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Ciampa define identidade como processo de metamorfose, como movimento das transformações que vão configurando nossas identidades, seja como história de vida – um passado que se fez pela minha atividade –, seja como projeto de vida – um futuro a ser buscado a partir de meu desejo –, ou seja, desenvolver a competência de falar e agir com autonomia para afirmar quem sou e quem gostaria de ser.

Voltemos, então, à resposta que o Junior deu à Revista Trip:

Às vezes, até penso se não seria bom fracassar, entendeu? Porque eu também sofro muito, é muito trabalho, muito problema. A derrota seria péssimo, claro, isso que eu faço, eu não faria mais. Aí, talvez fosse virar monge hinduísta, pastor, sei lá...

A possibilidade de viver-uma-vida-que-merece-ser-vivida, só se torna possível a partir do momento em que o indivíduo pode afirmar o 'eu' de si mesmo e que pode ser reconhecido alguém que não se reduz a um personagem ou subordina todos os outros personagens à lógica de apenas um. Uma identidade do eu pós-convencioal é a expressão de uma pluralidade de personagens, que por sua vez precisa ser incorporada na sociedade, com as metamorfeses que ocorrem com o indivíduo.

Neste sentido, entedemos que a questão da emancipação, a favor da vida- que-merece-ser-vivida é uma expressao da autonomia, dos projetos de vida (futuro) e da criação. Aqui nos referirmos à emancipação como a decisão do indivíduo sobre seus próprio bem-estar de uma forma autônoma e livre da intromissão de interesses externos.

Ser autor da própria história e agir de forma autônoma é o propósito das identidades pós-convencionais. Essa identidade pós-convencional somente torna- se possível quando o indivíduo passa a atribuir às suas vivências um sentido de

auto-determinação e, principalmente, possa ser autor da própria história. Ao analisarmos a história de vida de José Junior, percebemos claramente não só a sua vontade, mas a sua capacidade de ser autor da sua própria história quando ainda encarnava o personagem revoltado-utópico e na construção de múltiplos personagens que demonstram a riqueza da sua identidade.

Entretanto, como acabamos de analisar, o personagem executivo- workaholic tornou-se um fetiche. Personagens como o artista-disfarçado, o monge-cósmico e o alquimista das polaridades permitiram uma ampliação de sua identidade como personagem-autor e um acesso ao outro Junior, que não o fracassado-briguento. Por sua vez, a subordinação destes mesmos personagens ao executivo-workaholic acaba por se traduzir em uma opressão, bem como uma redução da identidade.

Durante a entrevista, José Junior preferiu não falar muito sobre projeto de vida futuro, alegando que seu futuro é o AfroReggae e justificando que a sua intuição saberá conduzi-lo ao futuro.

Todavia, quase no final da entrevista, Junior falou sobre o Pastor Marcos Pereira da Silva13, da igreja evangélica Assembléia de Deus dos Últimos Dias e

sobre a previsão feita pelo pastor. Ele disse a José Junior que um dia Junior também seria pastor.

Junior, que se aproximou do Pastor Marcos há cerca de quatro anos, atualmente freqüenta a Assembléia de Deus dos Últimos Dias, do próprio pastor. Em 2008, Junior negociou a entrada do pastor no Complexo de Bangu com o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) e o vice-governador Luiz Fernando Pezão. No final de 2008, Junior entrevistou e mostrou o trabalho do Pastor Marcos no seu Programa Conexõees Urbanas.

13

O Pastor Marcos Pereira da Silva ganhou fama por ajudar a tirar homens do tráfico e a salvar pessoas prestes a serem executadas ou punidas por traficantes. Há quatro anos, o pastor estava proibido de entrar em presídios no Rio de Janeiro por suspeita de ligação com o Comando Vermelho, facção criminosa que domina importantes favelas na cidade.

A partir da resposta que o Junior deu a Trip, inferimos que o personagem “líder religioso” está no radar do Junior ainda como um devaneio, uma possibilidade distante, ou ainda, uma solução escapista ou como uma possível evolução do personagem monge-cósmico.

É imperativo ressaltar que o personagem guerreiro-justiceiro já corporifica a ajuda que Junior dá para várias pessoas em momentos de sofrimento, oferecendo a elas uma perspectiva mais ampla do que lhes está acontecendo. Ao passo que o monge-cósmico, apesar de ser um personagem cada vez mais esporádico e extremamente abafado pelo executivo-workaholic, continua vivo e sendo evocado, mostrando a genuína ligação que Junior possui com a questão religiosa-espiritual.

Também quero mencionar, aqui, um antigo projeto do Junior que foi engavetado por falta de tempo: a elaboração de um livro de ficção. Junior iniciou o livro há alguns anos, porém, em função de suas atividades no AfroReggae, não conseguiu levar adiante a redação, que está parada mas não foi esquecida. A trama do livro, bem como seus personagens, já foram desenvolvidos por Junior, ou melhor, pelo artista-disfarçado que busca brechas no executivo-workaholic.

Curiosamente, o seu processo de emancipação se deu em razão do seu sentimento de fracasso. A possibilidade da continuidade deste processo de emancipação pode ocorrer em função da opressão do sucesso, cuja manutenção exige uma cota de sacrifício muito alta, como vimos no próprio depoimento do Junior.

Cabe ao José Junior, com a sua capacidade de agir de forma autônoma - utilizar a reflexão para decidir de que modo ele irá resgatar a sua autonomia para poder realizar uma nova emancipação.