Um grupo é formado por sujeitos e a dialética das relações entre estes indivíduos, suas complementaridades e contradições, contribuem para formar um coletivo, que tende a ser maior que a soma de seus integrantes. Para entender o trabalho realizado pelo coletivo Dolores na Saga do menino diamante consideramos importante entender quem são os sujeitos que formam o coletivo e como eles chegaram ao grupo. Entretanto, devido ao tempo escasso, não foi possível entrevistar todos os integrantes do grupo. Desse modo, utilizaremos os relatos de alguns integrantes entrevistados para exemplificar parte das trajetórias e os modos de se integrar ao coletivo.
O grupo foi formado por quatro pessoas: Luciano Carvalho e Érica Viana, então estudantes de jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes (UMC), juntamente com Alan Benatti e Cíntia Almeida, que faziam com Luciano Carvalho o espetáculo Dores da Noite. Surge então o nome Dolores, como derivado do nome do espetáculo anterior à existência do grupo. Como conta o próprio Luciano Carvalho:
O Dolores surge com esse caráter: periférico, ou seja, que é afastado do centro, não porque a gente quisesse, a gente não tinha consciência de querer, de negar ou não o centro. A realidade material concreta apresentada impedia nosso acesso a fazer teatro no centro da cidade, então optamos por fazer teatro num lugar possível. Nesse caso, no Jardim Triana, o bairro onde nasci e me criei37
.
Em 13 anos de história, muitas pessoas entraram e saíram do Dolores, que atualmente conta com cerca de vinte integrantes. Danilo Monteiro, em entrevista a mim concedida (18/05/2012), comenta que não há uma única forma para se chegar ao grupo, pois as pessoas “vêm chegando”. Sua história no grupo começou no ano de 2002, por conta de um convite de Érika Viana - que era sua colega de trabalho na área do jornalismo, para conhecer o trabalho do Dolores. Na época, o coletivo tinha uma atuação forte na Escola Municipal José Bonifácio, vizinha ao CDC Patriarca, onde dois de seus integrantes, os irmãos Luciano e Cristiano Carvalho, cursaram o Ensino Fundamental. Nesta escola o grupo realizava eventos e também apresentava espetáculos, como por exemplo, Bonecos Chineses, que era apresentado em uma sala de aula. Ao conhecer o grupo Danilo Monteiro percebeu que a opção do Dolores era por um “trabalho artístico e político, com um envolvimento que era profundo, ou pelo
menos tinha a intenção de proporcionar um envolvimento profundo com a comunidade”. Danilo acompanha as atividades do grupo com certa frequência e, ao perceber, já fazia parte dele. Posteriormente, assumiu a preparação vocal e codireção musical do espetáculo Sombras dançam neste incêndio.
De forma similar a Danilo Monteiro, porém com outra trajetória pessoal, Tita Reis também “foi chegando” no Dolores. Oriundo da militância política de base, despertada por ocasião do movimento “Fora Collor”, aos 14 anos Tita Reis começou a se envolver com política e desde então mantém seu engajamento, passando por diversas experiências, com destaque para o trabalho na Juventude do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, junto a parceiros de militância política e cultural da região de Guaianases, bairro do extremo leste da Capital paulista, fundou o espaço cultural Honório Arce. Por conta do Honório Arce conheceu Luciano Carvalho, que havia sido convidado a ministrar uma oficina de teatro no espaço cultural de Guaianases. Conforme o próprio Tita Reis38:
A partir disso o Luciano começou a convidar as pessoas do Honório Arce para conhecer o espaço aqui do Dolores, estava tudo no começo ainda. A primeira vez que eu vim foi no dia que eles estavam plantando a arena arbórea... A galera estava em mutirão e nós ajudamos a plantar as árvores e fomos convidados, eu e a Renata de Sousa, que também era do Honório, para participar do grupo, e no começo de 2004 passamos a fazer parte do Dolores.
