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Wind field characteristics

26 CHAPTER 4. WIND FIELD CHARACTERISTICS

Conforme já foi possível constatarmos, o processo emancipatório do revoltado-fracassado resultou no desdobramento de vários personagens. Entretando, como veremos agora, um dos personagens que foi gerado e que, ao longo da vida do Junior, tem se mostrado uma dos mais atuantes é o personagem do guerreiro-empreendedor. Vamos a ele.

Junior transformou a sua predisposição natural para a briga, a sua revolta e a sua agressividade canalizando-as para a ação empreendedora, fazendo surgir o personagem guerreiro-empreendedor. Este também pode ser relacionado a um outro orixá, Ogum. Como já havíamos mencionado, Junior possui seis tatuagens ligadas à espiritualidade e, uma das mais proeminentes, que está do lado esquerdo de seu braço, é a tatuagem de Ogum.

No Candomblé e na Umbanda, Ogum é o desbravador de todos os caminhos e senhor do ferro e do aço. O arquétipo de Ogum é o do guerreiro e da ação, das pessoas que perseguem energicamente seus objetivos e não se desencorajam facilmente. Daquelas que nos momentos difíceis triunfam onde qualquer outro teria abandonado o combate e perdido toda a esperança. O arquétipo das pessoas impetuosas e arrogantes, daquelas que se arriscam a melindrar os outros por uma certa falta de discrição, mas que, devido à sinceridade e franqueza de suas intenções, tornam-se difíceis de serem odiadas.

Foi como produtor de festas e eventos culturais, antes mesmo do surgimento do AfroReggae, que Junior começou a dar vida ao guerreiro- empreendedor, que é traduzido por Junior como Ogum. .

Durante alguns anos, Junior ganhava dinheiro produzindo festa funk. Entretanto, em 1892, depois do arrastão na praia, o funk foi proibido no Rio de Janeiro. Foi nessa época que ele conheceu Plácido, que tornou-se seu amigo e, mais tarde, seria um dos co-fundadores do AfroReggae. Foi com o amigo que

aprendeu muita coisa sobre a cultura afro-brasileira e começou a ter uma maior consciência polítca.

Através da amizade com Plácido, Junior conheceu o reggae, ritmo que antes considerava “coisa de maconheiro”. Nessa ocasião, como já havia vendido um grande número de ingressos para uma festa funk, acabou trocando o estilo musical da festa pelo reggae. A primeira festa de reggae que eles fizeram foi um fracasso, já que as pessoas da comunidade queriam funk. Entretanto, ele não desistiu e continuou a fazer festa de reggae. Junior nos conta:

Eu comecei a promover festa de funk, já promovia umas festas, coisa pequena, 100 pessoas. E em 92 o funk ficou proibido por causa do arrastão da praia do Arpoador. Já tinha vendido os ingressos para minha festa e conheci o Plácido que curtia reggae, eu não curtia reggae. Para mim, reggae era coisa de maconheiro, mas ele me disse para trocar a festa por reggae e tal. Aí, comecei a tocar reggae, a festa lotada, umas 300 pessoas, e todo mundo ficou meio puto porque queria ouvir a batida do sintetizador, não aquela batida do reggae. Então, só de raiva, resolvi fazer uma outra festa de reggae, dessa vez oficial. Foi a maior festa de reggae do Rio. Colocamos no lugar, no centro, pessoas de Belford Roxo, que é na baixada Fluminense, da Barra, de Copacabana, Ipanema, Leblon. Não sei como, mas as pessoas foram nessa festa.

Como o lugar era muito violento, Plácido e Junior colocaram na festa o nome de um mantra – Loka Govinda – que quer dizer “O Mundo de Krishna”. Foi nessa época que descobriu Shiva e várias divindades hindus que o acompanham. Mais tarde, o regaee seria o embrião do Grupo AfroReggae, sobre o qual falaremos em seguida.

Além de festas, José Júnior também levou peças de teatro para a favela. Apesar da experência que havia adqurido em produzir grandes shows na favela, Junior e seus amigos nunca tinham feito um espetáculo de teatro, mas decidiram

fazer a apresentação em Vigário Geral. A produção de festas foi ampliando o escopo para uma produção cultural.

