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12 Appendix I - Hazard identification and characterisation

12.13 Listeria monocytogenes

O título dessa fala foi “emprestado” ao homenageado desse evento, pois nos pareceu bastante adequado ao trabalho artístico de António Jacinto, cuja poesia ousada e potente permanece ecoando em sua fres- cura e juventude em todos nós, mesmo após o desaparecimento físico do poeta.

O poema a que nos referimos, intitulado “Um canto moço, ousado e forte”, é dedicado a Agostinho Neto e ocupa uma posição central em um pequeno volume intitulado Prometeu, publicado pela União dos Es- critores Angolanos em 1987, o qual estará no centro de nossa reflexão, ainda que outros textos de António Jacinto sejam trazidos à cena.

Em assim sendo, iniciemos pelo título do livrinho publicado no fi- nal dos anos 1980, questionando-nos sobre o porquê do mesmo e em que medida a figura do titã grego define/refere-se ao conteúdo ou seria apenas uma sugestão em Prometeu. Em outras palavras, qual seria a razão de Jacinto buscar na Grécia antiga a nomeação de seu texto? A questão certamente não cria desconforto em quem sabe que as metáfo- ras, os heróis e os feitos humanos não têm passaporte e portanto não devem ser barrados nas fronteiras das poesias nacionais. No entanto, merece ser iluminada adequadamente.

Vamos a Prometeu.

Como é sabido, a figura do herói grego recebe, em suas origens, duas perspectivas. A de Hesíodo que, na Teogonia, diz-nos que o ho- mem teria nascido a partir das figuras construídas com barro e água pelo titã, apresenta-o com uma grande afeição pelos humanos, que o leva a tentar ludibriar os deuses (entre eles o supremo Zeus), para dar vantagens a suas criaturas. O castigo para os homens foi uma linda mulher: um “mal belo” como Hesíodo define Pandora, a causadora de todos os males entre nós. Para Prometeu a penalidade seria a de ser amarrado em uma coluna e ter uma águia que lhe devorava o fígado, continuamente renovado.

Já Ésquilo, que teria escrito uma trilogia da qual apenas o “Prome- teu acorrentado” (ou “agrilhoado”, em outra versão) sobreviveu, efetua algumas modificações em relação ao mito da Teogonia: a primeira dela é a filiação de Prometeu, cuja mãe deixa de ser a Terra para ser Té- mis, o que, segundo Ana Paula Quintela Sottomayor, faz com que se estabeleçam

laços de parentesco entre o Titã e a Justiça, entre o Filantropo e a Terra, ao mesmo tempo que assimila a Justiça à Terra, como que a significar que, nos tempos que imediatamente se seguiram à vitória dos “deuses novos”, a Justiça estava ao lado de Prometeu e dos Homens e não de Zeus. (SOTTOMAYOR, 2007, p. 137)

Ou seja, no embate entre os novos tempos que se estabeleciam, a Justiça iria pender definitivamente para Prometeu, destronando a velha autoridade de Zeus.

E, mais importante, segundo entendemos, Ésquilo inclui duas per- sonagens que estavam ausentes em Hesíodo. Ambos aparecem logo no início da peça, cumprindo as ordens daquele que, segundo o coro da tragédia, reina por iníquas leis, é inflexível e tem coração duro. As duas personagens agem rapidamente, sujeitando Prometeu ao ro- chedo: uma delas, a Violência, é muda, mas muito efetiva em agrilhoar o titã, usando da maior rapidez e força possíveis. Já o Poder, também

seguindo zelosamente as orientações divinas, lembra em suas falas a necessidade de submeter-se ao governante supremo.

Quer a leitura de Hesíodo, quer a de Ésquilo são bastante aliciantes, na medida em que falam de questões muito próximas de todos nós e, por isso, têm sido móvel de numerosas releituras.

Mas o que nos interessa aqui é pensar como se constitui o Prometeu de António Jacinto e assim, além de percorrer as trilhas da nomeação do volume a que nos referimos, apresentar alguns aspectos de sua poética. Segundo nos parece, o poeta angolano empreende uma leitura mui- to pessoal de Prometeu, atualizando o mito, mesclando as leituras de Hesíodo e de Ésquilo: os seus poemas, ao mostrarem uma profunda afeição ao humano, aproximam-se da leitura da Teogonia. Mas, em lugar de o poeta colocar-se como um criador, iguala-se aos homens compartilhando de suas certezas e dores. Por outro lado, a Justiça é um dos objetivos a serem alcançados, o que nos leva à utopia presente em sua poética e à vertente do texto esquiliano.

