4 Resultater fra kartlegging av elvesandjeger
4.1 Gaula
4.1.2 Lokaliteter langs Gaula
Fonte: Acervo fotográfico do Museu da Cidade de São Paulo - Tombo: DC/0000382/E
Nos primórdios do bairro, suas chácaras eram habitadas somente por escravos e por caseiros, e seus proprietários viviam na região urbana. As terras dessa área teriam sido doadas para aqueles que as pediam à Câmara Municipal com a finalidade de construírem casas de campo, hortas e pomares. (REALE, 1982, pp. 7,9)
A localização do Brás outrora começava no antigo Gasômetro ese estendia por toda a zona leste da cidade até a Penha. Na época, tinha-se por Gasômetro toda a área que circundava a sede da companhia que produzia gás para a iluminação pública da cidade de São Paulo, em meados do século XIX. Hoje, essa área reduziu-se apenas às proximidades do atual Parque Dom Pedro II. O que se tem atualmente como essa localidade restringe-se à rua do Gasômetro, hoje conhecida pelo seu comércio de madeiras.
O bairro do Brás tem origem a partir das primeiras décadas do século XVII; sua paisagem, marcada por chácaras e regiões alagadiças, era cortada pelo Caminho da Penha (atualmente avenidas Rangel Pestana e Celso Garcia), que servira no passado como rota de romaria e de comércio, entre a colina da Penha e a colina da Sé. O Caminho da Penha é fundamental na formação do bairro do Brás, pois nele se situa a Capela de Bom Jesus de Matosinho. A partir de 1725, iniciam-se as primeiras habitações no entorno dessa capela. No entanto, o vilarejo formado somente passará à categoria de Freguesia em 1819, com a
assinatura de documentos pelo Bispo Dom Matheus, ocasião em que a igreja de Bom Jesus de Matosinho foi elevada a Paróquia. (DIAFERIA, 2002, p. 41)
O Brás, desde o Brasil Colônia, passou por diversas transformações, as quais, em alguns períodos, ocorreram de forma lenta, mas, em outros, de forma rápida. Os historiadores são unânimes em afirmar que um período marcante na transformação espacial do bairro ocorreu no final do século XIX, com a chegada da ferrovia e a decorrente vinda de (i)migrantes de diferentes lugares.
A ferrovia, inaugurada em 1877, definiu a vocação do bairro e influiu decisivamente na posterior configuração social do espaço, pelo fato de haver atraído para suas margens atividades industriais e comerciais. Seus terrenos alagadiços, de baixo custo, e as indústrias que começavam a se instalar transformaram-no num bairro popular. (AMARAL, 2010. pp. 176-177)
É notável que a ferrovia trouxesse mudanças permanentes no espaço urbano do bairro, para além das atividades comercias e industriais, como observa Amaral (2010). Alterações foram percebidas também no perfil religioso da localidade, logo no início do século XX. Os imigrantes italianos, chegados às décadas de 1920 e 1930 do mesmo século, trouxeram uma devoção religiosa afinada com sua região de origem. (RIBEIRO, 1994, p. 98)
Com os planos de desenvolvimento urbano do município em parceria com o Estado e a Federação7, o bairro foi se tornando arrojado, e passou a atrair mais pessoas, as quais vinham
de fora em busca de novas oportunidades de trabalho. Primeiro, chegaram italianos e outros estrangeiros, e, mais recentemente, nordestinos e latinos8. A presença desses (i) migrantes,
tanto no início da formação do bairro quanto nos dias atuais, tem deixado traços de diferentes culturas no local. Para Torres (1985, p. 43), por exemplo, a presença da imigração europeia na cidade, especialmente a italiana, deixou marcas indeléveis no bairro.
Com as reformas urbanas e a expansão decorrente do fluxo populacional, novas áreas foram sendo agregadas. Desse modo, as fronteiras do bairro foram ampliadas e, hoje, ele está apenas a uma distância aproximada de dois quilômetros do centro da capital paulista, fazendo divisa com os bairros da Mooca, do Belenzinho, do Pari, da Luz e da Sé (REALE, 1982, p. 03).
7 Investimento de verba federal para o desenvolvimento urbano.
A origem do nome9 atribuído ao bairro do Brás já gerou diversas especulações entre os
meios de comunicação, e três versões sempre são apresentadas. Entretanto, em dados publicados no site da Prefeitura de São Paulo, é notável que a versão para a origem do nome do bairro seja a mesma aceita por Torres (1985, p. 43), o qual faz referência às atas da Câmara Municipal de São Paulo, no termo de vereança de 04 de março de 1769.