Por este relato já é possível notar uma característica do grupo e da forma de envolvimento dos novos integrantes: a ação. As pessoas que se integram ao grupo normalmente não vêm apenas para assistir aos espetáculos, pelo contrário, é o projeto político e estético do grupo como um todo, que não se resume ao teatro strictu sensu, o que principalmente atrai as pessoas. Como no exemplo de Tita Reis, que chegou colocando a “mão na massa” e percebendo como se daria o trabalho com o grupo a partir de então. Outra inferência relevante que podemos fazer do relato de Tita Reis é que a articulação do Dolores com os coletivos com perspectivas próximas às suas, amplia a área de atuação do grupo e permite que as redes de vínculos estabelecidas alimentem reciprocamente os coletivos e indivíduos que dela participam.
Outra característica importante do grupo, no tocante ao envolvimento de novos integrantes, diz respeito ao processo de envolvimento familiar que vem ocorrendo
38 Assim como na introdução, neste capítulo todas as citações de Ananza Macedo, Danilo Monteiro, Dirce Ane, Érika Viana, Fernando Couto, Luciano Carvalho e Tita Reis, quando não indicadas, referem-se ao processo de entrevistas a mim concedidas.
conforme o grupo aumenta os anos de estrada. Nesse ínterim os filhos dos integrantes chegam à idade adulta e participam de forma mais efetiva nos trabalhos do coletivo. Esse é o caso de Dirce Ane, ou Didi, como é conhecida no grupo, que atualmente está com dezenove anos de idade e é filha de Maria Eunice Sobrinho (a Nica), uma das integrantes mais antigas do grupo.
Dirce Ane, aos sete anos, conheceu o Dolores, por influência de sua mãe. Ela acompanha as atividades, participa dos eventos comunitários, assiste a ensaios e às próprias peças. Ela faz questão de realçar que viu todas as peças do grupo, várias vezes. No início do processo da Saga do menino diamante, em 2009, quando estava com dezesseis anos de idade, Dirce Ane decide entrar efetivamente para o grupo, participando do processo de criação como atriz e também trabalhando na produção do espetáculo. Em entrevista a mim concedida, Dirce Ane comenta:
[...] Fico pensando que eu sou ultra socialista e ateia e me perguntando desde quando que eu sou assim, e eu sei que o Dolores teve influência total nisso. Fiquei tentando me lembrar, e acho que com quinze ou dezesseis anos eu já era bastante o que eu sou hoje, com uma forte influência do Dolores. [...] Então penso que o Dolores me proporcionou ver e estudar coisas que foram muito importantes.
Reflexo da formação político-pedagógica realizada no Dolores, Dirce comenta ainda que por influência do grupo chegou a fazer um “mini” trabalho de formação política de base na escola onde cursou o Ensino Médio. Parte do mesmo processo de formação, Yago Albuquerque, de 18 anos, é atualmente o mais jovem dos dolores39. Filho de Luciano Carvalho, Yago integrou-se efetivamente ao grupo também no processo da Saga, mas na segunda temporada, em 2010.
Por outro lado, há exceções a este processo praticamente espontâneo de integração de novos participantes e estas exceções devem ser destacadas porque podem gerar contradições em relação ao projeto político do grupo.
Danilo Monteiro relata um caso de exceção:
Na Saga nós sentimos que precisávamos de mais dois ou três atores para dar conta do tipo de cena, com coros grandes. Então chamamos pessoas que foram indicadas, não contratamos apenas para um projeto, chamamos para integrar o grupo, e estas pessoas estão até hoje [...].
39 Durante a trajetória do grupo, a palavra Dolores tornou-se não apenas o nome do coletivo, mas também a forma como os integrantes costumam denominar-se entre si, como por exemplo: “foram três dolores participar do debate”. Utilizarei a palavra dolores com d maiúsculo, quando referindo-se ao nome do grupo e com d minúsculo quando referindo-se aos integrantes.
