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Lokal motstand mot atypiske ansettelser

No final do mês de janeiro de 1936 continuavam a ser publicados artigos sobre o I Congresso Nacional de Turismo, apesar de este ter terminado cerca de duas semanas antes. As edições de O Seculo de 25 e de 29 de janeiro, ou as de 5, 11, 18 e 19 de fevereiro, por exemplo, editaram ainda conclusões de sessões de trabalho, e o jornal de 8 de abril referia, na primeira página, a   publicação   em   “elegante   separata”   da   comunicação  de  Roque  da  Fonseca,  “O  Turismo  e  a  Economia  Nacional”.  A  5  de  maio ainda se divulgava que os congressistas poderiam solicitar as atas oficias do congresso, tendo-se os resquícios deste encontro prolongado ainda mais devido à exposição e ao

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concurso nacional de fotografias, organizado por O Seculo, e anunciado por esse jornal no dia da sessão de abertura das jornadas.

Tal como sucedeu com o congresso, esta exposição fotográfica também foi sempre referida como um evento bem-sucedido,   que   “conseguiu   interessar   todos   os   setores  da  vida  portuguesa,  mais  ou  menos  ligados  á  propaganda  do  turismo”  (O Seculo, 28 de março de 1936 de 1936: 2), tendo sido ao longo desses meses diversas vezes tema de primeira página do jornal que a concebeu. A edição de 30 de março de 1936 indicava que o elevado número de fotografias recebidas forçara a organização a uma nova seriação das mesmas, nas classes amadores, profissionais e trabalhos expostos fora do concurso, o que resultou no adiamento da exposição para a segunda quinzena de abril.

As fotografias seriam apresentadas numa grande exposição a organizar em Lisboa e serviriam posteriormente para renovar as decorações das carruagens e das salas de espera das estações dos Caminhos de Ferros. No dia 5 de fevereiro a primeira página de O Seculo confirmou a realização da grande exposição nacional e do concurso de fotografias. Alguns dias depois, a 12 de fevereiro, a propósito deste certame, o diário anunciava que

vão ser organizados um catalogo e um arquivo das belezas picturais dos aspectos monumentais e artisticos. (...) O Conselho Nacional de Turismo e o Secretariado de Propaganda Nacional (...) estão como nós, empenhados em que êste certame, de carater nacional, assuma uma importancia e um aspecto até hoje sem precedentes em materia de exposição de fotografias.

O Seculo, 12 de fevereiro de 1936: 1

O   jornal   afirmava   que   aceitaria   fotos   que   retratassem   os   “monumentos   mais   interessantes e os trechos mais   pitorescos   da   paisagem   portuguesa”   (O Seculo, 14 de fevereiro de 1936:2), e que divulgassem grandes estabelecimentos e centros de turismo, como hotéis, casinos ou termas. As fotos premiadas seriam exibidas no Catálogo da Exposição Nacional e Concurso de Fotografias com o título Uma viagem através de

Portugal, publicado pela Editorial de O Seculo em abril de 1936, e descrito  como  “um

verdadeiro dicionario geografico das belezas picturais e da riqueza monumental historica  e  artistica  das  varias  regiões  do  País”  (O Seculo, 23 de abril de 1936: 1).

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O regulamento do concurso, apresentado em O Seculo de 19 de fevereiro de 1936, reiterava a intenção de “desenvolver   e   fomentar   os   progressos   do   Turismo   Nacional”  (O Seculo, 19 de fevereiro de 1936:9),  bem  como  o  propósito  de  “fornecer   aos organismos que superintendem no Turismo, tais como Conselho Nacional de Turismo, Secretariado de Propaganda Nacional, Sociedade Propaganda de Portugal, Comissões locais de Iniciativa, etc.,   as   provas   que   necessitem   para   os   seus   arquivos”   (ibidem:9). Este certame incluiria duas secções diferentes, apesar de ambas terem como objetivo comum o   “interesse   turístico”.   A   primeira   era   designada   por   Aspectos

Artísticos, Monumentais, Historicos e Picturais, e a segunda por Turismo Comercial (casinos,  hotéis,  termas…).

