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As identificações de referências modernas e clássicas na realização e na aparência materiais dos palácios de Brasília são pontos pacíficos em boa parte da literatura que trata dos objetos construídos.118 Cabe relembrar estas vinculações e verificar, a partir da sistematização dos

estudos descobertos no âmbito da pesquisa, como elas ocorreram no percurso das decisões relacionadas à forma plástica.

As conexões entre estas referências são indicadas pelo próprio autor dos projetos: quer de modo abrangente na determinação da opção pela expressão arquitetônica manifestando

116

NIEMEYER, 1960, “Minha experiência de Brasília”. In: Módulo n.18, p. 15. 117

NIEMEYER, 1998, "As curvas do tempo", p. 272. 118

Cf.: BRUAND, 1981, "Arquitetura Contemporânea no Brasil"; COMAS et ALMEIDA, 2010, "Brasília cinquentenária: a paixão de uma monumentalidade nova".

as possibilidades técnicas da época, em analogia aos relevantes modelos da história; quer de modo específico, nas referências explícitas sobre a essência do que estes mesmos modelos representam, essência que constitui parte preponderante das medidas disciplinadoras que regeram, segundo o arquiteto, a composição arquitetural daquele período.

Conforme nos lembra Mahfuz, composição tem apropriações diversas na arquitetura. Originário da instrução acadêmica, na vanguarda moderna o termo foi apropriado para o arranjo livre

entre as partes em que a função servia como pretexto para experimentações formais.119

Também a partir da referência acadêmica, Martinez esclarece-nos que composição arquitetônica resulta da forma de projetar tendo por base a combinação dos chamados:

elementos de arquitetura, que podem ser compreendidos como as partes concretas; e elementos de composição, propriamente ditos, correspondentes aos volumes e espaços abstratos.120

Niemeyer deixa claro em seus manifestos que é partidário desta liberdade formal a que Mahfuz se refere, no entanto, as novas regras que comandam o processo de composição são explicitamente originárias dos exemplos da tradição acadêmica.121 Nesse sentido, juntam-se

aos preceitos modernistas das soluções compactas, simples e geométricas, a preocupação com problemas de hierarquia, conveniência de unidade e harmonia, ambos vinculados também ao caráter arquitetônico e à acumulação de um conhecimento tipológico.122 Hierarquia pode ser

entendida tanto no significado de ordem e subordinação das partes que compõem o edifício quanto no sentido de gradação entre os objetos, em vista do que devem representar. Unidade, como expressão de identidade, e Harmonia relacionada ao sentido de proporção, ordem e

simetria, também são características encontradas nos exemplos do passado, em particular

naqueles em que se reconhece o atributo de monumentalidade, entendida como registro de

espírito da época e espírito do lugar a serem perpetuados no tempo.123

O arquiteto também se refere a elementos como partes da composição arquitetônica. Nas ocorrências em que se nota o termo, Niemeyer trata especificamente daqueles que podem

119

Cf. MAHFUZ, 1995, "Ensaio sobre a razão compositiva". 120

Cf. MARTINEZ, 2000, "Ensaio sobre o projeto", p. 138; p. 157. 121

Cf. NIEMEYER, 1958, "Depoimento". In: Módulo, nº 9. 122

Assumimos aqui o entendimento de Alfonso Corona Martinez para tipologia, segundo o autor: “os tipos edilícios não são as constantes de uma cultura primitiva, mas o material projetual do qual se valem os arquitetos - e os habitantes para se comunicar com eles. São um repertório de diretrizes constantemente modificadas nos projetos concretos, por meio de operações de projeto, por instrumentações próprias da prática projetual: seleção tipológica, transformações de tipos, adaptações ou reformas que se operam sobre os modelos gráficos.” MARTINEZ, 2000, "Ensaio sobre o projeto", p. 124.

ser considerados como elementos construtivos, sem a distinção da tradição acadêmica.124