A necessidade de chamar mais pessoas ocorreu, entre outros motivos, porque no início do processo da Saga, o grupo Mentecorpos do Balaio, então parceiro do Dolores e que estaria presente na encenação, desistiu da parceria, devido a divergências políticas e problemas de relacionamento interpessoal. Ananza Macedo, em entrevista a mim concedida (11/05/2012), comenta que foi convidada por Guga Idelbrando, integrante do Dolores, na época em que ambos estudavam teatro na Faculdade Paulista de Artes (FPA). Isso se deu em fevereiro de 2009, quando o processo de criação do espetáculo já havia iniciado, ela havia perdido, portanto, os estudos iniciais que deram suporte teórico e conceitual ao trabalho de criação, o que a fez se sentir durante um bom tempo como contratada, pois no início percebia que não trabalhava da mesma forma que o Dolores e sentia certa imposição de pensamento. A esse respeito, Ananza Macedo relata:
Eu me sentia perdida, despolitizada. Tanto que foi um termo que eu abolia e odiava até o ano passado, achava que era um termo preconceituoso que não dizia respeito ao ser humano. Tal pessoa não é simplesmente não politizada, às vezes ela não viveu tanto ou no mesmo lugar que você, daí ela vai ter outras experiências. Porém, despolitizado acho um pouco preconceituoso, às vezes deixamos de lado uma pessoa que talvez poderíamos conhecer, ainda que ela não pegue na enxada, mas outras tantas coisas ela vai fazer em comum com o seu pensamento. Me senti um pouco assim, demorou para passar, eu diria até que não passou completamente, mas estou mais feliz.
Apesar das dificuldades, principalmente no início do processo, Ananza Macedo se dedicou de forma intensa ao trabalho de criação e integrou vários núcleos, entre eles o de música e os núcleos de criação de cenas, além disso, seu trabalho expressivo no espetáculo é notável, tanto nos coros em que participa, quanto nos solos que integram canto, dança e poesia em cena. Ela própria se considera uma pessoa polêmica, o que torna seu discurso por vezes mais extremo do que percebemos em sua prática cotidiana, no coletivo. Vale ressaltar que, a despeito das divergências, sua história de vida e sua formação tem muita identidade com o trabalho do grupo, afinal, além de ter nascido e crescido na periferia, sua formação política é de perspectiva crítica, inclusive ela afirma:
Nasci na greve, vivi na greve, nela me formei, eu colocava banana no escapamento dos carros lá no palácio dos Bandeirantes... Minha mãe trabalhava no Hospital do Servidor Público Estadual, o Hospital do Servidor, desde que me conheço por gente, faz greve... [...] Então desde pequena eu cresci e foi assim. Cresci na greve e reivindicando coisas. Passei o colegial brigando com o professor quando a aula era ruim e também brigando com eles por melhores salários [...] Sempre foi assim, mesmo antes de saber quem
era Marx, quem era fulano ou sicrano, para mim isso tudo é um bando de nomes que dizem o seguinte “Meu, precisamos e temos o direito de viver melhor e ponto!”. Eu não preciso – desculpe o termo – dar a bunda para ganhar uma migalha e achar que isso é bom, essa é minha posição política.
O relato de Ananza Macedo remete a uma fala de Luciano Carvalho, relatando que o primeiro fator material que permitiu a emergência do trabalho do grupo foi provavelmente a condição de exclusão social e a correlata exclusão geográfica. Assim, esta situação de exclusão, que hoje é percebida como identidade de classe trabalhadora - uma vez que não se trata de tentar se incluir em um sistema desigual e injusto como o sistema capitalista, mas sim buscar brechas e criar tentativas de construção de um novo sistema – une diversas pessoas com histórias e formações distintas, em torno do mesmo projeto político e da linguagem artística.
