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As tecnologias exercem um papel importante no cotidiano dos jovens de Murutucu, pois os espaços de lazer não são frequentados de forma rotineira, e sim esporadicamente. O único local visitado diariamente é a Praça Princesa Isabel, já que os alunos precisam esperar o barco- escola nesse ponto para retornarem à ilha. Dessa forma, a praça se configura como um local de interação obrigatória e não de uma interação que promova um diálogo espontâneo. Nesse sentido, a tecnologia se estabelece como a única forma de interação rotineira dos jovens, ao aproximar os amigos da ilha e de Belém, criando laços interacionais entre eles.

Estive presente na Praça Princesa Isabel no dia 16 de setembro de 2015. Nesta data, havia marcado com Rayane para me conduzir à ilha. Quando atracou sua rabeta no Espaço Náutico, ponto de encontro rotineiro, Rayane informou que alguns estudantes estavam na praça, aguardando a chegada dos demais alunos, pois teriam saído cedo da aula, já que estavam em período de avaliação no colégio. Aproveitei a oportunidade e pedi que fôssemos até o local. Quando chegamos, foi possível perceber vários grupos de estudantes reunidos, com seus

smartphones na palma da mão. Alguns estavam sentados nos bancos da praça e outros se

encontravam no barco-escola, que já estava atracado. Rayane visualizou alguns conhecidos e os abordou, perguntando se poderiam fazer parte da pesquisa. Nessa oportunidade, as jovens Ana e Luiza responderam ao questionário na praça e Breno e Andre no barco-escola. As figuras a seguir ilustram a chegada na praça Princesa Isabel e dois dos jovens entrevistados.

Figura 40 - Ana utiliza seu smartphone (Foto: Monique Igreja)

Ao visitarmos os únicos locais de interação presencial obrigatória entre os jovens (o barco-escola e a praça), provocados pela ida à escola, foi possível observar que, ao mesmo tempo em que eles têm oportunidade de manter um diálogo, não necessariamente o fazem, pois permanecem manuseando os celulares, ou então conversam, mas com o aparelho em mãos, mesmo que não o estejam utilizando. O smartphone, assim, é uma verdadeira extensão do corpo ou auto imputação, nos termos de McLuhan (1964), que perfila novas relações.

Os depoimentos a seguir versam sobre a espera do horário do retorno à ilha pelos alunos, na praça. Apenas dois jovens comentaram que gostam de aguardar no local, pois é o único momento que podem interagir presencialmente com os amigos que moram na ilha e também estudam em Belém, enquanto que outros entrevistados têm uma opinião contrária.

Sim, costumo ver mais eles [os amigos] aqui [na praça]. Os amigos são mais da ilha (André).

É um pouco chato e cansativo. Não gosto muito. Sempre tem que esperar todo mundo sair (Ana).

Assim como observamos no depoimento de André, que enfatiza que seu ciclo de amizades é composto por moradores da ilha, percebemos que uma parcela dos entrevistados tem uma relação de proximidade maior com os jovens de Murutucu do que com aqueles que residem em Belém. Alguns deles apontaram que a intimidade com os jovens da ilha é maior, pois os conhecem há um período de tempo superior se comparado aos da capital, como demonstram as falas a seguir: “A convivência de lá [de Murutucu] é melhor, porque todos se conhecem, é uma intimidade total” (Ana); “Acho que sou mais acostumada com eles lá [da ilha]. Eu tenho alguns contatos de Belém, mas é difícil eu falar com eles” (Luiza). Da mesma forma, Cléo e Breno apontaram que interagem com muitos jovens que pertencem à Murutucu e outras ilhas, e apenas falam com alguns de Belém.

Também observamos que parte dos entrevistados se relaciona de forma mais intensa com os jovens da capital paraense. Eles ressaltam a convivência proporcionada pela escola e a limitação imposta por Murutucu, para encontros presencias, como argumentos que justificam a proximidade com os amigos da cidade:

Pelo celular, costumo falar mais com o pessoal de Belém, porque tenho uma amiga que mora em Icoaraci e falo muito com ela. Minhas amigas são mais de Belém, eu acho que por causa da escola, a cada série ia conhecendo novos amigos. Os da ilha são os mesmos desde criança (Joice).

São mais os [amigos] de lá [de Belém] do que os daqui [da ilha], é por causa, eu acho, que da igreja [Igreja Quadrangular, que a jovem frequenta em Belém]

e da faculdade também, que a gente acaba conhecendo mais pessoas. Aí aqui, como eu não saio quase de casa, eu não tenho esse contato com os jovens daqui (Jéssica).

Porque eu não saio quase aqui [na ilha], né?! Aí eu não tenho aquele contato quase, só quando tem alguma festividade, alguma coisa da igreja, aí eu vou. E mais por causa dele [do filho da jovem], eu não costumo sair quase (Thays). Os amigos são mais os da minha turma, porque convivo junto, estudo na mesma sala. Na ilha é difícil pra se encontrar pra conversar (Evanilson).

Nas falas dos entrevistados que têm um contato mais próximo com os jovens de Belém há a constatação da dificuldade de encontrar os amigos de Murutucu: já que a ilha não conta com espaços públicos de lazer, a maioria dos jovens não costuma sair para encontrar os colegas, devido à dificuldade do território, que os limita. Outro fator que corrobora para que parte dos entrevistados não tenha tanto contato com os jovens de Murutucu é a dificuldade inserida no deslocamento, pois alguns deles relataram que os pais não permitem que saiam sozinhos de rabeta. Assim, muito ilhéus não mantém o contato com os amigos de Murutucu, apesar de os conhecerem desde criança.

A interação que surge entre os jovens da ilha e os de Belém, ocasionada pela matrícula dos alunos no Ensino Fundamental, faz com que eles tenham laços de sociação feitos e desfeitos (SIMMEL, 2006), constituindo uma fluidez de relacionamentos e experiências, como percebemos nas falas de Evanilson e Breno:

Quando eu vim pra Belém estudar, achei diferente o modo de ensino, ficou mais difícil, lá era mais fácil. A convivência com as pessoas também mudou, consegui mais amigos. Me tornei mais maduro, porque lá [na ilha] eu era muito moleque ainda, tinha uns 9 anos, aí pra cá [Belém] peguei mais um pouco de prática, conheci as pessoas, as brincadeiras mudaram também (Evanilson).

Ficou melhor [quando mudou de escola], porque eu ficava só lá naquela escola lá, era só um pouco de aluno, não era bacana (Breno).

Observamos que, com a mudança de colégio para Belém, diferentes formas de sociabilidade ganham contorno na vida dos jovens. Simmel (2006) articula a sociabilidade como um fenômeno de sociação, que engloba os sentimentos e satisfações de o indivíduo se inserir no grupo. As falas dos jovens retratam a satisfação de terem aumentado seu ciclo de amizades, que permanecia limitado enquanto estudavam na escola Acaimu. Com a ida rotineira à capital, os participantes desta pesquisa são colocados frente a novos diálogos e vivências.

Assim, as experiências compartilhadas pelos jovens de Murutucu respondem aos ecos de sua intersubjetividade e resultam na produção de marcadores de enunciação, que moldam as formas da identidade cultural vivenciadas por eles. Nesta pesquisa, compreendemos as identidades culturais nos termos de Boaventura de Sousa Santos (1993), que as relaciona como processos de identificação, transitórios e fugazes, os quais estão sempre em constante transformação. As identidades seriam, então, identificações em curso. Apresentaremos, a seguir, as identificações relacionadas aos jovens de Murutucu.