Há, no entanto, um aspecto que ganha relevo quando lemos o livro de António Jacinto. Referimo-nos à inovação que é efetuada em relação aos dois textos gregos, na medida em que a figura de Prometeu é foca- lizada com novas luzes, adquirindo um perfil singular, quando o Titã é identificado ao poeta e/ou à poesia. Nessa operação de ultrapassar um sistema simbólico – o mito – para instaurá-lo no fluxo da linguagem poética, Jacinto historiciza o herói grego, como se pode verificar no poema dedicado a Agostinho Neto ao qual já nos referimos:

E a poesia será em mim

O elo da corrente que unirá em abraço múltiplo Os Homens do meu país. (JACINTO, 1987, p. 26)

É interessante verificar como o poeta inverte os sinais, de maneira a transformar o instrumento de suplício, as correntes, em união e “abraço múltiplo”. Em outras palavras, a poesia para Jacinto une e liberta. Ela é, nesse sentido, superior a todos os tormentos.

No volume de 1987, estamos no domínio do poético, ou seja, no coração daquilo que nos toca, ensina e permite que sobrevivamos (quer se expresse em versos ou em prosa).

Ora, a entrevista de António Jacinto, que abre o pequeno livro, in- clui uma dimensão interessante a pensar e que se articula à historici- zação a que nos referimos brevemente: a da memória. É a partir dela que o poeta, ao falar de sua infância, traça convergências na mente do menino que mistura” kifumbes, fadas, feiticeiras, maquiches e lobos que sanfonavam em pleno dia” (JACINTO, 1987, p. 10), e que começa

a trilhar as veredas do literário no gosto pelo “mundo real e de faz de conta”, ultrapassando a limitação do Golungo, onde vivia, a partir das letras.

A memória reafirma o papel da poesia na vida de Jacinto, indicando como a literatura é capaz de lançar pontes entre o real e o imaginário na vida do menino do interior de Angola, mas ao leitor atento, indica tam- bém um papel para o literário: ampliar e transformar paisagens mentais e físicas. Essa é uma pista interessante para pensarmos a poética de An- tónio Jacinto: a possibilidade de a poesia transformar espaços. Quer se trate de um meio geográfico ou de uma acanhada paisagem mental, o alargamento de espaços é passível de ser realizado graças ao poético. Outra não é, lembremos, a operação que se realiza no belíssimo So- breviver em Tarrafal de Santiago, em que há um esforço contínuo de, lucidamente, ampliar horizontes para além dos muros da prisão e, dessa forma, construir a harmonia do artefato poético em meio à barbárie do cárcere político, buscando transcender a exigüidade (de espaço e de liberdade), quer no plano de apreensão do mundo, quer no plano da construção original do universo poético.

Dessa forma, a poesia ultrapassa as amarras e transforma penhascos em planícies.

Atenção, todavia, pois não se trata de dar às palavras o poder de modificar o mundo e deixar à margem o Ato. Pelo contrário, pois o Prometeu-Poeta-Poesia que Jacinto constrói é tributário, ao mesmo tempo, de uma luta constante no reino das palavras, da certeza que a

História lhe propicia, e de um combate político sem descanso. Assim desenham-se os desejos de Prometeu, como se lê no segundo poema do livro, intitulado “Prometeu (Canto interior de uma noite fantástica)”:

Não quero tudo quanto me prometem aliciantes Nada quero e para mim nada peço

O meu desejar é outro – o meu desejo é antes O desejo de muitos com que me pareço Quem quiser que venha comigo

Nesta jornada terrena, humana e sincera Mas se for só, ainda assim prossigo

No mar de tumulto, impelindo os remos sem galera. (JACINTO,

1987, p. 14)

A palavra poética, aqui apresentada como uma espécie de mani- festo, afirma-se como terrena e humana, fiel aos seus e gregária, na medida em que se refere a “muitos com quem me pareço”. E aqui novamente o Prometeu-poeta-poesia reaparece, humano e terreno, ab- dicando de tributos divinos e de criador. Nessa medida, o “Canto inte- rior de uma noite fantástica”, longe de se referir a um delírio subjetivo, estabelece-se na corrente de uma poesia utópica e solidária, o que de- fine um dos campos de força da produção artística de António Jacinto. Esse duplo papel da poesia é dirigido para um “senso de missão”, na medida em que lemos que, mesmo se os homens não ouçam o que o poeta tem a lhes dizer, ele prosseguirá. E a imagem para esse mo- vimento, é ousada e forte: remar em mar tumultuoso, mesmo que não existam os navios.

