7. IMPLEMENTATION
7.4. Specific cases
7.4.2. List of specific cases
Os desafios de se produzir teoria passam pela necessidade de garantir rigor, fundamentação e, ao mesmo tempo, inovação. Passam pela necessidade de mostrar coerência, alguma filiação e, ao mesmo tempo, independência e autonomia de pensamento. Passam pela necessidade de atender às exigências da comunidade acadêmica e, ao mesmo tempo, atender às demandas da realidade. Em princípio, tais requisitos não são incompatíveis. De fato, entretanto, muito da produção teórica em ciência carece de algum ou alguns deles. (REY, 2009, p. 7)
Como acabamos de ver com Rey, o desafio do pesquisador exige rigor, fundamentação e inovação. Além de atender as exigências da academia, a pesquisa também precisa atender as necessidades da realidade social; são vários critérios que precisam ser combinados.
A análise dos dados das entrevistas e a organização dos núcleos de significação deverão estar intimamente relacionados com a intencionalidade da pesquisa. Assim, retomamos o objetivo da pesquisa que consiste em analisar os processos educativos desenvolvidos no Programa Educriança, na interação entre a cultura da criança, da família e da escola, uma política pública de ação afirmativa de educação infantil, a partir da vivência de mulheres/mães.
Entre as principais questões pertinentes ao objetivo geral da pesquisa, temos:
Quais os fundamentos sócio-históricos que ancoram os processos educativos desenvolvidos no Programa Educriança, uma política pública de ação afirmativa de educação infantil, no atual momento histórico da educação infantil brasileira?
Por que o programa Educriança elege a relação família-criança-escola como sujeito central do processo educativo na primeira infância?
O que essa política pública de educação infantil oportunizou às crianças e às mulheres/mães das crianças que participaram do Programa Educriança?
Quais as implicações dessa política pública no processo de desenvolvimento integral das crianças, na construção da cidadania e no processo de humanização das interações e vivências entre a cultura da criança, da família e
da escola, bem como as contribuições para o enfrentamento das desigualdades?
Assim, é importante registrar que, do ponto de vista metodológico, para alcançar os objetivos propostos pela pesquisa será necessário apreender o conjunto de significados e sentidos dos processos educativos desenvolvidos no Programa Educriança a partir da vivência de mulheres/mães das crianças que também participaram do programa.
Dessa forma, primeiramente faremos um breve resgate de aspectos teórico- metodológicos desenvolvidos a partir de Vigotski (apud AGUIAR e OZELLA, 2006), tais como a importância de um método materialista histórico dialético, as categorias linguagem e pensamento e as noções de significado e sentido, necessidades e motivos.
Em seguida, apresentaremos algumas etapas de procedimentos de organização e análise do material levantado, por meio de entrevistas, visando a chegar aos núcleos de significação no caminho da apreensão dos sentidos e da subjetividade dos informantes. Destacamos três etapas: pré-indicadores, indicadores e núcleos de significação.
Desde 1927, quando escreve O significado histórico da crise da psicologia – uma investigação metodológica, Vigotski destaca a importância de um método que contemplasse a complexidade do que se entendia como objeto da Psicologia, ou seja, o Homem e suas funções psicológicas.
Como decorrência do método baseado na perspectiva materialista, histórica e dialética, segundo Aguiar e Ozella (2006, p. 224), vem a “(...) crítica radical das visões reducionistas, objetivistas e subjetivistas, a discussão sobre a relação aparência e essência, parte e todo, a importância da noção de historicidade, de processo, e a noção de mediação”.
O método está articulado a uma visão de homem, constituído numa concepção dialética com o social e a história, sendo ao mesmo tempo único, singular e histórico. Constituído na e pela atividade, ao produzir sua forma humana de existência, apresenta-se em todas as suas dimensões, na historicidade, na ideologia, nas relações sociais, no modo de produção. Ao mesmo tempo, esse mesmo homem apresenta a sua singularidade, o novo que é capaz de produzir, os significados sociais e os sentidos subjetivos. Indivíduo e sociedade vivem uma relação na qual um constitui o outro.
