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“THE BAY” “THE FJORD” TOTAL

5. How the activation policy is

A condição juvenil atual é refletida por Martín-Barbero (2008) por meio das ideias de Hoppenhayn (2004). O autor destaca os paradoxos que emergem do cenário vivido pelos jovens na contemporaneidade: A oportunidade de alcançar educação e informação é maior, mas há menos acesso ao emprego e ao poder; a aptidão para as mudanças produtivas se ampliou, porém a juventude acaba não participando desse processo; vemos um aumento do consumo simbólico, mas restrição ao consumo material. Há também um “grande senso de protagonismo e autodeterminação, enquanto a vida da maioria se desenvolve na precariedade e na desmobilização; e, por fim, uma juventude mais objeto de políticas do que sujeito-ator de mudanças” (MARTÍN-BARBERO, 2008, p. 12).

Martín-Barbero ressalta que o ensino e a aprendizagem, na contemporaneidade, estão diretamente conectados aos universos do audiovisual e da tecnologia, e aponta fatores

negativos: a coesão juvenil e a divisão social reproduzidas, que aumentam as diferenças entre as formas de relação com a tecnologia e sua interatividade. Ele aborda questões levantadas com a “Segunda Pesquisa Mexicana Sobre Juventude”, que corroboram seu pensamento:

O acesso aos meios tecnológicos é, hoje, menos desigual do que a posse do equipamento, a lacuna continua sendo enorme entre aqueles para os quais a tecnologia digital faz parte do ambiente familiar e cotidiano e para aqueles que só podem acessá-la ocasionalmente; isso se traduz – como afirmou Bourdieu – na marca de classe que a posse deixa sobre o modo de relação com os dispositivos e recursos (MARTÍN-BARBERO, p. 15, 2008).

Para o pesquisador, atualmente, a tecnologia é uma das metáforas mais poderosas para entendermos as redes e interfaces da construção da subjetividade. Na visão de Martín-Barbero, os sujeitos que fazem parte das novas gerações estão marcados por relações sociais pautadas pela sensibilidade, demonstrada por meio de vestimentas, tatuagens e adequação aos parâmetros ditados pela sociedade. “Disto resulta um movimento de jovens que transitam entre o repúdio à sociedade e o refúgio na fusão tribal” (MARTÍN-BARBERO, 2008, p. 22). E a partir dessa conjuntura é que são tecidas as mediações interativas por meio da tecnologia, detentora de um potencial alternativo que, muitas vezes, é criticado. O autor expõe sua opinião contrária aos apocalípticos que demonizam as interações tecnológicas, quando se referem a elas como causadoras de vícios e de distanciamento dos sujeitos da realidade:

A maior parte da visão apocalíptica – sobre a maneira como se inserem as mediações tecnológicas nas interações sociais – parte de uma percepção do

normal identificada com o natural [...] a ideia de natureza que se conserva nas

arestas da moderna racionalidade é seu último resíduo metafísico: muitos adultos e professores pensam as tecnologias como o artificial, opondo-o, enquanto tal, a relações sociais, que seriam naturais. A pergunta é: quando foram naturais as relações sociais? Claro está que o sujeito humano tem uma natureza, mas ela é tão social e artificial quanto a tecnologia com a qual se veste, se alimenta e sonha (MARTÍN-BARBERO, 2008, p.23, grifos do autor).

Valendo-se do pensamento de Michel Serres (2006), Martín-Barbero (2008, p. 23-24) reforça o potencial das tecnologias, que reverberam a criatividade humana, mas destaca seu poder limitador: elas não solucionam os problemas sociais, tampouco podem renovar a democracia. “Não há potência na tecnologia que não seja moldada, mediada, pelas tendências sociais profundas, tanto as que se voltam à emancipação quanto as que se destinam à dominação e à exclusão”. Dessa forma, a tecnologia não é produtora de desigualdades, ela apenas reforça as relações de exclusão que são geradas pela própria sociedade, que atua concentrando o poder e o saber, e reproduz a submissão.

Esse caráter limitador apontado pelo pesquisador colombiano, que envolve as tecnologias, é facilmente percebido na realidade de Murutucu. Os jovens moradores da ilha tiveram acesso à luz elétrica em 2011; hoje têm a possibilidade de utilizar as inúmeras funções disponibilizadas pelo smartphone, que se insere tanto em realidades urbanas quanto rurais. Entretanto, a tecnologia, sozinha, não é capaz de mudar os problemas sociais vivenciados pelos moradores da ilha, que não têm acesso à água potável, a um sistema sanitário, nem a hospitais e escolas.

O acesso à tecnologia diluiu as fronteiras de tempo e espaço, e inseriu jovens moradores de zonas rurais, como os de Murutucu, em múltiplas possibilidades de interação no ciberespaço. Michel Serres (2013) reflete sobre as mudanças culturais juvenis ocorridas principalmente depois dos anos 1970, com a habitação de um espaço virtual e a possibilidade de manipulação de diversas informações ao mesmo tempo. O filósofo francês sugere que as crianças e jovens “não têm mais a mesma cabeça” de seus pais, ao usufruir de um leque de possibilidades nunca antes vivenciado.

