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A Amazon Fruit se configurou como grande exportadora de polpa de açaí da ilha, comercializando o produto para empresas de cinco continentes (LIMA et al., 2010). Toda a estrutura da empresa ainda pode ser encontrada na ilha - conforme observamos na Figura 23 - incluindo maquinários de processamento de açaí e aparelhos de ar condicionado, que estão inutilizadas e se deteriorando com o passar do tempo.

Figura 23 - A empresa desativada Amazon Fruit (Foto: Monique Igreja)

A coordenadora da escola Acaimu, Lucilene Botelho, destacou a importância que a

Amazon Fruit tinha para a população da ilha: “Todos os funcionários da fábrica eram moradores

da ilha. Quando ela faliu, foi muito ruim para muita gente, porque era a única forma de trabalho da ilha. Agora eles sobrevivem só do açaí”.

Lucilene relatou que no período em que a fábrica funcionava, o serviço de energia elétrica ainda não havia chegado à ilha. Por meio de uma caldeira, que gerava energia elétrica

através da queima dos caroços de açaí seco, a energia elétrica era levada à fábrica e à escola Acaimu. A caldeira utilizada na Amazon Fruit ainda pode ser encontrada na ilha (Figura 24). Somente em 2011 a luz elétrica e a Internet chegaram em Murutucu. Antes desse período, a maioria dos moradores usava lamparinas ou geradores. Ainda hoje a população sofre com problemas de energia e de conexão da Internet durante o período de chuvas fortes.

Figura 24- Caldeira que era utilizada pela empresa Amazon Fruit (Foto: Monique Igreja)

A Amazon Fruit foi fundada pelo curitibano Bem Hur Borges, engenheiro florestal que virou empresário do açaí. Depois de três anos de funcionamento, ele vendeu a Amazon Fruit para outro empresário, que logo após veio à falência. Durante sua gestão, Bem Hur teve a empresa citada em um artigo jornalístico veiculado pelo jornal Los Angeles Times16, com o

título Acai has gone from staple of the Amazon to global wonder-berry17, que destacava o

alcance internacional do comércio do açaí e apontava o fruto como um recurso renovável que fornece um meio de vida sustentável para milhares de pessoas.

Na Figura 25, observamos os diversos trilhos de madeira que foram construídos para que vagões pequenos levassem o açaí colhido em mata fechada até a fábrica durante seu funcionamento, e que permanecem até hoje na ilha.

16 Disponível em: <http://www.latimes.com/world/la-fg-acai21-2008sep21-story.html#page=1>. Acesso em: 03 jul. 2015.

Figura 25 - Trilhos de madeira rodeados por açaizeiros (Foto: Monique Igreja)

O morador Ceará atualmente é o encarregado de monitorar a fábrica para que não seja invadida e saqueada. Ele recebe um salário mensal do atual proprietário da empresa para desenvolver a atividade. Ceará relatou que com o fechamento da fábrica muitos moradores ficaram desempregados: “ficamos tristes, né, porque ficou sem trabalho pra muita gente”. Quando perguntado sobre o que os ilhéus acham de o patrimônio da empresa estar se deteriorando, Ceará afirmou que os moradores “ficam tristes de tá tudo aí parado, de não ter uma pessoa aí pra tomar conta”.

Segundo Rayane, vários empresários vindos de outros países costumavam visitar a fábrica para conhecer seu funcionamento e, consequentemente, realizavam visitas na escola Acaimu, situada a poucos metros da empresa. A jovem contou, com nostalgia, como eram os tempos áureos de funcionamento da Amazon Fruit, que proporcionava vários benefícios aos ilhéus:

Muitos gringos vinham praí [para a empresa]. Primeiro, ele [Bem Hur]

levava pra escola e pra fábrica, por isso tinha muita ajuda. A gente tinha dentista, material escolar, formatura... Faziam formatura dos alunos [da Acaimu] que passavam, tinha aquela festa. Eles faziam tudo. Traziam frutas, muitas frutas e doavam muita coisa. As pessoas podiam ir lá pegar água potável na escola. Quando precisava, eles levavam a gente de carro lá em Belém e traziam de volta de barco. Quando não tinha merenda, ele comprava com o dinheiro dele merenda pras crianças, uniforme... tudo ele dava. Nessa época não tinha luz elétrica, a escola tinha energia através da fábrica. O gerador não dava conta de chegar nas casas, só onde o Ceará [o caseiro da fábrica] mora e na escola. Os moradores não compravam água, iam pegar lá, pois tinha poço artesiano, de lá eles usavam a água pra bater o açaí.

Rayane afirmou que muitos ilhéus dependiam dos empregos ofertados pela Amazon Fruit, que contava com trabalhadores inseridos nas atividades de serviços gerais, beneficiamento de açaí e carregamento do fruto: “Era muito trabalho que tinha, e era bom porque os pais e os alunos dependiam muito desse projeto18. Aí como a fabrica faliu, os projetos

começaram a acabar, as ajudas não vinham mais, e agora só tá tendo aula mesmo”.

A mãe dos irmãos Daniel, Joice e Rayane, Dona Janice, foi uma das funcionárias da

Amazon Fruit. Orgulhosa, ela mencionou que recebeu seu primeiro salário com carteira

assinada quando atuava na empresa: “Trabalhava com serviços gerais. A gente também fazia xarope, guaraná... Eram dois turnos”. Apesar de ter permanecido apenas seis meses no emprego, pois precisou se mudar de Murutucu, ela relatou que o período que permaneceu na empresa “foi muito bom” e comentou que os moradores sentem muita falta do funcionamento da fábrica. Rayane discorreu sobre a demanda por uma empresa que oferte oportunidade de emprego aos moradores de Murutucu:

Se tivesse alguém que pudesse aproveitar aquele espaço [da fábrica], que fizesse outro projeto, pra dar mais emprego pra outras pessoas que moram aqui, todo mundo ia querer. Em tempo de entrevista pra trabalhar, aparecia muita gente, mas nem todos eram chamados. Aí todo mundo ia com esperança.

Uns passavam só um tempo (trabalhando) e depois davam chance pra outros. As pessoas viviam lamentando de ter acabado.

Os depoimentos colhidos a respeito da empresa trazem um ar de lamentação e decepção, tanto pelo desemprego causado pela falência da empresa, pois os moradores tiveram que sobreviver apenas com a extração e venda de açaí em Belém, quanto por terem deixado de receber vários benefícios. Entretanto, não há uma reivindicação pelo patrimônio deixado pela empresa, nem houve conflito na relação entre a firma e os ilhéus quando a fábrica faliu.

Um fator influenciado diretamente pela chegada da fábrica de beneficiamento de açaí na ilha foi a criação da escola local, pois sua implantação se deu a partir de uma solicitação de Bem Hur. “Quando ele chegou em Murutucu, viu as crianças sem estudar e foi ao município do Acará solicitar que uma escola fosse instalada”, relatou Lucilene Botelho.

18 As áreas onde a sede da fábrica Amazon Fruit e a escola Acaimu estão localizadas são chamadas pelos moradores de Murutucu como “projeto”.