Chapter 2. Theory
2.1 Literature review
O conhecimento surge em um contexto e, embora não haja discordância dessa constatação, será importante entendermos o que seria o “ba” e como ele favoreceria a criação do conhecimento organizacional.
Nonaka e Takeuchi (2008) explicam que muitos filósofos discutiram a importância de um lugar para a cognição e a ação humana. Platão chamou um lugar para a gênese da existência de chora. Aristóteles chamou o lugar para uma coisa existir fisicamente de Topos. Heidegger chamou o lugar para a existência humana de Ort. Desta forma a ideia de lugar na história humana é comum.
O conceito de “ba” foi originalmente proposto pelo filósofo japonês Kitaro Nishida (1921;1970 apud. NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p. 99) e significa:
[...] um contexto compartilhado em movimento, no qual o conhecimento é partilhado, criado e utilizado. “ba” proporciona a energia, a qualidade e os locais para desempenhar as conversões individuais de conhecimento e percorrer a espiral de conhecimento.
Os autores sugerem que, embora haja a tendência de se pensar o “ba” como um espaço físico, ele deve ser entendido como interações que ocorrem em tempo e local específicos. Em outras palavras, o “ba” poderá ocorrer em um espaço físico (escritório, espaço organizacional em geral), virtual (e-mails e videoconferência), mental (experiências compartilhadas, ideias, crenças, valores), ou qualquer combinação entre eles. Para Nonaka e Takeuchi (2008, p.100):
O “ba” pode ocorrer no indivíduo, em grupos de trabalho, equipes de projetos, círculos informais, encontros temporários demonstrando assim que o “ba” é um espaço existencial onde os participantes partilham seu contexto e criam novos significados através da interação.
Segundo Rivadávia Alvarenga Neto, a diferença entre o “ba” e a interação social é que o “ba” é específico para a criação do conhecimento.
A partir dessa perspectiva, o que Nonaka e Takeuchi (2008) querem dizer é que o novo conhecimento surge através do conhecimento que já existe, porém em decorrência do significado que mudou e do contexto transformando. O que existia não é o que existe agora. Nonaka e Takeuchi (2008) alertam para o conceito de “ba”, afirmando ser ele uma forma de organizar a criação de significado e não um modo de organização, como hierarquia e redes. Uma empresa, afirmam os autores:
[...] pode ser vista como uma configuração orgânica de vários “ba”, onde as pessoas interagem umas com as outras e com o ambiente, e com base no conhecimento que possuem e no significado que criam. (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p.100) Para lembrar onde o “ba” favoreceria a criação do conhecimento, os autores afirmam que, ao reconhecer a empresa como um sistema orgânico com vários “ba” interagindo, será possível justificar qual o tipo de conhecimento que deve ser criado, quem são as pessoas mais
preparadas para interagir e quais tipos de interação serão necessários para que surja o conhecimento.
Um aspecto importante introduzido pelos autores Nonaka e Takeuchi (2008) diz respeito à energização do “ba”. Para esses autores, a energização surgiria do conhecimento da missão que originou o “ba”. Segundo Nonaka e Takeuchi (2008), o que se configura é a necessidade de intenção clara e objetivos compartilhados, para que se atinja um propósito. Este poderá ou não ser definido pela gerência. Os participantes do “ba” devem estar completamente comprometidos com a missão e as metas. É através desse comprometimento e das interações decorrentes dele que o ‘ba” torna-se energizado. Nonaka e Takeuchi (2008) explicam como o processo ocorre no “ba”:
No “ba” os participantes refletem sobre suas próprias visões e as compartilham para atingir a transubjetividade. Questões como qual é a essência dessa coisa ou evento? Ou por que fazemos isso? São eficazes na promoção do diálogo dialético. (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p. 110)
Os autores afirmam ser este processo facilitador para a construção do conhecimento, pois os participantes do “ba” têm que se “desapegar” dos seus conceitos e crenças e mesmo percebê-los e interagir com os dos outros participantes simultaneamente, possibilitando a quebra de paradigmas e a criação de novos conceitos.