Vigotski (apud AGUIAR e OZELLA, 2006, p. 224-225) afirma que o processo de internalização deveria ser chamado de “Processo de Revolução, pressupondo uma radical
A mediação é uma categoria que nos permite romper várias dicotomias como interno- externo, objetivo-subjetivo, significado-sentido, assim como as visões naturalizantes, baseadas numa concepção de homem fundada na existência de uma essência metafísica. Na medida em que nos permite uma análise das determinações inseridas num processo dialético, portanto, não causal, linear e imediato, mas no qual as determinações são entendidas como elementos constitutivos do sujeito, como mediações.
A apreensão do homem dar-se-á pela compreensão da gênese social do individual, “(...) pela compreensão de como a singularidade se constrói na universalidade e, ao mesmo tempo e do mesmo modo, a universalidade se concretiza na singularidade, tendo a particularidade como mediação”. (OLIVEIRA, apud AGUIAR e OZELLA, 2006, p. 225)
Entendemos, desse modo, que o homem, ser social e singular, síntese de múltiplas determinações, nas relações com o social, constitui sua singularidade através de mediações sociais (particularidades/circunstâncias específicas). Nossa tarefa é apreender as mediações sociais constitutivas do sujeito, saindo da aparência, da superfície e indo em busca do processo, do não dito, do sentido.
Colocadas essas questões metodológicas, destacamos, como uma questão importante para a organização das falas das entrevistadas, a discussão dos sentidos e significados, a relação pensamento-fala.
Sobre a constituição dialética do homem, podemos afirmar que o plano individual não constitui mera transposição do social. O indivíduo modifica o social, transforma o social em psicológico e, assim, cria a possibilidade do novo. Isso posto, podemos afirmar que a linguagem, a fala, seria o instrumento fundamental nesse processo de constituição do homem.
A fala, os signos, são instrumentos psicológicos constitutivos do pensamento não só para a comunicação, mas também como meio de atividade interna. A palavra, signo por excelência, representa o objeto na consciência. Os signos representam uma forma privilegiada de apreensão do ser, pensar e agir do sujeito.
Como afirma Vigotski (apud AGUIAR e OZELLA, 2006, p. 226):
O pensamento não se exprime na palavra, mas nela se realiza, podendo muitas vezes o pensamento fracassar, não se realizando como palavra. Dessa forma, para que se possa compreender o pensamento, entendido aqui como sempre emocionado, temos que analisar o seu processo, que se expressa na palavra com significado e, ao apreender o significado da palavra, entendemos o movimento do pensamento. A transição do pensamento para a palavra
O sentido coloca-se em um plano que se aproxima mais da subjetividade que com mais precisão expressa o sujeito, a unidade de todos os processos cognitivos, afetivos e biológicos. Aproximarmo-nos de algumas zonas de sentido, pois todas as expressões humanas são cognitivas e afetivas.
A separação entre pensamento e afeto não poderá ocorrer, sob risco de impossibilitar a explicação das causas do próprio pensamento, pois a análise do pensamento passa pela revelação dos motivos, necessidades e interesses que orientam seu movimento.
As necessidades são entendidas como um estado de carência do indivíduo que leva a sua ativação com vistas a sua satisfação, dependendo de suas condições de existência. As necessidades se constituem e se revelam a partir de um processo de configuração das relações sociais, processo esse que é único, singular, subjetivo e histórico ao mesmo tempo.
Segundo Aguiar e Ozella (2006, p. 228) esse processo, de ação do sujeito no mundo a partir das suas necessidades:
(...) só vai completar-se quando o sujeito ressignificar algo do mundo social como possível de satisfazer suas necessidades. Aí sim esse objeto/fato/pessoas vai ser vivido como algo que impulsiona/direciona, que motiva o sujeito para a ação no sentido da satisfação das suas necessidades e modifica o sujeito, criando novas necessidades e novas formas de atividade.
A necessidade completa sua função quando “descobre” o que a satisfaz, na realidade social. Esse movimento se define como a configuração das necessidades em motivos.