Foi o amigo Plácido que apresentou para o José Junior a questão política de Bob Marley e Peter Tosch, além do grupo musical Olodum, um fator fundamental na auto-estima negra na década de 80 e 90. A partir desta troca intelectual foi que os dois resolveram criar um jornal chamado AfroReggae Notícias que circulava em favelas.

Percebendo a falta de um veículo de comunicação que falasse da cultura negra, eles começaram a produzir o AfroReggae Notícias, um jornal temático sobre reggae e o movimento afro. Inicialmente, eles distribuíram o jornal na favela de Acari, depois, no morro do Cantagalo. Ele lembra:

Fazíamos festas para descolar recursos para o jornal. Nós éramos um grupo de inexperientes e fracassados, um pequeno grupo de pessoas que viviam em situação de risco e violência mas com uma diferença: tínhamos utopia. Isso foi há quinze anos e criamos um tipo de interação para que nossas vidas pudessem mudar e, gradativamente, conseguirmos alcançar novos espaços. E foi exatamente nesta época que ocorreu a chacina em Vigário Geral: nós entramos em Vigário, com o jornal, um mês após a chacina. Vigário era a favela mais temida do Brasil, tinha um poder paramilitar muito grande, os traficantes eram mitos. Era uma favela blindada, conhecida como a Bósnia brasileira (Junior, 2003).

O guerreiro-empreendedor gosta das causas difíceis e duras. Ele próprio conta que não teria dado certo se tivesse começado esse trabalho em outra favela. Sentia-se motivado por essa favela, pequena, extremamente violenta, que “quase chegou ao canibalismo, pessoas esquartejadas, era muito punk.”

4. 6. O herói justiceiro

Inicialmente, Junior e Plácido não tinha como objetivo realizar um trabalho de cunho social através do Jornal AfroReggae Notícias, Entretanto, com as chacinas ocorridas na Candelária e em Vigário Geral, no mês seguinte, houve uma mudanca de planos, como como o próprio Junior nos conta:

Não tínhamos o objetivo de fazer um trabalho social. Inicialmente, nossa proposta era divulgar a cultura negra e suas várias manifestações.

Logo após a Chacina que ocorreu em 29 de agosto de 1993, o AfroReggae Notícias comecou a ser distribuído gratuitamente em Vigário Geral e em outras favelas do Rio. O projeto foi ganhando simpatia, tornando-se um canal aberto de debate de idéias e de problemas que afetavam a vida dos moradores das favelas, que começaram a pedir mais que informação, elas também queriam formação e qualificação. Foi a partir daí, que surgiu a idéia de unir a produção cultural com ação social nas favelas. É neste processo, que aflora um novo personagem, o herói-justiceiro, que teve sua origem na utopia que existia no revoltado- fracassado.

A partir desse momento, ou seja, da Chacina do Vigário Geral, Junior, que já tinha criado o Grupo Cultural, reforçou os aspectos sociais da ação do projeto. Iniciou um programa para adolescentes e a Instituição passou a ter uma atuação mais educacional, oferecendo aulas sobre ritmos e danças afro. Ele relata:

Aí teve a Chacina da Candelária, O José Henrique, Zé da UERJ, nos procurou propondo uma caminhada até a Candelária. Perguntamos: 'por que? A gente não é nada.' Todo mundo ridicularizava esse Zé mas fomos lá e fizemos a caminhada. Duas horas de caminhada e o Zé começou a ir a eventos até que conheceu o Zuenir (Ventura) o Zuenir tem um papel histórico em Vigário Geral. Fizemos um veneto

em outubro de 1993 chamado Vigário in Concert. Esse evento virou histórico porque o Zuenir foi. Ele era editor especial do JB e estava querendo fazer um livro. Eu nunca tinha ouvido falar em Zuenir. Se você me perguntar se eu esperava que isso fosse acontecer eu diria: o Afro Reggae entra onde ninguém quer entrar e tem um poder de sensibilização muito grande. O Afro Reggae sempre teve uma militância invisível muito grande (Junior, 2003).