O segundo aspecto importante é a conexão dos “ba”, fundamental dentro dessa teoria do conhecimento, pois, para os autores, um “ba” sozinho não cria o processo de conhecimento. Considerando os níveis ontológicos ou categorias, tais como indivíduo, grupo, organização e interorganização, o “ba” tem que existir em vários níveis e se conectar para formar um “ba” maior, denominado “basho”. A maneira como esses “ba” se conectam é que dará a qualidade do conhecimento criado. Nonaka e Takeuchi (2008) reforçam a responsabilidade do líder:
Os líderes tem de facilitar as interações entre os vários “ba” e sintetizar o conhecimento criado no “ba”.Conectar o “ba” em outras palavras exige recategorização e recontextualização do “ba”. Em muitos casos, as relações entre os “ba” não são predeterminadas. Qual “ba deveria ser conectado e de qual modo, com frequência não é claro. Portanto, os líderes tem de visualizar a situação para conectar os vários “ba” a medida que as relações entre eles ocorrem. (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p. 111)
Os autores esclarecem que o papel da liderança é fundamental para reconhecer onde estão as pessoas chaves e onde acessar os conhecimentos disponíveis, capazes de favorecer a interação no “ba”.
Na visão de Nonaka e Konno interpretada por Alvarenga Neto; Choo, 1998 em um
paper “A próxima fronteira: criando contextos capacitantes em organizações do
conhecimento”:
O “ba” é uma metáfora conceitual integrativa para o modelo SECI (Nonaka, 1991) no qual o conhecimento organizacional é uma interação contínua e dinâmica entre o conhecimento tácito e o conhecimento explícito. Quatro tipos de “ba” correspondem aos quatro estágios do Modelo SECI e cada “Ba” suporta um processo particular do processo de conversão, consequentemente acelerando o processo de criação de conhecimento organizacional.
Nonaka e Takeuchi (2008) afirmam que o contexto para a criação do conhecimento dialético é o “ba”, cujo conceito é de dinâmica e movimento. O “ba” sobre influência do meio externo, porque seus limites não podem ser rigidamente impostos e porque sua existência precede a permeabilidade da interação entre indivíduos, grupos, organização e interorganização, pois a empresa é um mecanismo orgânico de trocas incessantes.
Os autores Nonaka e Takeuchi (2008) afirmam que o conceito da criação do conhecimento, a partir de um processo dialético, é um afastamento das teorias de posicionamento e da visão baseada em recurso. Complementam, ratificando que a criação do conhecimento é um processo dinâmico e interativo entre indivíduos, as áreas da organização e externamente, com o ambiente (mercado), e definem estratégia como “a estratégia em uma empresa dialética pode ser contextualizada como uma contribuição dos recursos internos e do ajuste ambiental” (NONAKA; TAKEUCHI, 2008, p.116).
Rivadávia Alvarenga Neto reconhece, a partir dos profundos estudos que realizou com Choo, que o conceito de “ba” pode ser traduzido como um “contexto capacitante”, que favorece e estimula a criação do conhecimento. Ele acrescenta que é a partir do “ba”, ou seja, “contexto capacitante”, que nasce o modelo SECI, que é o modelo em espiral da criação do conhecimento organizacional.
Rivadávia Alvarenga Neto comenta o que pretendia Nonaka com a criação da sua teoria:
A ideia da espiral do conhecimento precede tudo; apenas Nonaka a desenvolveu em um nível acadêmico do que na prática. Ele perseguia algo muito mais ambicioso, que era a construção de uma teoria da firma baseada no conhecimento, ou seja, em que a fonte de vantagem competitiva era o conhecimento, não a core competence, de Prahalad e Hamel, nem a capacidade dinâmica de Teece. (ALVARENGA NETO, Pensamento Nacional - HSMManagement 84. Janeiro-fevereiro, 2011)