Após conhecermos a trajetória de alguns dos integrantes do grupo e sabermos as formas pelas quais eles se envolveram no coletivo, é importante entendermos como se dá a organização do grupo, que tem como premissa uma horizontalidade radical. Danilo Monteiro afirma:
Isso tem a ver com a compreensão política do grupo, mas é claro que não estamos superando a alienação do trabalho, estamos superando apenas parcialmente, é um “enclavezinho” de uma relação diferente de trabalho, que tem a ver com o fato de trabalharmos dentro de um sistema cooperativista: cada pessoa tem uma voz igual à outra, e cada pessoa é, digamos, dona do trabalho junto com outras pessoas, não há uma relação hierárquica segundo o tempo de grupo de cada integrante. E isso é um fundamento político que, para nós, é consenso. Claro que dentro de uma cooperativa existem funções específicas, mas vejo isso como uma distorção – dialeticamente falando -, são distorções necessárias para que o enclave continue existindo dentro de um sistema que se opõe a sua atuação, podemos dizer que o modo de trabalho cooperativista é um enclave não capitalista, um enclave que cria um tipo de relação de trabalho que é essencialmente diferente, é uma possibilidade que o Fomento traz.
Ainda sobre o mesmo tema, Tita Reis lembra que
O Dolores é um grupo que desde o início promove discussões políticas e de classes, os assuntos não se ligam apenas ao fazer teatral e musical, mas também à ação direta, de botar a mão na massa, a própria ideia do teatro mutirão, em não ter uma divisão social do trabalho, com diretor, figurinista, faxineiro ou ator. Aqui todo o mundo faz tudo.
A proposição de organização horizontal denota a busca de coerência entre teoria e prática no trabalho do Dolores, uma vez, que segundo István Mészáros, para
compreender e superar as contradições de nossa ordem social a categoria do trabalho é central, já que “encontramos na raiz de todas as variedades de alienação a historicamente revelada alienação do trabalho: um processo de autoalienação escravizante” (MÉSZAROS, 2008, p. 60). Ainda de acordo com Mészáros, “é possível superar a alienação com uma reestruturação radical das nossas condições de existência há muito estabelecidas e, por conseguinte, de ‘toda a nossa maneira de ser’” (ibid.). Sem deixar de compreender os limites e contradições de nosso tempo, o Dolores propõe uma forma radicalmente horizontal de organização, buscando reestruturar seu fazer artístico e político, para superar, ainda que parcialmente, a condição alienante a que estão submetidos os seus integrantes, enquanto classe trabalhadora.
Os primeiros passos da Saga
A ideia de fazer o espetáculo A Saga do menino diamante: uma ópera periférica surgiu de maneira inusitada para os padrões do Dolores. De forma divertida, Luciano Carvalho conta que o músico Renato Gama, integrante da banda Nhocuné Soul - seu amigo e parceiro de trabalho há muito tempo - teve um sonho, visualizou o nome e a história de um espetáculo: um menino como eles foram, de periferia, que sai do barro, enfrenta uma longa saga e vence, se torna um diamante. Renato Gama estava entusiasmado para fazer este trabalho unindo Dolores e Nhocuné Soul, mas Luciano Carvalho ficou extremamente decepcionado com a ideia, pois, na perspectiva apresentada seria mais um trabalho para exaltar o indivíduo, reproduzindo o discurso da hegemonia, assim, não respondeu à proposta do amigo.
Passado certo tempo, Luciano Carvalho percebeu que era possível aproveitar o nome e a ideia do sonho para falar exatamente do oposto: o processo de construção do indivíduo em meio às múltiplas determinações sociais existentes. Ou seja, o espetáculo já nasceria de uma contradição: o título seria um chamariz espetacular que anunciaria o seu contrário. Após compartilhar com Renato Gama a nova proposta, ambos embarcaram na ideia, estruturam-na e apresentaram aos demais integrantes do Dolores. Nesse ínterim enviaram um projeto para o Programa Municipal de Fomento ao Teatro, tendo como mote a montagem do espetáculo. O projeto foi contemplado e iniciou-se assim, a pesquisa mais sistemática para a montagem.