O herói-justiceiro é o personagem que José Junior utiliza para questionar a ideologia dominante e para transformar as condições sociais em que está inserido. Ou seja, enquanto transforma-se a si mesmo, transforma as relações sociais. Enquanto humanização, José Junior insere-se e define-se no conjunto de suas relações sociais, desempenhando atividades transformadoras destas relações. Ele conta:

Éramos umas vinte pessoas numa ideologia coletiva. A coisa começa a dar certo quando passamos a dizer para os garotos que o bem principal que eles tinham era a liberdade, o direito de ir e vir — coisa que o traficante não tinha. Era difícil. A gente ensaiava na rua, instrumentos emprestados, todo mundo voluntário, eu não sabia tocar, quer dizer, eu comecei a ensinar para os caras coisas que eu não sabia. Aprendemos ensinando. E sempre tinha tiroteio, polícia e bandido. Chegou uma hora em que os bandidos não trocavam mais tiros porque estávamos no meio do tiroteio ensaiando — mas a polícia continuava atirando. Até que chegou uma hora que nem a polícia atirava porque via a gente lá. Então, a primeira vez que essa comunidade deu seu grito de liberdade foi quando a polícia percebeu que tinha algo de bom ali acontecendo. Isso foi evoluindo até que percebemos que não éramos divulgados na imprensa. Precisávamos chamar a atenção de algum jeito.

Gostaríamos de ressaltar aqui que reinvindicamos a separação do herói- justiceiro do guerreiro-empreendedor porque nem sempre estes dois personagens co-existem, apesar de sua co-existência ser muito comum.

E se Ogum é o empreendedor, Xangô encarna o herói, pois além da sua força, representa o grande orixá da justiça. E segundo a própria crença de Junior esta é mais uma entidade que irá guiá-lo.

Xangô é um dos orixás mais respeitados no Brasil. Miticamente um rei, é alguém que cuida da administração, do poder e, principalmente, da justiça. O Orixá que decide sobre o bem e o mal e vive sempre castigando os ladrões e malfeitores. Xangô é íntegro, neutro, indivisível, irremovível; com tudo isso, é evidente que um certo autoritarismo faça parte da sua figura e das lendas sobre suas determinações e desígnios. Suas decisões são sempre consideradas sábias, ponderadas, hábeis e corretas. Para Xangô, a justiça está acima de tudo e, sem ela, nenhuma conquista vale a pena.

Entretanto, em Xangô, a Justiça deixa de ser uma virtude, para passar a ser uma obsessão, o que faz de seu filho um sofredor, principalmente porque o parâmetro da Justiça é o seu julgamento e não o da “Justiça Divina”.

Quem tem a proteção de Xangô sabe: não há nada nem ninguém que destrua um filho desse orixá. Podem até conseguir levá-lo ao fundo do abismo, mas depois de algum tempo ele renasce com mais vigor e volta a enfrentar o mundo de peito aberto e sem medo.

Sabemos que o herói é tipicamente guiado por ideais nobres e altruístas – liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz. Suas motivações serão sempre moralmente justas ou eticamente aprováveis, mesmo que ilícitas. O heroísmo é um fato profundamente arraigado no imaginário e na moralidade popular. Feitos de coragem e superação inspiram modelos e exemplos em diversos povos e diferentes culturas. Situações de guerra e de conflito são ideais para se realizar feitos considerados heróicos.

No caso do Junior, a inspiração heróica surge a partir da problemática imposta por um ambiente ou situação adversa, cuja solução exijiu e exige um esforço extraordinário e um feito grandioso.

Para Junior, a sua grande motivação e que a motivação original do AfroReggae é transformar pessoas:

O cara que ninguém quer trabalhar, que é visto como ocioso, um caso perdido, é o cara que eu quero trabalhar. Só que hoje isso já virou algo mais normal de ser aceito. Quando começamos ninguém queria. Eu ouvia da mãe de traficantes: 'meu filho é caso perdido'. E provamos que não. Não existe caso perdido.

O herói-justiceiro parece encontrar um sentido maior para a sua própria vida quando ocupa uma posição lhe permite atuar como um canal da justiça e da verdade, quando assume um papel de autoridade, a qual claramente tem uma responsabilidade social. É por intermédio do AfroReggae que ele busca fazer com que sua vida tenha um sentido especial. Não há dúvidas de que como agente de transformação social, como alguém que está mudando o contexto das coisas, Junior dá sentido a sua vida.