Por celular, têm acesso a todas as pessoas; por GPS, a todos os lugares; pela Internet, a todo o saber: circulam, então, por um espaço topológico de aproximações, enquanto nós vivíamos em um espaço métrico, referido por distâncias. Não habitam mais o mesmo espaço” (SERRES, p. 19, 2013).

O corpo, a expectativa de vida, comunicação e percepção de mundo dos jovens mudaram. Eles são chamados por Serres (2013, p. 20) como “polegarzinhos”, devido aos rápidos polegares que digitam mensagens em telas de celular, “mais rápidos do que eu jamais conseguiria com todos os meus dedos entorpecidos [...]”, relata o filósofo. Enquanto a jovem Tainara respondia a algumas perguntas elaboradas informalmente, sentada na cadeira da cozinha de sua casa, os polegares percorriam a tela de seu smartphone LG. Os ouvidos permaneciam atentos às perguntas, mas os olhos fitavam o celular, que estava com a página do

Facebook conectada. A jovem afirmou que passa grande parte do tempo produzindo e

distribuindo informações por meio do dispositivo: “Fico direto no celular, não largo. Enquanto eu faço tudo, o celular tá comigo. Fico mandando mensagem direto, Whatsapp, qualquer coisa que tenha mensagem eu tô mandando”.

Com o uso das tecnologias, o corpo não é mais apenas um suporte para a comunicação e sim um agente, pois afeta e é afetado em sua materialidade pela tecnologia (ERTHAL, 2007). Marshall McLuhan observa que (1964, p.63): “Qualquer invenção ou tecnologia é uma extensão ou auto-imputação do nosso corpo, e essa extensão exige novas relações e equilíbrios entre os demais órgãos e extensões do corpo”. Os sentidos da audição, tato e visão são acionados por

meio do smartphone, que possibilita novas relações sensórias aos indivíduos: com nossos polegares percorrendo a pequena tela do dispositivo, podemos visualizar imagens, ouvir áudios gravados de forma instantânea, ter acesso a vídeos. Em aplicativos como o bloco de notas, é possível arquivar informações importantes, além da opção de salvarmos números de contatos pessoais na agenda, função que já era disponibilizada nos primeiros celulares fabricados. Assim, como reflete McLuhan, o homem projeta para fora de si um modelo vivo do próprio sistema nervoso central, fato que ocorreu primeiramente com o advento da tecnologia elétrica.

McLuhan evoca o mito grego de Narciso para expor a relação do homem com a tecnologia. Narciso vem da palavra grega narcosis, que significa “entorpecimento”. No mito, o jovem Narciso toma seu próprio reflexo na água por outra pessoa: “A extensão de si mesmo pelo espelho embotou suas percepções até que ele se tornou o servomecanismo de sua própria imagem prolongada ou repetida” (MCLUHAN, 1964, p.59). Da mesma forma que Narciso se fascina pelo reflexo, o autor afirma que os homens ficam fascinados por qualquer extensão de si, que esteja em qualquer material que não o deles próprios.

É a contínua adoção de nossa própria tecnologia no uso diário que nos coloca no papel de Narciso da consciência e do adormecimento subliminar em relação às imagens de nós mesmos. Incorporando continuamente tecnologias, relacionamo-nos a elas como servomecanismos. Eis porque, para utilizar esses objetos-extensões-de-nós-mesmos, devemos servi-los, como a ídolos ou religiões menores. Um índio é um servomecanismo de sua canoa, como o vaqueiro de seu cavalo e um executivo de seu relógio (MCLUHAN, 1964, p. 64).

Nesse contexto, percebemos a intensa inserção do smartphone no cotidiano dos indivíduos, principalmente de jovens, modificando as práticas cotidianas, que sempre são realizadas acompanhadas pelo smartphone, conforme notamos no depoimento da entrevistada Tainara: “Eu arrumo a casa, vou deitar e assisto televisão enquanto eu fico no Whatsapp”.

O aparelho está inserido em variadas atividades da rotina, como observa a jovem Ana:

Acordo e mexo no celular, porque eu acordo com ele me despertando, aí eu mexo nele, trago ele pra escola, venho escutando música, aí quando chega aqui na escola nem uso mais, aí eu já volto pra casa, vou escutando música, mexendo na Internet. O celular está comigo 24 horas, mas nem sempre eu tô mexendo nele.

Por meio do depoimento de Ana, notamos a relação de extensão com a tecnologia abordada por McLuhan. Por mais que a jovem não esteja utilizando o smartphone, ele permanece com ela durante todos os momentos do dia, configurando novas formas de

sociabilidade e interação. Assim, o aparelho não se integra à vida do jovem apenas como um canal, mas também com suas funções de comunicação que se associam aos processos sociais dos jovens: “[...] uma tecnologia de ampla difusão, ‘invasiva’, como o telefone celular, se insere nos valores desse segmento, crescendo e abarcando uma proporção cada vez maior em seu grupo de referência” (ARTOPOULOS, 2011, p.36).