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O terceiro grupo congrega os textos que, por meio de abordagens diversas, tratam dos princípios definidos e da forma como estes se manifestam nas obras construídas. Estes produtos contém recorrentes explanações baseadas, de modo especial, nos primeiros palácios de Brasília.84

Nesta sistematização, os artigos de Cardozo registram suas experiências na atividade compartilhada com as produções da arquitetura. Em “Programação da atividade de

engenheiro”, publicado em 1960, o autor descreve um método de trabalho.85 Segundo sua

reflexão, a atividade de engenheiro fundamenta-se no exame estatístico dos resultados obtidos de três tarefas: o estudo do matemático, constituída num só conceito que combina matemática

pura, aplicada e técnica; a realização de modelos em escala reduzida; e, por fim, a elaboração

e teste de protótipos, etapa última com referência dos estudos pioneiros do engenheiro espanhol Eduardo Torroja.

Em “Primeiros ensaios para a estrutura do Estádio de Brasília”, de 1961, o engenheiro ilustra apropriação inicial para o desafio apresentado por um projeto de Niemeyer e mostra que o método consiste na simulação estrutural da solução geométrica analítica que melhor consulte

a estabilidade do conjunto na busca de uma realidade estática em harmonia com a forma arquitetônica.86 Geometria da construção também é tema de “Algumas idéias novas sobre

arquitetura”, texto de 1962, texto no qual Cardozo aborda, em adição aos aspectos

metodológicos, que as soluções de equilíbrio para superfícies que atuam como elementos de sustentações - imaginadas e sentidas como simples e originais expressões estéticas -, além de resultantes das três etapas descritas anteriormente, são dadas também pela física

experimental, pela física mecânica e pela análise das deformações elásticas.87

Acerca das descrições do conhecimento envolvido nas atividades, vale a leitura conjugada com outro texto que, embora se situe fora do período delimitado e não tenha sido publicado em

Módulo, contempla temática semelhante e também vincula as experiências vividas nos

palácios. Em “Sobre o problema do ser e do estruturalismo arquitetônico”, publicado em 1966, Cardozo adiciona, às etapas do trabalho do cálculo e à importância das áreas da física, a

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Os textos de Oscar Niemeyer deste período tratam também das dificuldades e dos desafios da empreitada.

“Minha experiência em Brasília”, de 1960, cujo teor foi publicado em livro posteriormente, com pequenas, mas

importantes, informações distintas, inserem-se neste contexto e merecem leitura conjugada com o texto de Cardozo,“A construção de Brasília”. Cf.: NIEMEYER, 1960, “Minha experiência de Brasília”. In: Módulo, nº 18, pp.11-16.; NIEMEYER, 1961, “Minha experiência em Brasília”; e CARDOZO, 196?, "A Construção de Brasília". 85

CARDOZO, 1960, "Programação da atividade do engenheiro".

86 CARDOZO, 1961, "Primeiros ensaios para a estrutura do Estádio de Brasília". 87 CARDOZO, 1962, "Algumas idéias novas sobre arquitetura".

pesquisa tecnológica dos materiais estruturais como outro campo de conhecimento necessário

ao engenheiro nas soluções do equilíbrio das estruturas.88

Destaca-se, em paralelo com estas ponderações do conhecimento sistemático e racional - empírico ou científico - nas soluções de equilíbrio da forma, as considerações de Cardozo acerca de outras opiniões que não se vinculam, necessariamente, a etapas e procedimentos, nem a disciplinas relacionadas, tampouco a pesquisas de engenharia. Conforme visto nos trechos apresentados, tratam-se de manifestações do conhecimento multidisciplinar de registro constante nos escritos do engenheiro e que, segundo nos lembra Lucio Costa, concorrem para a oportuna conjugação de capacidades e intenções complementares de precedências diversas, característica peculiar da técnica brasileira do concreto armado.89 Em “Joaquim Cardozo”,

publicado no ano de 1961, Niemeyer reconhece esta amplitude do conhecimento abarcado por Cardozo como aspecto diferencial do profissional:

[...] quando o engenheiro calculista está atualizado na profissão e informado de tudo que se relaciona com o progresso da técnica construtiva, quando fugindo a regras e a normas que não sejam compatíveis com a experiência, especula com os problemas do concreto armado, convicto de que só assim contribui para sua melhor evolução, quando adiciona, o que não é comum, aos seus conhecimentos profissionais, os das artes visuais e da própria arquitetura, quando se entusiasma não apenas com a solução que lhe cabe encontrar como técnico, mas, também com o sentido artístico e criador da obra em que está colaborando, aí sim, a ligação entre ele e o arquiteto torna-se fecunda e positiva.90

Sobre os métodos próprios de Niemeyer, encontramos indicações nos textos “A imaginação na

arquitetura” e “Forma e função na arquitetura”, publicados respectivamente em 1959 e 1960.