Todas as fotografias deveriam apresentar “belos motivos picturais, arquitectonicos e historicos que possam interessar o visitante nacional e, sobretudo, os

estrangeiros que nos visitam, no desejo de conhecer as decantadas belezas de Portugal e

as suas gloriosas tradições históricas”   (O Seculo, 26 de março de 1936: 1; itálicos nossos). A poucos dias da inauguração da exposição, que seria primeiro visitada por “altas  individualidades e  só  depois  aberta  ao  público”  (O Seculo, 22 de abril 1936: 2), a Comissão Organizadora declarou-se uma vez mais orgulhosa da iniciativa e confiante de que esta era uma causa de verdadeira utilidade nacional, pois

todas as regiões portuguesas estarão representadas na Grande Exposição Nacional de Fotografia, todas as cidades, todas as vilas interessantes, nos seus aspectos gerais e também nos inumeros documentos fotográficos referentes á vida aldeã e campezina, a faina do mar e do campo, á indumentária carateristica de cada provincia portuguesa, do continente, das ilhas adjacentes, e até das nossas colonias africanas, da costa oriental e ocidental. (...) Em qualquer das «Casas de Portugal», em Londres, Paris ou Rio de Janeiro, se poderão organizar com uma parte minima os trabalhos que vamos expôr, museus fotográficos da maior utilidade sob o ponto de vista da Propaganda do Turismo.

O Seculo, 17 de abril de 1936: 1

Finalmente, no dia 25 de abril de 1936, a exposição foi inaugurada, tendo a abertura oficial, tal como a do I Congresso Nacional de Turismo, sido presenciada pelo Presidente da República. A edição desse dia de O Seculo evocava, da seguinte forma, a abertura do certame:

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E' hoje um dia de festa para O Seculo (…). Quere assim, o mais alto magistrado da Nação (…) significar a sua simpatia pela nossa iniciativa, a que atribuimos uma finalidade altamente nacionalista e patriotica.

O Seculo, 25 de abril de 1936: 1

À imagem do que sucedera também no congresso, o Presidente da República, retratado numa fotografia em companhia dos ministros da Educação Nacional e do Comércio, e do diretor de O Seculo, manifestou-se satisfeito com a mostra e com aquilo que ela representaria para a persecução do bem da “Nação”, tendo, a esse propósito, referido que a

Exposição que acabo de percorrer com o mais crescente agrado e simpatia, não é só uma demonstração de arte e de turismo: é um acontecimento do maior interêsse nacional.  (…)   Tudo o que define o País, os distritos, as regiões, os concelhos; a beleza do ceu e da luz; o desenho corografico e orografico da linda terra de Portugal; os costumes; a harmonia e sedução das paisagens; os tipos e expressões mais populares; os monumentos que resumem a gloriosa Historia Portuguesa – palpitam e vivem na Exposição.

O Seculo, 26 de abril de 1936: 1; itálicos nossos

As notícias alusivas à exposição foram quase sempre acompanhadas por algumas das fotografias apresentadas a concurso. Os títulos das imagens escolhidas por

O Seculo para ilustrar esses artigos e informações correspondiam em pleno, mais uma

vez, à imagem de identidade nacional que o Estado Novo começou a difundir na década de Trinta. Assim, se atentarmos a essas legendas, verificamos que todas elas nos proporcionam diversas pistas para construir a imagem de um país substancialmente

rural, humilde e religioso, mas com um marcante passado histórico, representado em diversos exemplos de património construído, como evidencia a seguinte listagem:

 “A  fonte  do  claustro  em  Vila  do  Conde”,  5  de  fevereiro de 1936:1.  “Lavagem  de  peixe”,  4  de  março de 1936 de 1936: 2.

 “Portalegre  – descendo  a  serra”,  6  de  março de 1936 de 1936: 2.  “Entrada  para  Mouchão,  em  Tomar”,  10  de  março de 1936 de 1936: 2.  “Castelo  e  Torre  de  Menagem  em  Beja”,  11  de  março de 1936 de 1936: 2.

 “O  relicário  da  montanha  da  Penha,  em  Guimarães”,  13  de  março de 1936 de 1936: 1.  “O  claustro  de  Celas,  Coimbra”,  16  de  março de 1936: 1.

 “Ponte  romana  sôbre  o  rio  Tamega”,  17  de  março de 1936: 1.  “Depois  da  chuva  – Castelo  de  Leiria”,  19  de  março de 1936: 2.  “Açude  e  vista  parcial  de  Caldas  de  Vizela.”,  20  de  março de 1936: 1.  “A  igreja  da  Oliveirinha”,  22  de  março de 1936: 2.

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 “Aspecto  geral  de  S.  Martinho  do  Porto,  tomado  de  Oeste”,  24  de  março de 1936: 2.  “Faina  da  Pesca”,  26  de  março de 1936: 1.

 “O  forte  e  o  Tennis  Club,  na  Figueira  da  Foz”,  27  de  março de 1936: 2.  “Barco  rabêlo  – Douro-Régua”,  29  de  março de 1936: 2.

