12 Appendix I - Hazard identification and characterisation
12.14 Escherichia coli
A experiência que a seguir vou apresentar, que tem subjacente uma opção metodológica com repercussões ideológicas, visa interrogar co- mo pode o espaço da aula desvelar as potencialidades subversivas desse “bilinguismo colonial” – que para Albert Memmi é a situação prevale- cente entre os escritores africanos colonizados e que escrevem a sua experiência em língua europeia, do colonizador: hoje, quase 50 anos depois das reflexões de Memmi, pode entender-se que “dilaceração es- sencial do colonizado” (MEMMI, 1977, p. 96) a que o sociólogo tuni-
que lhe subjaz, na senda da perspectiva por que, anos depois, Chi- nua Achebe formula a questão linguística num trecho que citarei sem parcimónia:
I do not see any signs of sterility anywhere here. What I do see is a new voice coming out of Africa, speaking of African expe- rience in a worldwide language. So my answer to the question Can an African ever learn English well enough to be able to use it effectivelyin creative writing? is certainly yes. If on the other hand you ask. Can he ever learn to use it like a native speaker? I should say, I hope not. It is neither necessary nor desirable for him to be able to do so. The price a world language must be pre- pared to pay is submission to many different kinds of use. The African writer should aim to use English in a way that brings out his message best without altering the language to the extent that its value as a medium of international exchange will be lost. He should aim at fashioning an English which is at once universal and able to carry his peculiar experience. I have in mind here the writer who has something new, something different to say. The nondescript writer has little to tell us, anyway, so he might as well tell it in conventional language and get it over with. If I may use an extravagant simile, he is like a man offering a small, nondescript routine sacrifice for which a chick, or less, will do. A serious writer must look for an animal whose blood can match the power of his offering. (ACHEBE, 1975, p. 61)
Sabemos que Ngugi wa Thiong’o discorda liminarmente desta vi- são da problemática linguística das literaturas africanas, como refere logo no primeiro capítulo “The Language of African Literature” do seu incontornável livro Decolonising the Mind (1981):
The language of African literature cannot be discussed meaning- fully outside the context of those social forces which have made it both an issue demanding our attention, and a problem calling for a resolution.
On the one hand is, let us call a spade a spade, imperialism in its colonial and neo-colonial phases continuously pressganging the African hand to the plough to turn the soil over, and putting blinkers on him to make him view the path ahead only as de- termined for him by the master armed with bible and sword. In other words, Imperialism continues to control the economy, po- litics and cultures of Africa.
(. . . )
Why, we may ask, should an African writer, or any writer, be- come so obsessed by taking from his mother-tongue to enrich other tongues? Why should he see it as his particular mission? We never asked ourselves: how can we enrich our languages? (THIONGH’O, 1987, pp. 4-8)
Vê-se, portanto, que não existe apenas uma fórmula para fazer fren- te a esse “dilema” de dilaceramento, sendo as mais “conhecidas” e “ce- lebradas” a subversão e a inventividade linguísticas. Os poetas-polí- ticos angolanos, moçambicanos e são-tomenses dos anos 40-50-60 do século XX enveredaram por outros trilhos subversivos.
Neste contexto, o desafio está em fazer com que a aula dessas lite- raturas – particularizadas, no caso da angolana, num poema de António Jacinto – possa funcionar, também, simultaneamente como tempo in- tercultural, isto é, de aprendizagem do Outro, e de dissolução de uma monolítica estrangeiridade, sem que o objecto de estudo (o poema) se transforme em objecto estritamente político. Convém dizer o que quero aqui significar com a expressão literatura estrangeira – ou “literaturas dos outros”, para utilizar uma proposta terminológica de Tzvetan To- dorov (1995): empresto esta expressão, e a sua substância, a Martine Burgos, para quem literatura estrangeira “refere-se necessariamente à grande História, aquela que nos conta o nascimento e afirmação das na- ções e a evidência e o lugar dos Estados modernos” (BURGOS, 1995,
p. 172).
O caso que vou apresentar, para funcionar como estudo de caso, aconteceu na disciplina de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, que agora funciona como disciplina propedêutica em relação a outras
como Literatura Angolana, Literatura Moçambicana, Literaturas Insu- lares, Literatura Colonial, para além de outras disciplinas em que o professor é menos generalista, em que se faz um corte temático para aprofundar o tema de forma transversal em todas as literaturas, como em Temas de Literaturas Africanas/Tópicos de Literaturas Africanas (disciplinas em co-listagem) e Literaturas Pós-coloniais Comparadas, cujo escopo metodológico e substancial é portanto completamente di- ferente. O estudo da poesia de poetas demiurgos dos sistemas literários (angolano, no caso) – como Viriato da Cruz, Agostinho Neto, António Jacinto, Mário António ou Aires de Almeida Santos –, foi introduzido após se ter estudado a poesia de José da Silva Maia Ferreira, Cordeiro da Matta e Tomás Vieira da Cruz (como antes a poesia de Francisco José Tenreiro, Alda Espírito Santo e Manuela Margarido se tinha se- guido ao da poesia de Caetano da Costa Alegre).
Tinha perante mim uma turma em que metade de alunos era de origem europeia. O objectivo visava, neste contexto, a compreensão, pelos estudantes, das particularidades e singularidades dos diferentes constructos sociais, sem descurar a dimensão fundadora de qualquer texto, a sua construção estética. O primeiro desafio que se entrevê numa tal proposta – transformar a aula de literatura em tempo intercul- tural – é, em se tratando de literaturas em português, o da comunicação entre essas literaturas, o (re)conhecimento das relações interculturais, sem neutralizar as especificidades da cada uma. E isso mesmo pen- sando que “o homem, na verdade, quer viver a história tornando-a sua história. Pretende dramatizar essa história, para fazer dela seu destino” (ABDALAJÚNIOR, 2003, p. 14)5.
O poema seleccionado foi “Carta de um contratado”, de António Jacinto, transcrito no final deste texto.