Voltemos, no entanto, ao tema da missão, que faz parte da figura do Prometeu-Poeta e que se espraia ao longo de vários poemas de António Jacinto, mas, segundo nos parece, é emblemático em “Carta de um contratado”, do qual lemos aqui as duas primeiras estrofes:

Eu queria escrever-te uma carta amor,

uma carta que dissesse deste anseio

de te ver deste receio de te perder

deste mais que bem querer que sinto deste mal indefinido que me persegue desta saudade a que vivo todo entregue. . . Eu queria escrever-te uma carta

amor,

uma carta de confidências íntimas, uma carta de lembranças de ti, de ti

dos teus lábios vermelhos como tacula dos teus cabelos negros como dilôa dos teus olhos doces como macongue dos teus seios duros como maboque do teu andar de onça

e dos teus carinhos

que maiores não encontrei por aí. . . (ANDRADE, 1977, pp. 191-

-192)

No poema, o corpo da amada é apresentado a partir da fauna e flora locais: a tacula, a dilôa, a onça, o maboque, compõem a cor dos lábios, dos cabelos, a forma de andar e o arredondado dos seios da moça, reve- lando não apenas da beleza da musa, mas, sobretudo, o território onde se passam os acontecimentos e do qual o eu poemático está distante, pois fora arrancado de sua terra. Assim, ao falar da amada, cujo corpo remete aos reinos vegetal (tacula, maboque), animal (a onça) e mine- ral (a dilôa) e portanto a um cosmos, desenha-se também a separação dos amantes, em razão do Contrato. A impossibilidade amorosa, um dos tópicos da literatura e que alimenta sobretudo os textos epistola- res, pode ser lida em António Jacinto como um drama imposto pelo contrato.

Há ainda um outro elemento que deve ser iluminado: a questão da escrita, já que o poema se refere a uma carta que faz parte do título e do refrão “eu queria escrever-te uma carta, / amor”. Ao longo de todo o poema o leitor é levado a pensar que lê a carta escrita por um contratado. A última estrofe, entretanto, frustra tal expectativa:

Mas, ah, meu amor, eu não sei compreender por que é, por que é, por que é, meu bem que tu não sabes ler

e eu – Oh! Desespero – não sei escrever também!

Nesse momento impõe-se uma leitura retrospectiva e então o que fora tomado como poema lírico, individuado, apresenta um caráter co- letivo que encena a tragédia do colonialismo: homens que são tratados como animais de carga, sem direito à terra, à família, ao saber escrito. Então, sabemos que a carta nunca foi escrita, MAS o leitor tem conhe- cimento da mesma. E isso é possível porque o poeta toma a si a missão de fazer audíveis as vozes dos que não podem falar e de fazer legíveis os textos que não puderem ser escritos.

O sentimento de missão da literatura é pois encenado de maneira primorosa nesse texto.

Voltemos, no entanto, ao livro Prometeu e mais especificamente à Entrevista a que fizemos referência, a fim de apresentarmos um último ponto à leitura a que nos propomos.

Na citada entrevista, quando perguntam a António Jacinto sobre as dificuldades iniciais em sua trajetória artística, os obstáculos do meio são ressaltados, ultrapassando os marcos da instituição literária:

Dificuldades? Quem não as tem? Sobretudo se escreve uma literatura não oficial, uma literatura incómoda (. . . ) Combater sempre, escrever sempre. Escrever é masturbação? Que seja, mas escrever. Não os problemas íntimos, pessoais. Escrever os nossos problemas, os do colectivo, que atingiam, sem se saber, o Povo. Escrever para os outros, escrever pelos outros. (JACINTO, 1987, p. 11)

O advérbio “sempre” (combater, escrever) reitera a missão da es- crita de que o poeta está imbuído, explicitando o papel de intervenção da literatura. Sob esse particular, deve-se lembrar que não são poucos os críticos literários que vêem exatamente em uma poética de ênfase social o enfraquecimento das musas. Ora, se os detratores são nume- rosos, talvez não se lembrem do alerta iluminado de Adorno, quando este, rompendo com a caracterização do sujeito lírico da Estética de Hegel, afirma em “Palestra sobre Lírica e sociedade” a qualidade dos textos líricos quando a referência ao social revela neles próprios algo de essencial algo do fundamento de sua qualidade:

Pois o teor [Gehalt] de um poema não é a mera expressão de emoções e experiências individuais. Pelo contrário, estas só se tornam artísticas quando, justamente em virtude da especifica- ção que adquirem ao ganhar forma estética, conquistam sua par- ticipação no universal. (ADORNO, 1983, p. 66)

É exatamente esse difícil mas necessário equilíbrio entre o exercí- cio lírico e a sociedade (experiência individual X participação no uni- versal) que António Jacinto, de maneira ousada, consegue. No poema que brevemente examinamos, os locus da carta amorosa, da musa, da paisagem, são transformados de dor individual em sentimento coletivo. Outro não é o movimento do poema.

Vale ainda fazer referência, no livro que vimos lendo, ao pequeno conto do volume que trata de uma personagem sem nome, mas que remete ao titã grego, que nomeia a narrativa. A suspensão do tempo cronológico é dada nos primeiros parágrafos, e o espaço descrito é in- tuído, pois não é diretamente nomeado:

Nem o Sol nem o Luar.

Noite em todas as horas. E havia horas? Nem horas nem Tempo. O tempo morrera para lá de todas as recordações. Um momento parado. Parado e longo. Só uma percepção: nem Sol nem Lua Quatro paredes que se sabem mas não se vêem. Um chão frio que se não sente e um tecto alto que se sabe existir pela pressão que exerce torturantemente. (JACINTO, 1987, p. 19)

Dada a nomeação do conto e a situação torturante, não se pode deixar de remeter imediatamente a Prometeu e ao castigo continuado, noite e dia.

A águia, contudo, assume outra forma: “Nem grades nem janelas. Uma porta pesada, muito pesada e inútil. Por ela entra o Diabo, por ela penetra a tortura física que já não dói.”

Sob essa perspectiva, verifica-se que António Jacinto transporta o mito grego de Prometeu para o cárcere, transformando o titã em um ho- mem cuja falta maior é um grito: “Um grito apenas, nascido do fundo da cabeça? Ou do estômago? Um grito nascido apenas dele próprio: tenho fome!” (JACINTO, 1987, p. 20).

Temos aí a hybris desse Prometeu: denunciar a carência em todos os momentos, em todos os lugares. Gritar a todos para alertar que a privação de pão, liberdade e dignidade não é “natural” na sociedade. Ou seja, o Prometeu-poeta alerta contra a banalização do mal, tal como António Jacinto o concebe.

Nesse sentido, a poesia assume-se como um sinal em meio às tre- vas, um ato de humanidade em meio à barbárie, negando o entorpe- cimento dos discursos cotidianos e também daqueles totalitários que banalizam o mal.

Sendo o conto “Prometeu” o único do volume que não tem data de elaboração (os demais situam-se entre 1950 e 1961), a intemporalidade inscrita no corpo do texto transborda para o contexto, permitindo ao leitor pensar a tortura, a carência e a resistência em perspectiva que parte da resistência colonial até os dias de hoje.

Nessa medida, assim como outros textos de António Jacinto, este conto tem a intemporalidade de que se faz toda a obra de arte ao atingir múltiplos leitores em tempos diversos.

Com uma poética que se alicerça em uma profunda crença no hu- mano, o livro Prometeu explicita uma tendência dos textos de António Jacinto: surpreender o lírico e o político, que se solidarizam na elabo- ração de uma produção liberta e libertadora. Nesse sentido, pode-se dizer que o seu canto continua ousado e forte.

ADORNO, Theodor W., “Lírica e sociedade”, in BENJAMIN, Wal-

ter et alii., Textos escolhidos, São Paulo, Abril Cultural, 1983. ANDRADE, Mário, Antologia temática de poesia africana, 2a

ed., Lisboa, Sá da Costa, 1977.

JACINTO, António, Prometeu, Luanda, União dos Escritores Ango-

lanos, 1987.

SOTTOMAYOR, Ana Paula Quintela, “O fogo de Prometeu”, in Hu-

manitas, Coimbra, Universidade de Coimbra, número LIII, 2007, pp. 133-140.