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“Vem pra cá São Paulo, vem pra cá Brasil, o milagre tá aqui no Brás, na Av. Celso Garcia, 899”. 45

45 Slogan sempre proferido pelo pastor Agenor Duque no programa de rádio veiculado todos os dias à

A transmissão de programas evangélicos através do rádio iniciou-se ainda na década de 1940, com os protestantes históricos (presbiterianos), mas somente a partir de 1950 os pequenos grupos evangélicos tiveram abertura nas emissoras. Nesse período, surgiu a primeira igreja genuinamente pentecostal, O Brasil para Cristo, do missionário Manoel de Melo. Com ela, criou-se o programa de rádio conhecido entre os evangélicos como A Voz do Brasil para Cristo, o qual iniciava uma nova era do rádio para os pentecostais. Nessa época, também, surgem os centros produtores de programas, por exemplo, o CAVE (Centro Audiovisual Evangélico). A ênfase do Pentecostalismo nesse período era o apelo à cura divina; nesse sentido, o rádio tornou-se um forte aliado na propagação do evangelho, pois ecoavam em suas ondas sonoras as mensagens e as fortes chamadas para que os ouvintes se dirigissem aos locais de culto, onde “residia o milagre” (Campos, p. 69-70)

Se, com o advento tecnológico, o rádio, para uma parcela da população, deixou de ser meio eficaz de comunicação, para outra, especialmente a população das periferias metropolitanas, o rádio tornou-se veículo poderoso, principalmente em conjunto com o telefone. Nessa perspectiva, Carranza (2011, p.191) afirma que pastores e padres são mediadores de sentido ao ordenarem e ressignificarem as intervenções dos radio-ouvintes, transformando o rádio em radioatendimento.

No “corredor da fé” não é diferente: os líderes passaram a fazer uso do rádio, tanto AM como FM, e recentemente, das Web Rádios, em seus sites institucionais, seus portais de rádios gospel, e em aplicativos para celulares Android e Ios. Ressalte-se que o celular é um dos melhores meios de comunicação para propagação de mensagens, e por meio dele são feitos atendimentos, além de fortes apelos convocando para o comparecimento ao endereço físico da denominação.

O Quadro (05) a seguir apresenta as denominações do “corredor da fé” e as principais emissoras nas quais elas veiculam seus programas radiofônicos. O quadro não contempla todas as emissoras de rádio das quais as igrejas têm programação, visto que há uma constante mudança de emissoras / igrejas. O quadro não apresenta também as denominações Catedral da Bênção e Igreja Católica Paróquia São João Batista do Brás, presentes no “corredor da fé”, pois, no momento desta pesquisa, elas não veicularam programação por meio do rádio.

Quadro 05 – Denominações Religiosas x Emissoras de Rádio

Paróquia Bom Jesus do Brás Rádio 09 de Julho – AM 1600khz Comunidade Essência de Deus Rádio AM (São Paulo) 1150 AM Catedral Carismática das Nações Rádios FM 102,7 - FM 90,3 Igreja Internacional do Poder da Fé Rádios FM 101,3 - FM 97,3

Santuário Espiritualista de São Paulo Rádio Capital – AM 1040 kHz Igreja Jesus Fonte de Vida Rádio FM 101.3.

Comunidade Cristã Amor e Graça Rádio FM 88,7 - FM 103,5 Igreja Universal do Reino de Deus Rádio FM 99.3

Igreja Ev. Assembleia de Deus – M. do Brás Rádio FM 105,7. Templo de Salomão (IURD) Rádio FM 99.3

Ministério Mudança de Vida Rádio FM 90,5 - 101,3 - 102,5 Igreja Apostólica Plenitude do Trono de Deus Rádio FM 97,3 - FM 105,7 Igreja Missão dos Sinais de Deus Rádios FM 99,5 - FM 103,1

Fonte: Dados elaborados a partir de informações contidas nos sites das denominações – crédito do autor, manual das frequências.

Para além do rádio, a televisão tornou-se também meio de propagação das mensagens e do chamado ao local do milagre. Em detrimento do rádio, a programação da TV tem um custo bem elevado, criando, assim, um marcador de diferença. Aparecem na TV as grandes denominações, enquanto as pequenas mantêm-se no rádio, e improvisam a transmissão de imagens através das chamadas Web TVs, com links exclusivos em suas páginas da internet.

Um detalhe tanto na programação radiofônica como na televisiva emerge do discurso: trata-se de um forte apelo para que os fiéis compareçam aos locais de culto e a eventos, com a justificativa de que lá se tem o “poder de Deus”. Esse discurso corrobora uma prática de deslocamento que, na concepção de Gomes (2008, p. 69), trata da busca de:

“Um lugar de poder mais forte”. Em grande parte das vezes, o percurso não é solitário e tampouco anônimo. Organizam-se em grupos e caravanas em suas respectivas congregações locais, e partem juntos. Outras vezes, formam-se grupos de parentes, amigos ou conhecidos. Um levando o outro, com o propósito de, individual e coletivamente, terem uma experiência com

o sagrado. O peregrino solitário também tem seu lugar. Ele parte de um ponto preestabelecido em direção ao “lugar de poder mais forte”.

O “lugar de poder forte” é uma das justificativas dos líderes denominacionais, e significa que somente no espaço onde está instalada a denominação, ou onde está o “homem de Deus”, é que está o poder divino. Campos (1997, p. 123) menciona que: “o templo é o espaço geográfico, onde o céu parece ter-se encontrado com a terra e com tal está carregado de sinais estimuladores de experiências com o sagrado”.

Essas e outras justificativas apresentadas demonstram que a espacialidade das denominações, sobretudo pentecostais, no corredor da fé, não se restringe apenas a uma única análise, mas nota-se que vários fatores, ao longo dos últimos anos, contribuíram para a formação da mancha religiosa nas avenidas Rangel Pestana – Celso Garcia e no bairro do Brás.

5. Considerações finais

Nesta pesquisa pretendi descrever e esquadrinhar a dinâmica da “mancha” de templos religiosos, sobretudo pentecostais, nas principais avenidas que ligam o centro da cidade à zona leste da capital paulista, tendo como inspiração teórica as categorias analíticas desenvolvidas no escopo da antropologia urbana. No que diz respeito às contribuições analíticas no campo das ciências das religiões, meu objetivo consistiu em mapear a presença religiosa e, de forma mais específica, a presença evangélica pentecostal nas avenidas Rangel- Pestana e Celso Garcia, especialmente no perímetro do bairro do Brás.

A análise me permitiu considerar que a presença de tantas igrejas evangélicas pentecostais na avenida Celso Garcia seja em sua dimensão geográfica – que diz respeito à junção de importantes equipamentos urbanos num mesmo território, com destaque para o corredor de ligação centro-leste, contemplado por diversas linhas de ônibus que ligam a zona leste de São Paulo ao centro e a outros bairros, além de a avenida também possuir acesso facilitado pela malha ferroviária e metroviária – como eixo formador de redes de sociabilidade, que permite o encontro de pessoas num espaço social definido ao mesmo tempo em que incentiva o trajeto para outras regiões da cidade.

Diante do que foi desenhado aqui é possível afirmar eu o fenômeno apresentado neste trabalho reúne e compreende as lógicas de funcionamento e as relações de troca e sociabilidade que permeiam esse “corredor” de visibilidade da fé, constituindo um circuito de crença na cidade de São Paulo.