Não obstante, o caso dos palácios filia-se ao método de composição classicista na definição de uma clara hierarquia entre as partes, distinguindo e priorizando a expressão dos elementos de estruturas em relação aos demais elementos, chamados de secundários, que fazem parte da construção.125

Na etapa de concepção, considerando composição no sentido genérico, conforme adotado por Mahfuz, cabe verificar como ocorreu o ordenamento destes elementos para obtenção do todo.126 Em complemento, assumindo a hierarquia estabelecida entre os elementos

construtivos para expressão arquitetônica, e consoante a opção aqui definida para a leitura da forma plástica, convém investigar, ainda neste período de criação, a relação entre forma arquitetônica e forma estrutural nos palácios.

Na abordagem dos elementos estruturais, a leitura da escolha de Niemeyer pela manifestação da técnica deve ser tratada com perspicácia, pois, ainda que seja comandada pelo aspecto artístico - e quando o caso requer deliberadamente por ele condicionada -, a opção não prescinde da compreensão do raciocínio estrutural para o encaminhamento das decisões arquitetônicas. A suposição de abrangência do conhecimento, abarcado pelo arquiteto, acerca do comportamento estrutural é apontada pelo engenheiro Bruno Contarini que, com base nas experiências decorrentes dos projetos elaborados em parceria com o profissional, relata: para

cada problema que se identificava, Niemeyer contava com soluções variadas para a condução das estruturas.127

Em visão geral, a diretriz determinada por Niemeyer possui suas exigências, afinal a expressão por meio das estruturas demanda compromisso, no mínimo, com estabelecimento apriorístico da forma, conforme ressalta Cardozo, demandando, para tanto, a necessária observância de uma questão de estabilidade.128 A nosso ver, a compreensão do comportamento estrutural é

necessidade primordial para a consecução material da expressão arquitetônica pretendida, visão alinhada com o entendimento de Rosenthal que nos lembra o papel do arquiteto em relação a este conhecimento:

Qualquer que seja a concepção final, o arquiteto deve estar plenamente consciente das implicações. Ele deve saber o que vai acontecer, estar em condições de prever o desempenho estrutural, e pesar os prós e contras. Ele pode ser estimulado por eventos estruturais, por exemplo, a ação de catenária, que inspirou o Congresso de Berlin, ou rejeitar conscientemente

124

Cf. NIEMEYER, 1957, “Considerações sobre a arquitetura brasileira”. In: Módulo, nº 7, p. 5-10. 125

Esta hierarquia da “composição clássica” e a comparação com o método projetual consolidado pela “Arquitetura Moderna” podem ser verificadas em: MARTINEZ, 2000, "Ensaio sobre o projeto", pp. 129-138.

126

Cf. MAHFUZ, 1995, "Ensaio sobre a razão compositiva".

127 Cf. CONTARINI, 2010, Depoimento ao autor em 21 de julho de 2010. 128 Cf. CARDOZO, 1958, "Forma estática – forma estética".

"honestidade estrutural" quando outras considerações forem de maior importância, como Corbusier fez na sua capela em Ronchamps.129

Nesse sentido, avaliação da forma plástica considerará não só as decisões estruturais indicadas pela arquitetura, mas também os recursos da engenharia para a expressão que se pretendia. O objetivo é visualizar a correspondência entre forma arquitetônica e forma estrutural em abordagem qualitativa das estruturas que, conforme também nos esclarece Rosenthal, é conveniente ao arquiteto.130

Diferindo da postura do engenheiro, a postura do arquiteto para com a estrutura será essencialmente qualitativa. A tarefa do engenheiro é dar respostas quantitativas até a última armadura prevista, o arquiteto, ainda que não seja habilitado a dar estas respostas detalhadas, deve estar em posição de compreender o raciocínio envolvido em ambas as respostas qualitativas e quantitativas, caso contrário, todos os argumentos qualitativos ficarão sem fundamento. Postura qualitativa, neste sentido, significa sensibilidade para a ação das forças e para compreensão dos esforços que elas provocam.131