No primeiro, o arquiteto aborda a preocupação com a antevisão dos elementos arquitetônicos que considera essenciais, procurando verificar se suas razões são válidas, se o material que

pretende utilizar é pertinente, se as cores são harmoniosas, se as formas criadas são belas e autênticas.91 No segundo, entre os aspectos da beleza plástica, da técnica e das questões

funcionais, declara a orientação primordial de seus projetos, caracterizando-os sempre

que possível pela própria estrutura. Nunca baseada nas imposições radicais do funcionalismo, mas sim na procura de soluções novas e variadas, se possível lógicas dentro do sistema estático. E isso, sem temer as contradições de forma com a técnica e a função.92

88 CARDOZO, 1965, "Sobre o problema do ser e do estruturalismo arquitetônico". 89

COSTA, 1951, “Depoimento de um arquiteto carioca”. In: COSTA, 1995, "Registro de uma vivência", p. 166. 90

NIEMEYER,1961, “Joaquim Cardozo”. In: Módulo, 6, nº 26, p. 4-7. Número especial sobre Cardozo. 91 NIEMEYER, 1959, “A imaginação na arquitetura”. In: Módulo, nº 15, pp. 6-15.

Apesar de não abordar aspectos particulares de Brasília, consideramos como fecho de leitura da sistematização empreendida, o texto “Contradição na arquitetura”, publicado em dezembro de 1962. No documento, reconhecendo que a contradição entre arquitetura nova e arquitetura do passado foi necessária em um momento particular de afirmação da arquitetura moderna, Niemeyer considera a etapa vencida e aponta que sua atuação em relação à forma arquitetônica, longe de ser gratuita, firma-se nas bases e nas constantes da arquitetura - representadas pelas leis de equilíbrio, proporção e harmonia - e fundamenta-se na tradição das obras do passado - mais especificamente na preocupação sistemática da criação artística, no

apuro e na inovação das formas, solucionadas de maneira que expressem as condições

técnicas da época.93

Neste último registro considerado, Niemeyer retoma a base argumentativa exposta por Lucio Costa - em “Razões da nova arquitetura”, de 1934 - e por ele referenciada em seu texto para

“Pampulha: arquitetura”, em 1944, ao demonstrar que as diretrizes determinadas para a

mudança nos aspectos da forma firmam-se na mesma intenção histórica de expressão das possibilidades técnicas da época. Entrementes, a opção tem regra expressiva clara: explorar as possibilidades em prol de uma liberdade formal, que, por sua vez, desdobra-se em subordinação dos quesitos da estática e do meio técnico aos critérios de beleza plástica, segundo a visão do arquiteto, fator indispensável para alcançar sentido superior de obra de

arte.94 Regra revelada na predisposição a certa contradição entre forma estética e forma estática, deliberadamente justificada em nome da criação artística e, principalmente, compartilhada pelo engenheiro Joaquim Cardozo.

Tomando-se por base das informações destacadas, relembramos que Oscar Niemeyer declara como síntese a busca pela simplificação e pela expressão da estrutura devidamente integrada na forma plástica. Diretriz referenciada nos exemplos do passado, quer pelo apontamento de valores consagrados, quer pela intenção de expressão da técnica contemporânea. Joaquim Cardozo, por seu turno, mostra-nos que viabilização de forma plástica, que registre a consciência de época, além de lastrear-se no conhecimento e no domínio da engenharia estrutural, tem como exigência a convergência de valores e, sobretudo, a concordância com as regras estabelecidas. A partir do resumo destes principais tópicos procura-se verificar, no decorrer da exposição, como se apresentam estes princípios declarados pelos autores e como ocorreram as transformações da forma plástica no percurso da arquitetura dos palácios.

93 NIEMEYER, 1962, “Contradição na arquitetura”. In: Módulo, nº 31, pp. 17-20. 94 NIEMEYER,1956, "Museu de arte moderna de Caracas". In: Módulo, nº 4, p. 37-45.