Além de Xangô, assciação feita pelo próprio Junior, gostaríamos de estebelecer, aqui, uma relação do personagem herói-guerreiro com o super-herói Batman, fantasia já usada pelo Junior na época em que trabalhava com animação infantil.

Quando analisamos o referencial de um super-herói nos filmes, revistas em quadrinhos e televisão, diferentemente de outros super-heróis, Batman não tem nenhum poder sobre-humano, usando apenas o intelecto, habilidades investigatórias, tecnologia e um físico bem-preparado em sua guerra contra o crime. Batman não é uma sumidade e, em alguns casos, até é considerado um anti-herói, acentuando ainda mais sua diferença em relação ao super-homem,

que é um exemplo para todos os outros super-heróis. Batman tem sido retratado de certa forma defeituoso, até um pouco neurótico, implacável com os inimigos. É um justiceiro que faz justiça com as próprias mãos, mesmo que tenha de ferir pessoas inocentes ou culpadas. Além disso, Batman lida bem com o adversário. Ele chega “de leve” primeiro, dá uma espécie de susto e conversa antes. Caso o adversário não escute, ele mostra o seu poder.

E com as características de Xangô e Batman que Junior encarna o personagem herói-justiceiro. A Chacina da Candelária foi o fato histórico que desencadeou a primeira grande atuação deste personagem, mas que não parou por aí. No personagem de herói-justiceiro que encarna o papel de mediador de conflitos, Junior é uma peça-chave para transformar instituições já existentes. Nesta função, ele parece compreender as suas responsabilidades morais e éticas com a sociedade. Ele mesmo define:

O mediador interfere em beneficio não de si mesmo, mas da coletividade. Qual curso tem para lidar com isso? Qual o salário que se paga para este profissional? Quanto vale sua vida? Esta constatação pode chocar as pessoas, mas os melhores mediadores são aqueles que já foram traficantes. O mediador de conflito é o cara que perdeu alguma coisa na vida ou foi bandido. É um cara que corre risco de vida o tempo todo. Quando ele vai na guerra ele tem que conversar com os todos os lados. Para ser claro, os dois comandos do tráfico. Já mediamos com polícia, podem ser três frentes. E te digo isso sem pudor, sem hipocrisia, não sei mediar sem falar com o protagonista da guerra. Não tem acordo com o tráfico.

Junior tem uma habilidade natural para mediar diferentes mundos e estabelecer diálogos entre as diferentes comunidades. Por diversas vezes, mediação siginifca enfrentar a violência e mediar risco. De um lado, temos os agentes da ordem – a polícia – contra o outro lado, o tráfico e os traficantes. No meio, encontramos os moradores da favela e os cidadãos comuns.

Traduzir e mediar mundos é um risco. A crença do movimento é que a maneira mais eficiente de promover o desenvolvimento do país começa por criar oportunidades para aqueles que estão em situação de risco pessoal, a fim de que eles possam deixar de ser mais um número nas estatísticas de pobreza e violência para se tornarem cidadãos que contribuem para a construção de riquezas, e, na justa medida, possam também ter o direito de usufruir as mesmas. Junior comenta:

Duas favelas estão em guerra, Comando Vermelho e Terceiro Comando. É sentar com os chefes do tráfico e mediar aquela paz, assim. Resumindo, é isso. Você corre todos os riscos, de bala perdida, de ser mal interpretado, ser morto.

Na vida de José Júnior, narco cultura e a mediação de conflitos se cruzam o tempo inteiro. E ele gosta de deixar bem claro que existe uma narco cultura lícita e a narco cultura ilícita:

A ilícita você sabe o que é, tráfico e armas. Mas o que é lícito e o que é neutro? Aquela senhora que vende quentinha na boca de fumo, ela é bandida? Aquele comerciante que faz questão de botar seu comércio perto da boca de fumo porque sabe que o traficante é consumista e empreendedor, ele é bandido? Não, mas essa gente vive do tráfico. E aquela criança que empina pipa. Quando roda para a esquerda a polícia tá entrando, quando roda para a direita a polícia está saindo, ele é bandido? Não e isso nem existe mais. A narco- cultura pode ser boa ou ruim, ela é neutra, quem faz ela ficar boa ou ruim são os protagonistas dela. “O Proibidão (músicas de apologia às drogas) é ruim. Pegue os grandes sucessos cinematográficos dos últimos anos Carandiru e Cidade de Deus, é narco cultura. O que o Afro Reggae faz, toca e dança, é narco cultura. O que MV Bill, Racionais, Rappa, é narco cultura.

