uma lembrança estimada é o que ainda divide humanos de máquinas.
Enquanto um indivíduo puder sentir o mundo ao seu redor e exprimi-lo através do meio de sua escolha, a arte e a reflexão sobre a existência continuarão a ser os limites que separam humanidade e tecnologia. Indubitavelmente, a contemporaneidade é acelerada, cheia de estímulos dispares e fugazes e a comunidade acadêmica se esforça para lançar luzes sobre esse fenômeno relativamente recente. O público tem respondido positivamente diante desse fluxo intenso de informações e a cultura de sua época, refletindo tal intensidade, também tem criado produtos à altura dessa exigência.
Embora o principal núcleo de obras desta dissertação tenha advindo do cinema
mainstream, o audiovisual brasileiro mostra força na aplicação das idéias aqui
apresentadas. Campanhas transmídia ainda não apareceram com força no cinema nacional, porém avanços relevantes aparecem na produção televisiva brasileira, com telenovelas ampliando seu universo ficcional para a internet através de blogs escritos pelos personagens, aplicativos para dispositivos móveis e sites dedicados à discussão de assuntos levantados no programa, todos visando o diálogo e a participação ativa do espectador.
Tendo como exemplo o que acontece no mercado brasileiro, é possível identificar novos rumos do audiovisual contemporâneo: uma reconfiguração da ecologia de mídias, dos elementos principais desse ambiente audiovisual. Sendo que o Brasil sempre almejou a produção industrial cinematográfica, mas nunca atingiu um patamar
estável nesse sentido, a produção televisiva brasileira sim, se firmou industrialmente, e é nessa base sólida formada pela televisão que hoje vemos avanços tanto em direção a ramificações da televisão nas mídias digitais como também de lançamentos no cinema com maior apoio para divulgação, com lançamento de filmes que rivalizam nas bilheterias com obras estrangeiras.
Gradualmente, o cinema deixa de ser a mídia central desse ecossistema audiovisual, de forma que televisão, videogames e mídias digitais ganham maior espaço e reconhecimento acadêmico, validando-se como plataformas de articulação de idéias. A forma como essas diferentes mídias dialogam e interagem indicam a multiplicidade de canais para a expressão artística e, mais uma vez, a coexistência harmoniosa das diferentes mídias.
A ficção contemporânea, portanto, é um espelho de sua época, e estudá-la com afinco, sem distinção da mídia adotada para sua expressão, nos ajudará a ter uma melhor compreensão do mundo que nos cerca e da situação em que nos encontramos. Através do estudo da convergência de mídias e da hibridização de linguagens audiovisual e digital espero ter colaborado para tal entendimento de nossa sociedade e nossa cultura.
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