 “A  sala  do  Capitulo  do  mosteiro  da  Batalha”,  31  de  março de 1936: 2.  “O  Castelo  de  Obidos.”,  1  de  abril de 1936: 1.

 “A igreja de  Leça  do  Balio”,  3  de  abril de 1936: 2.

 “Mertola  – Ponte  sôbre  a  ribeira  Oeiras”,  6  de  abril de 1936: 1.  “Uma  rua  de  Alfama  – Lisboa”,  12  de  abril de 1936: 2.  “Fuzeta  – Algarves”,  13  de  abril de 1936: 1.

 “Rio Dejebe – Arredores  de  Evora”, 14 de abril de 1936: 2.  “Margens  do  Mondego”,  15  de  abril de 1936: 1.

 “Faina  do  campo  – Minho”,  16  de  abril de 1936: 1.  “Feira  de  S.  Pedro  – Sintra”,  17  de  abril de 1936: 1.  “Condução  saloia”,  18  de  abril de 1936: 2.

 “O  Templo  de  Diana”,  20  de  abril de 1936: 1.  “Basílica  da  Estrela”,  21  de  abril de 1936: 2.

 “Estatua  do  Infante  de  Sagres  – S.  Miguel”,  22  de  abril de 1936 de 1936: 2.  “Boi  minhoto  – Minho”,  23  de  abril de 1936 de 1936: 1.

 “Margens  do  rio  Ceira,  arredores  de  Coimbra”,  24  de  abril de 1936 de 1936: 1.

Como podemos constatar, o jornal optou pela publicação de fotografias feitas em meios rurais, e preferencialmente durante a execução de tarefas campestres ou piscatórias. Um outro padrão seletivo agrupava as imagens em motivos associados a monumentos existentes em espaços urbanos. As fotografias premiadas retratavam, como seria de esperar, um país rural, mas, ao mesmo tempo, palco de um imponente património construído:

 1.º e 2.º prémios - da  categoria  “Profissionais”  fotógrafo  portuense  “Alvão”  - uma paisagem da Lousã e o interior dos Jerónimos, 3.º prémio – reporter-fotográfico Horacio Novais – Campinos de   Vila   Franca   de   Xira   “um   quadro   precioso   de   movimento,  de  alegria,  de  vigor.”.

 1.º - “Amadores”  Ponte de D. Luiz I, 2.º – Um Mirante - trecho de Olhão, 3.º –

Automovel soterrado pela neve, 4.º – Na Ribeirinha “flagrante  e  luminoso  quadro  

da  vida  das  peixeiras  e  dos  pescadores,  na  descarga  á  beira  do  rio”.

O Seculo, 26 de abril de 1936:2

Todos estes encontros realizados no ano de 1936, particularmente o I Congresso Nacional de Turismo, serviram para discutir questões gerais inerentes à melhoria do setor turístico em Portugal, como fossem a construção de mais hotéis e de melhores estradas. Contudo, o declarado interesse do Estado Novo pelo setor, e a intensa

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cobertura jornalística dos eventos alertam-nos para que os verdadeiros objetivos dessas reuniões poderão ter ido além das generalidades próprias da indústria turística.

Após a leitura das atas do I Congresso Nacional de Turismo e de artigos publicados em diários de destaque na sociedade portuguesa da época, apercebemo-nos da repetição de algumas ideias que nos fazem repensar a pertinência do certame. As constantes alusões à especificidade da realidade e da raça portuguesas, admiradas e invejadas por estrangeiros, ou a uma história nacional repleta de heróis passados e presentes trazem- nos, de novo, à memória narrativas nacionalizantes.

Os textos que consultámos indicam-nos que um sentimento patriótico deveria

reger todos aqueles que estavam envolvidos no setor turístico, uma atividade de verdadeiro interesse nacional, não só pelos lucros económicos que gerava, mas também por permitir mostrar   a   diferença   de   uma   “Nação” que, por ser bem dirigida, se renovou ao ponto de recuperar o prestígio do passado. Era necessário divulgar este

estado novo e diferente, e as representações turísticas surgiam como um instrumento auxiliar precioso para esse propósito. As suas narrativas e atividades poderiam ser usadas como instrumentos de promoção ideológica, especialmente junto dos públicos estrangeiros, que ficariam, por seu intermédio, a conhecer a recente ordem social, omissa no resto da Europa, e que se devia ao novo herói lusitano, António de Oliveira Salazar, o reconstrutor da pátria. As lições que Salazar pretendia transmitir mantêm-se, assim, também no setor turístico.

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Parte III