Como citado na introdução deste trabalho, o espetáculo estreou em 2009; até o momento foram realizadas quatro temporadas, uma por ano até 2012. Tive a oportunidade de assistir ao espetáculo seis vezes, a saber: uma vez na segunda
temporada, duas vezes na terceira e três vezes na quarta. Para realizar esta análise assisti também a gravação em vídeo da primeira temporada do espetáculo, a ensaios para as apresentações da quarta temporada e tive acesso ao roteiro dramatúrgico do espetáculo40, que é chamado de texto final pelos dolores. Além da assistência aos espetáculos e ensaios e apreciação do material audiovisual e escrito, as entrevistas com os integrantes foram imprescindíveis para conhecer o processo de criação e compreender de forma mais aprofundada a estrutura e teor do espetáculo.
De forma sintética o método utilizado na montagem da Saga poderia ser assim descrito: estudos teóricos coletivos, preparação corporal, estruturação da linha filosófico-conceitual do trabalho, estruturação do pré-roteiro dramatúrgico, criação de cenas a partir de improvisação com os temas do roteiro, criação de músicas a partir dos temas do roteiro e das cenas criadas, definição da estrutura final do espetáculo e, por fim, ensaios.
Os integrantes do Dolores e do Nhocuné Soul passaram seis meses estudando conjuntamente, por meio de grupos de condução de processo. Cada mês um grupo distinto assumia a condução dos estudos, organizava o que seria estudado e como seriam as atividades. Esse processo de rodízio permitiu que mais pessoas se apropriassem dos estudos, mas também gerou desafios, pois alguns grupos tiveram dificuldades de conduzir o processo. Além disso, Luís Scapi41, educador do Núcleo de Educação Popular 13 de Maio, foi convidado para conduzir uma semana de estudos sobre o método materialista histórico e a formação do indivíduo. De acordo com as entrevistas que realizei as principais referências teóricas utilizadas no processo de estudos e citadas como base para a construção do espetáculo são o livro As metamorfoses da consciência de classe, de Mauro Luis Iasi (2006) e as dissertações em sociologia do integrante do Dolores Tiarajú Pablo D´Andrea42, acerca do processo de formação das favelas Real Parque e Jardim Panorama, na zona sul de São Paulo, e de Mariana Fix43, em especial no que tange à história do Jardim Edith, outra comunidade
40 Disponível no Anexo I.
41 Scapi é uma das principais referências teóricas do Dolores, periodicamente ele é convidado para ministrar cursos de formação política no CDM.
42 D'ANDREA, Pablo Tiarajú. Nas tramas da segregação. O real panorama da pólis. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em:<http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8132/tde-13102009-114940/>. Acesso em: 16.07.2012.
43 FIX, Mariana de Azevedo Barretto. São Paulo. Cidade Mundial: Fundamentos financeiros de uma miragem. Dissertação (Mestrado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.
de assentamento informal na zona sul de São Paulo. Tita Reis comenta que os relatos de desocupações trazidos por Mariana Fix foram referência direta para a criação da cena da favela. Também são citadas como referências a urbanista Ermínia Maricato e a psicanalista Maria Rita Kehl.
Luciano Carvalho aponta o livro de Iasi (2006) como a principal base para a estruturação do discurso do espetáculo, ressaltando inclusive que, por ter sido dos integrantes do grupo quem mais estudou o livro, acabou assumindo a direção do espetáculo, função esta inicialmente conduzida por um grupo de trabalho. Em seu relato, podemos perceber um pouco da riqueza do processo de estudos realizado:
[...] a gente primeiro colou papel Kraft em uma parede e desenhamos uma linha filosófico-conceitual do trabalho. Isso foi muito louco! Estabelecemos o que queríamos falar. Ao contrário do que muitos pregam, que não pode ser racional ou cabeção, a gente foi o contrário, fomos cabeções. O que estamos falando? O que queremos? Criamos um roteiro filosófico-conceitual por onde ia se desdobrar o nosso pensamento, indicava aonde nós queríamos chegar. Ou seja, diferente de ter uma fábula, como uma estrutura vertebral, nós tínhamos uma reflexão sobre determinado tema e os seus desdobramentos. A partir daí surgiu o pré-roteiro, como se preenchendo esses espaços com grandes temas, grandes blocos que dariam conta daquele assunto, por onde