Alguns autores consideram que somente a partir de Maquiavel começa a surgir a ciência política como conhecemos hoje (ARANHA,1986), uma vez que o autor transforma o caráter prescritivo do pensamento político até então, em imperativo de ação de modo a torná-lo mais eficaz do ponto de vista de seus fins. Nesta seção será abordado o pragmatismo e realismo de Maquiavel, que acrescenta mais alguns elementos à política, como, por exemplo o critério de eficácia.
Resta analisar agora como um príncipe deve comportar-se com seus súditos e com seus amigos. Como muita gente já escreveu a respeito, duvido que não me considerem presunção tal exame, ainda mais porque, ao tratar desse tema, não me afastarei demasiado dos princípios que outros estabeleceram. Como, porém, minha intenção não é escrever sobre assuntos de que todos os interessados tirem proveito, julguei adequado procurar a verdade pelo resultado das coisas, mais do que por aquilo que delas se possa imaginar. E muitos imaginaram repúblicas e principados nunca vistos ou reconhecidos como reais. Tamanha diferença se encontra entre o modo como se vive e o modo como se deveria viver que aqueles que se ocuparem do que deveria ser feito, em vez do que na realidade se faz, aprendem antes a própria derrota do que sua preservação; e, quando um homem deseja professar a bondade, natural é que vá à ruína, entre tantos maus. (MAQUIAVEL, 1999, p.99)
Como a citação acima bem exemplifica, Maquiavel (1999) propõe estudar as relações políticas pela análise dos fatos humanos, sem perder-se em especulações. Não estava
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Nesta subseção, além da literatura mencionada, acrescentou-se a obra de Maquiavel: O Príncipe e um capítulo de Maximiano (2000) sobre a influência de Maquiavel na administração.
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preocupado com o que deveria ser, mas com a realidade de uma ação política eficaz, independente de qualquer influência da moral, sobretudo, cristã. A esse realismo anti- utopista alia-se uma tendência utilitarista, voltada para a ação eficaz e imediata.
Este pensador promoveu o questionamento dos pressupostos da teoria clássica (entre eles, que a glória era uma recompensa à virtude), usando como principal arma, a evidência histórica. Vários acontecimentos históricos são apresentados de modo a demonstrar que o político não deve submeter suas ações aos mandamentos de seu código moral, pois sobre seus ombros pesam a responsabilidade dos interesses coletivos, deste modo existirão casos em que o mesmo deverá violar a sua moral privada, para defender as instituições que representa, ou garantir a própria sobrevivência da nação. Deve-se destacar que esta postura ética não significa um amoralismo, mas uma moral eminentemente mundana, centrada em critérios de avaliação do que é útil à comunidade, que de certa forma considera legítimo o recurso ao mal em nome dos objetivos do Estado.
O príncipe é considerado um indivíduo especial, que deverá ser hábil o suficiente para aliar suas virtudes (virtú) às circunstâncias. Afinal em nada adiantaria todas as suas virtudes se o príncipe não fosse astuto o suficiente, para esperar uma ocasião propícia para demonstrá-las, ou não. Porém, somente o Príncipe está isento de culpa pelo uso dos meios indiscriminados em conjunturas de grave perigo para a comunidade, disso deriva que para que haja estabilidade política também há de haver boas leis e instituições, pois o poder puramente pessoal degenera facilmente em tirania e instabilidade.
Maquiavel, entre os autores apresentados, é sem dúvida o mais referenciado pela literatura organizacional, existindo até mesmo livros como o de Jay (1968), que procuram aplicar os seus princípios à gerência de grandes organizações. Alguns autores, como Maximiano (2000) consideram que entre as inúmeras idéias renascentistas a respeito da administração, as de Maquiavel contam-se entre as mais influentes, de modo que a sua leitura tornou-se indispensável para todos os tipos de dirigentes.
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Apenas para ilustração serão citados alguns pontos em que Maquiavel (1999) se aproxima das práticas de gestão de forma ampla e do processo de implementação de mudanças de maneira específica, além de uma série de recomendações sobre liderança presentes em sua obra6:
(I) O nível de solidariedade é maior quando o povo participa do governo. Homens em liberdade identificam-se com os negócios do Estado e o defendem como coisa sua (MAQUIAVEL, 1999, p.22). Os conflitos sociais são necessários porque próprios à natureza mesma da liberdade. (MAQUIAVEL, 1999, p. 23)
(II) A aprovação dos governados é essencial para o sucesso dos governantes. A primeira qualidade do príncipe é a qualidade dos homens que o cercam (MAXIMIANO, 2000, 146).
(III) Maquiavel (1999) defende que não existe algo mais difícil, nem de sucesso mais duvidoso, nem mais perigoso do que ser um líder na introdução de mudanças. O inovador terá como inimigos todos aqueles a quem a velha ordem das coisas beneficiava e, como partidários moderados, aqueles a quem a nova ordem talvez vá beneficiar. Este apoio moderado deriva em parte do medo dos adversários da mudança, que tem a lei de seu lado, e em parte da incredulidade da espécie humana, que nunca aceita nada novo senão depois de acontecido.Esta afirmação guarda estreita relação com os processos de implementação de mudanças técnico-organizacionais.
Muitas vezes mal interpretado, o nome de Maquiavel ficou marcado como sinônimo de esperteza, mal intencionada. Porém este autor representa uma ruptura com o caráter normativo do pensamento político. Uma vez que seus estudos não pretendem a prescrição de um tipo ideal de Estado, mas compreender como as organizações políticas se fundam, se desenvolvem, persistem e decaem. Daí o aparente relativismo
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Tais como: Por que os homens, e em especial os Príncipes são louvados ou insultados; em que circunstâncias é um bem ser julgado liberal; ou se é melhor ser amado, ou temido, entre outras.
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ético que transformou o dever ser numa função da necessidade. Sob esta ótica a política deixa de ser um instrumento para a busca discursiva do bem comum, para se tornar um dos meios disponíveis ao príncipe para garantir a perpetuação do seu poder. Todavia, este poder a partir do século XVII, será visto com desconfiança por muitos autores, que julgavam necessário estabelecer alguns limites ao poder do soberano.