Ao se apreender o processo por meio do qual os motivos se configuram, Aguiar e Ozella (2006) dizem que assim, avança-se na apropriação do processo de constituição dos sentidos, definidos como a síntese do racional e do emocional, ou seja, estaremos perto do processo gerador da atividade, ao mesmo tempo gerado por ela. O que nos permitirá apreender o que é a atividade para o sujeito, assim como de algumas zonas de sentidos da atividade, permeadas pelos significados e revelando uma forma singular de vivê-las e articulá-las.
Posteriormente, passaremos a esclarecer algumas etapas do processo de organização e análise do material levantado após a leitura flutuante.
Também Aguiar e Ozella (2006) nos ajudam no processo de organização e análise das entrevistas. Como o objetivo é conhecer a singularidade e o movimento do pensamento do sujeito, temos que começar com o levantamento das palavras destacadas no contexto que lhes atribui significado, desde a narrativa do sujeito até as condições histórico-sociais que o
sua repetição, carga emocional presente, ambivalências ou contradições. Um critério importante para priorizar os pré-indicadores é cotejar a sua importância em relação a compreensão do objetivo da investigação.
Uma segunda leitura flutuante nos ajudará no processo de agrupamento dos pré- indicadores, seja pela similaridade, pela complementaridade ou pela contraposição, de tal forma que abarque a diversidade. Já no caso dos indicadores, que nos permitem caminhar na direção de possíveis núcleos de significação, ainda Aguiar e Ozella (2006, p. 230) nos alertam que: “os núcleos de significação definidos devem expressar os pontos centrais e fundamentais que trazem implicações para o sujeito, que o envolvam emocionalmente, que revelem as suas determinações constitutivas”.
A sugestão para a nomeação dos núcleos é buscar na própria fala do informante uma ou mais expressões, numa frase curta que explicite o processo e o movimento do sujeito dentro dos objetivos do estudo.
A análise se inicia por um processo intra-núcleo, avançando para uma articulação inter- núcleos. O processo de análise não deve ser restrito à fala, ela deve ser articulada com o contexto social, político e econômico, histórico, que permite acesso à compreensão do sujeito na totalidade.
Como nos lembra Vigotski (apud AGUIAR e OZELLA, 2006), um corpo só se revela no movimento. Nesse momento, temos a realização de um momento de análise mais complexo e sintetizador, quando os núcleos são analisados no seu movimento, a partir do contexto do da narrativa em questão, considerando o contexto sócio-histórico e o aporte teórico.
O procedimento proposto pelos autores citados implica avançarmos do empírico ao interpretativo, isto, é, da fala para o seu sentido, entendendo que vamos em busca de uma fala interior, ou seja, a partir da fala exterior caminhamos para um plano mais interiorizado, para o próprio pensamento.
Ainda, Aguiar e Ozella (2006) apontam a importância de identificarmos as necessidades colocadas pelos sujeitos e identificadas a partir dos indicadores, pois entendem que tais necessidades são determinantes/constitutivas dos modos de agir/sentir/pensar dos sujeitos. São elas que, na sua dinâmica emocional, mobilizam os processos de construção dos sentidos e, é claro, as atividades do sujeito.
Na discussão sobre subjetividade como experiência humana, Gonzalez Rey (2009, p. 211) define a subjetividade como o “(...) processo e as formas de organização que caracterizam os processos de significação e sentido do sujeito e dos diferentes cenários sociais em que este se desenvolve”.
7.2 Entrevistas
As entrevistas têm sido utilizadas em pesquisas qualitativas para o estudo de significados subjetivos e temas complexos demais para serem investigados por instrumentos padronizados, como os questionários.
Os estudiosos sobre o uso das entrevistas nas pesquisas, como Lakatos (apud Szymanski, 2010), apontam como conteúdos a serem investigados fatos, opiniões sobre fatos, sentimentos, planos de ação, condutas atuais ou do passado, motivos conscientes para opiniões e sentimentos. Segundo Szymanski (2010), é preciso considerar o caráter de interação social da entrevista submetida às condições comuns de toda interação face a face, na qual a natureza das relações entre entrevistador e entrevistado influencia tanto o seu curso como o tipo de informação que aparece. No conversar, temos um contínuo ajuste de ações e emoções.