Com a abordagem qualitativa, além de procurar visualizar o modo como a estrutura funciona, busca-se respostas aproximadas a partir do uso de um menor número de parâmetros que, não obstante, possuem preponderância no dimensionamento final das peças.132 Com base neste

raciocínio utilizaremos, por exemplo, o diagrama do momento fletor, preponderante, na maioria dos casos, para a definição das dimensões de vigas,133 ou a teoria da flambagem,

determinante para as seções de pilares.134 Opções que nos permitem a análise da forma a

partir do cotejamento entre intentos arquitetônicos e soluções estruturais. Trata-se, portanto, de um processo de simplificação e de aproximação, recurso afeito ao próprio método para cálculo de projetos, segundo lembra-nos Bill Addis.

129

“Whichever affects the final conception, the architect must be fully aware of the implications. He must know what is going to happen, be in a position to forecast structural performance, and weigh up the pros and cons. He may be stimulated by structural events, for instance the catenary action, witcth inspired the berlin congress hall, or reject consciously “structural honesty” when other considerations were of greater importance, as Corbusier did at his chapel at Ronchamps.” ROSENTHAL, 1962, "Structural decisions", p. 7

130

Cf. SÁNCHEZ, 2006, “Evolução da forma estrutural”. 131

“Differing from the engineers attitude, the architects attitude to structure will be chiefly qualitative. The engineers task is to give quantitative answers down to the last reinforcement bar, but without being able to give the detailed answer the architect must be in a position to understand the reasoning behind both qualitative and quantitative answers, as otherwise all qualitative arguments remain without foundation. Qualitative in this sense means a feeling for the action of forces and the stress they induce. The importance of instinct and observation of everyday happenings cannot be overrated in the development of a structural sense.” ROSENTHAL, 1962, "Structural decisions", p.5.

132

Cf. SÁNCHEZ, 2006, Evolução da forma estrutural: notas de aula. 133 Cf. TIMOSHENKO, 1960, “Resistência dos materiais", Vol. I, pp. 147-182. 134 Idem, 1960, “Resistência dos materiais" Vol. II, pp. 215-244.

A arte dos cálculos de projetos de engenharia estava, e ainda está, na capacidade de fazer simplificações e aproximações que reduzam a dificuldade e o tempo necessário para executá-los em um nível realista, ao mesmo tempo em que ainda se representa adequadamente o comportamento de engenharia dos materiais e estruturas em questão.135

Na etapa de desenvolvimento dos projetos, para avaliação destes valores em jogo e da relação estabelecida entre as disciplinas, convém realizar a análise estrutural tomando-se como referência as soluções apresentadas para os principais elementos formais definidos pela arquitetura. Em consonância com esta opção, o cotejamento entre forma arquitetônica e forma estrutural pode, em termos estruturais, resultar tanto da correspondência com determinado elemento estrutural, quanto da associação entre mais de um deles, configurando um sistema. Deste modo, trataremos da verificação do comportamento estrutural do edifício e das soluções específicas que definiram: elementos espaciais; planos horizontais e inclinados; e, por fim, elementos verticais.136 A escolha guarda também relação com a organização para os

elementos constituintes das estruturas elevadas em concreto armado realizada por Adolf

Pucher. Em sua obra, o autor trata de Elementos de sustentação espaciais (reservatórios, abóbadas planas, abóbadas curvas); Elementos de sustentação planos (lajes, lajes compostas, placas); e Elementos de sustentação vigados (vigas contínuas, pórticos, estruturas reticuladas). Na etapa de construção, a análise das decisões projetuais arquitetônicas e/ou estruturais sobrepõem-se o exame de materialização e das eventuais transformações na forma plástica. Ocorrências para as quais buscaremos compreender participação e contribuição dos diversos agentes, tanto no período de construção, quanto das intervenções ao longo do tempo.