Os primeiros registros do bairro do Brás remontam ao início do século 18, quando foi pedida a edificação de uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus do Matosinho em uma chácara de José Braz (assim mesmo, com “z”). Ao que parecem, as primeiras referências a esse José Braz constam em atas da Câmara dos Vereadores de 1769, quando se despacharam várias petições em nome do mesmo. Tal chácara ficava na margem de uma estrada, que era conhecida como Caminho do José Braz, passou a ser a Rua do Braz, e hoje leva o nome de Avenida Rangel Pestana.10
Curiosamente, até o ano de 2010, a memória do chacareiro José Brás estava circunscrita à pequena praça localizada ao lado da estação Brás do metrô. Após dez anos de luta por parte de moradores e comerciantes da região, no dia 8 de janeiro de 2011, foi inaugurado no espaço localizado embaixo do viaduto da estação do metrô Brás o parque Benemérito José Brás. No ato público, estavam presentes o prefeito Gilberto Kassab, o subprefeito da Mooca Rubens Casado, o secretário do Meio Ambiente Eduardo Jorge, o vereador e autor da Lei do Parque Francisco Chagas, o engenheiro Carlos Fortner e o Padre José Roberto da Igreja Nossa Senhora de Casaluce11.
9 A chácara da Marquesa de Santos ou do Ferrão serviu para demarcar os limites do Brás, até o ano de 1874. Com a morte de dona Domitila de Castro, viúva do brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, a propriedade passou para Brasílico de Aguiar Castro, filho caçula da Marquesa de Santos, o qualviveu até 1891. Brasílico era conhecido também por Brás, e essa seria uma versão da origem do nome do bairro. Outros insinuaram que Brás deve-se à passagem de Brás Cubas, fundador de Santos, pela região, por volta de agosto de 1567. Dentre as três versões existentes a respeito da origem do nome do bairro, a versão mais aceita é a do historiador Nuto Santana, para quem a verdadeira origem desse nome deve-se ao português José Brás, por ter residido em meados do século XVIII entre o Gasômetro e o Largo da Concórdia, onde cultivava como dono das terras. (BATTAGLIA, 1981)
10 PREFEITURA DO MUNICIPIO DE SÃO PAULO. Coordenação das Subprefeituras, Subprefeitura Mooca. São Paulo, 2013. Disponível em:
<http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/subprefeituras/moo. php?p=435>. Acesso em: 11 ago. 2013. 11 AMIGOS da praça, Inauguração do parque benemérito José Brás. Amigos da Praça Blog spot, São Paulo 25 Jan. 2011. Disponível em: < http://amigosdapracabras.blogspot.com/2011/01/inauguracao-do-parque-benemerito-jose.html> Acesso em: 11 ago. 2013.
As autoridades sempre prestigiaram o bairro. Na gestão do prefeito Paulo Maluf (1993-1996), através do projeto de lei do vereador Hanna Garib, foi instituído o “Dia do Brás” a ser comemorado, no âmbito do município de São Paulo, no dia 08 de junho, conforme a Lei nº 11.756, de 12 de maio de 1995.12
O bairro do Brás tem em sua história, portanto, uma série de processos que conjugam os valores dados à memória do fundador José Brás aos atos da política de governo. Nessa memória, ainda há espaço para se pensar nos demais agentes que fizeram parte da construção daquilo que o bairro é nos dias atuais. Esse bairro não ficou ileso diante das constantes concentrações que se organizaram e se reorganizaram nos espaços sociais da capital paulistana.
Na memória coletiva, as mudanças pelas quais passou a região, além do saudosismo, deixaram suas marcas na paisagem religiosa de São Paulo. Basta olhar ao redor das movimentadas avenidas do bairro para perceber que o Brás é um exemplo considerável das transformações no campo religioso ocorridas no Brasil, especialmente em seus grandes centros urbanos, nas últimas décadas do século XX.
Os movimentos apontam, desde os primórdios, a presença marcante de sujeitos sociais cuja história e vida estão imbricadas à religiosidade, demonstrando a relação entre o fenômeno urbano e a expansão de diferentes confissões religiosas no estado de São Paulo.
2.1 Memória e devoção católica
A fundação de diversos bairros, e até de cidades, no contexto brasileiro, esteve ligada à religião católica romana, segundo o pesquisador Jesus (2006, pp. 12,17). Ao estudar essa relação, o autor ressalta o fato de que, na origem do bairro do Brás, houve um forte vínculo entre os primeiros moradores da localidade e sua devoção específica, para a qual erigiam algumas capelas e igrejas católicas. Assim, a história de muitas cidades brasileiras e a história da religião, ou da devoção de algum santo católico, está imbricada num conjunto de narrativas onde a memória se desloca dos monumentos cívicos para os lugares sagrados.
12 SÃO PAULO. Lei n˚ 11.756, de 12 de maio de 1995. Institui o Dia do Brás. Diário Oficial do Município de São Paulo, São Paulo, 13 mai. 1995. Disponível em:
Igrejas, capelas, lojas de artigos religiosos, celebrações e festas, comidas, odores e sabores são apenas uma parte das memórias que se tem do antigo bairro do Brás, por onde passaram tantas romarias, e que hoje fervilha com novas concentrações de fé e de crença no divino.