Segundo ele, o AfroReggae já perdeu pessoas que saíram para o tráfico, mas ele considera que ninguém é caso perdido, nem quem está preso. Junior admite humildemente que o Afro Reggae já cometeu muitos erros, mas a proporção de acertos é muito maior. Para o Junior, o maior patrimônio do AfroReggae são as pessoas que trabalham juntas, pois, já ocorrerem algumas casos, nos quais as pessoas sairam do AfroReggae, foram contratadas por outras empresas para tentar replicar o projeto, mas nunca consiguiram.

Junior possui inúmeros casos de pessoas que se transformaram por causa do AfroReggae. Por exemplo, o caso de um garoto que saiu do AfroReggae e foi para o tráfico. Inconformado, Junior tentou convencê-lo que ele tinha um potencial para a capoeira. Em 2002, o garoto já era tão bom nessa arte que foi contratado pelo Cirque du Soleil.

Um caso histórico é o Carlos André Santos, que entrou no tráfico aos 15 anos de idade e se tornou "gerente" geral do Comando Vermelho dentro de Vigário Geral. Em 2005, Carlos, que na época tinha 35 anos, pediu a ajuda do José Júnior para deixar o tráfico e entrou no AfroReggae. Fato é que o AfroReggae empregou várias pessoas que trabalharam para o tráfico e também impediu que muitos entrassem.

Para Junior, a grande razão de ser do AfroReggae até hoje é a mesma: tirar os jovens do narcotráfico e possibilitar outros caminhos ligados à arte e ao empreendedorismo. Para ele, essa foi e continua sendo a motivação fundamental. Antes o AfroReggae absorvia as pessoas dentro da própria ONG. Agora a Organização possui parcerias com algumas empresas que estão recebendo ex- criminosos e dando uma oportunidade. Conta Junior:

O Comando Vermelho detém mais de 50% das favelas do Rio. Mas eu nunca tirei tanta gente do tráfico como agora. Estamos até com um projeto de tirar 30 caras do tráfico, que não estejam devendo à Justiça (acusados de crimes) e deixar que eles escolham o que eles querem fazer. Não é tirar quem está beirando o tráfico, é tirar quem

está no tráfico. A gente comemora muito quando tira uma pessoa do tráfico.

Nesta tarefa, José Junior e o AfroReggae contam com ajuda de várias pessoas, como por exemplo, a inspetora Marina Magessi, chefe da Delegacia de Entorpecentes do Rio de Janeiro. Para Junior, a convivência com ela tem sido muito valiosa, uma troca muito rica que tem ensinado muito a ele. É ele que nos conta:

A Marina me falou o seguinte: Junior, quando alguém quiser sair, me dá o nome, a gente levanta a ficha dele e se a pena for pequena o cara paga a pena. De outra forma é com ele mesmo. Não vou poder absorver o cara no Afro Reggae nem facilitar a fuga dele, porque aí eu seria conivente.

Junior realiza várias abordagens com os contraventores para tirá-los do tráfico. Ele relata:

Eu aconselho e cabe ao cara fazer o que quiser. Mesmo o cara que tá devendo pra cacete, matou, eu aconselho sair do tráfico. Sair é sempre o mais fácil. Já influenciei muita gente, e só na conversa. Muitas vezes converso com eles e não é só de bandidagem. Com a molecada falo de futebol, mas com os caras mais velhos falo muito de família, família é uma coisa importante na vida de todo mundo. Junior recusa fortemente o instituído e, ao mesmo tempo, faz um uso inteligente desse instituído. Ele é suficientemente inteligente para fazer uma recusa do instituído e se valer dele de forma inteligente quando lhe convém. Mas, quando faz uma mediação entre os traficantes para ajudar a acabar com um conflito nas favelas, usa o tênis certo, de marca, de grife, valendo-se dos valores