Jesus (2006) também observa que, desde o passado colonial até os idos do Império Brasileiro, a paróquia como existência religiosa exercia além do poder espiritual, poderes seculares, isto é, civis e políticos: o discurso religioso corroborava a educação moral e os bons costumes entre os citadinos; o pároco era autoridade nas questões éticas; os fiéis confessavam seus pecados e tinham nas homilias dominicais apelos à vida regrada e piedosa. No entanto, não eram essas as principais necessidades dos devotos católicos, ou não eram somente essas as suas carências.
A invocação aos santos, às divindades, aos poderes sobrenaturais, quer em religiões de matriz africana, quer em religiões de matriz indígena, ou nas de matriz cristã, está sempre associada às situações em que o homem não tem domínio sobre a natureza. No século XIX, na região do Brás, as enchentes dos rios, as secas e as pestes que atingiam os animais impeliam os mais pobres, e, em alguns casos, os mais ricos, a buscarem na devoção aos santos uma solução de seus problemas. (SOUZA, p. 441)
Até meados do século XIX, os paulistas, vindos de uma tradição rural, consideravam a crença como uma necessidade de obter a proteção divina para solucionar os problemas advindos da precariedade de sua existência: os santos eram invocados para solucionar os problemas das enchentes, das secas, das pestes que atingiam as plantações e os animais, das epidemias que dizimavam as pessoas. (AZZI, 2005, p.41)
A devoção maior do bairro do Brás, no passado, era a Bom Jesus de Matosinho e a Nossa Senhora da Penha, a qual era invocada em tempos de crise e de catástrofes na cidade. (DIAFERIA, 2002, p.41)
Nesse contexto, o processo de formação do bairro do Brás demonstrou o poder religioso na cidade com os vínculos existentes entre a religiosidade popular e o cotidiano da sociedade. Os estudos sobre religião e cidade contribuem para a compreensão desse processo no bairro do Brás, que, desde a sua fundação, está intimamente ligado à concentração de religiosos, primeiro católicos, depois protestantes, e, atualmente, pentecostais.
No passado colonial, os relatos dizem respeito à presença de religiosos no bairro e à construção da primeira capela em homenagem ao Senhor do Bom Jesus de Matosinho,
iniciada nos primórdios da colonização. Foi o próprio chacareiro José Brás quem erigiu a primeira capela do bairro. A devoção católica ao Senhor do Bom Jesus foi trazida de Portugal, da cidade de Matosinho, distrito de Porto, por volta da segunda metade do século XVIII (REALE, 1982, p. 03). A identidade religiosa dos portugueses, marcadamente católicos no lado de cá do Atlântico, mantinha-se vinculada a devoções que incluíam a crença em santos e o costume de nomeá-los padroeiros das cidades.
O advento da República no país e as consequentes transformações urbanas do bairro trouxeram uma nova onda de construções de edifícios católicos, em virtude das quais colaboradores leigos da burguesia emergente, cheios de influências europeias, sentir-se-iam num espaço religioso distante da rusticidade e da sociedade escravocrata (AZZI, 2005, p.413).
A partir da proclamação da Republica, houve em São Paulo um movimento significativo por parte da instituição católica no sentido de construir novos templos que se mostrassem à altura do desenvolvimento urbano, marcado por forte influência europeia em seus edifícios. A direção dessas novas construções estava nas mãos da hierarquia eclesiástica, do clero diocesano e das diversas congregações europeias que se tinha estabelecido na cidade nessa época. (AZZI, 2005, p.413)
Nesse processo de desenvolvimento urbano, podemos observar no bairro do Brás, como descreve Torres (1985, pp. 101,102), novos templos com outras devoções católicas, a exemplo da devoção à “santa cruz” da Igreja de Santa Cruz da Figueira, na rua do Brás, expressando a fé da maioria da população católica. A autora faz menção aos documentos da Câmara Municipal nos quais, no ano de 1873, são encontradas solicitações para a construção de uma capela de São João; no ano de 1876, os documentos apontam para a solicitação de José de Souza Ribeiro para a edificação de uma capela com invocação à Santa Cruz. Reale (1982) destaca, dentre os principais fatos que marcaram a vida do bairro no início do século XX, o aparecimento de novas igrejas.
O Catolicismo no bairro continuava predominante. Nesse processo de novas construções, no ano de 1903, é inaugurada uma nova igreja matriz do Senhor Bom Jesus de Matosinho (Foto 1), edificada em estilo romano, em forma de cruz. A edificação dessa nova igreja, no entanto, não foi suficiente, inicialmente, para apagar os vestígios e as práticas da
religiosidade popular, como observa Reale (1982, p. 29), ao relatar que, na Semana Santa, eram realizadas procissões do enterro13 e do encontro, que percorriam todo o bairro.