Os múltiplos personagens que estavam incubados na identidade de José Junior e que vieram à tona, possibilitaram a Junior um movimento emancipatório e o abandono do personagem fracassado-briguento, a qual ele estava preso desde sua infância.
Identidade é totalidade que oculta a presença de múltiplos personagens, que ora se conservam, se sucedem, ora coexistem, ora se alteram, gerando o movimento (Ciampa, 1997).
Foi surgimento dos novos personagens, até então adormecidos, que posibilitou a expansão da identidade de José Junior e, desde então, a coexistência e alternância dos mesmos foi a tônica de seua vida. Em diversas situações é possível perceber que o artista-disfarçado convive com o herói- justiceiro, que por sua vez convive com o guerreiro-empreendedor. Neste sentido, percebemos que Junior claramente passa a assumir uma série de novos papéis que possibilitam esta coexistência.
É na coexistência do guerreiro-empreendedor, do herói-guerreiro e do artista-disfarçado que José Junior vive um dos seus grandes papéis, o de empreendedor social-cultural. Como empreendedor social, Junior foi o grande fundador e desenvolvedor do AfroReggae. Já mencionamos as origens desta ONG, mas agora, vamos entrar em detalhes sobre a Organização fundada por Junior.
No dia 21 de janeiro de 2008, o AfroReggae completou 15 anos, promovendo a transformação social através da arte e da cultura . Hoje a ONG já possui mais de 70 projetos acontecendo em várias favelas e comunidades fluminenses. São quatro núcleos de cultura fixos (em Vigário Geral, Parada de Lucas, Complexo do Alemão e Cantagalo) que já beneficiaram direta e indiretamente 10 mil pessoas no Brasil e no mundo. São 10 bandas de música e diversos grupos de circo, de teatro e dança. O Grupo oferece formação artística e
cultural como alternativa para tirar do tráfico de drogas jovens moradores de favelas. Trabalham com oficinas de música, capoeira, teatro, dança, histórias em quadrinhos.
Atualmente, o AfroReggae atende cerca de duas mil pessoas das regiões carentes do Rio de Janeiro e atrai jovens através de programas ligados à arte, cultura afro-brasileira e educação. O AfroReggae nasceu como uma banda musical que incorporou ações sociais, mas ampliou o seu escopo de atuação para formar cidadões. Junior defende:
O cara não tem que ser artista. Se a gente formar só artista, o que já é muito válido, vamos continuar fortalecendo o estereótipo que o negro da favela só pode ser jogador de futebol e artista. Queremos formar intelectuais. Porque eles não podem ser médicos, engenheiros, jornalistas? Existe um movimento para desenvolver isso e essa reflexão não é só do AfroReggae. Quatro instituições com legitimidade e visibilidade, o Afro Reggae, a CUFA2, Nós do Morro3 e o Observatório de Favelas4 se uniram em um grupo
chamado F45 . A gente se reúne toda semana e essas quatro
instituições estão nas quatro regiões do Rio de Janeiro e todas são mediadoras de conflitos. Algumas são mais de mediação de confronto, como CUFA e Afro Reggae.
2 Sigla que significa Central Única das Favelas. é uma organização que surgiu através de reuniões de jovens de várias favelas da cidade do Rio de Janeiro. Desde 1998, a CUFA funciona como um pólo de produção cultural e através de parcerias, apoios e patrocínios forma e informa jovens de comunidades, oferecendo perspectivas de inclusão social.
3 ONG funda em 1986 no Rio de Janeiro e que tem o objetivo de criar acesso à arte e à cultura para crianças, jovens e adultos do Morro do Vidigal e de outros locais no Rio de Janeiro.
4 Rede sócio-pedagógica constituída em 2001 no Rio de Janeiro como um programa do Instituto de Estudos Trabalho e Sociedade (IETS) e com o apoio institucional da Fundação Ford. É integrada por pesquisadores e estudantes vinculados a diferentes instituições acadêmicas e organizações comunitárias. A instituição vem atuando como uma rede de formação de lideranças comunitárias e seus principais coordenadores são moradores ou ex-moradores da periferia do RJ. 5 "F4 - Favela a quatro". Criado em 2008, o objetivo é unir forças para o desenvolvimento de uma série de ações sociais em conjunto, sendo que cada instituição atua com o seu “expertise”. Na primeira etapa do projeto, denominada Rebelião Cultural, foram escolhidos os presídios de Bangu 1,2, 3 e 4 e o Talavera Bruce (feminino). Ao final do projeto, o F4 promoverá a publicação de uma pesquisa, um documentário e um livro refletindo sobre os resultados conquistados.
O slogan do AfroReggae – “Da Favela ao Mundo” – fortalece a idéia de demonstrar a energia criativa, o talento e a esperança que emana das favelas do Rio.
Em 2001, o AfroReggae criou o conceito Conexões Urbanas a fim de eliminar fronteiras invisíveis da cidade. O projeto foi iniciado com um grande circuito de shows e em suas 51 edições levou os maiores nomes da MPB, como Caetano, Marisa Monte e Gilberto Gil, para cantarem nas principais favelas do Rio de Janeiro com uma grande infra-estrutura de palco, cenário e figurino.
Ao longo dos anos, as conexões do Junior e do AfroReggae se multiplicaram e hoje também dão nome para cinco programas de rádio, uma revista e, mais recentemente, um programa de TV, como veremos em seguida. Além disso, o AfroReggae já produziu cinco filmes. Um deles se chama Mediação de Conflitos, que mostra protagonistas que negociam guerras no Rio de janeiro.
Talvez o flme que mais explique o movimento AfroReggae seja o documentário “Favela Rising” dos diretores norte-americanos Jeff Zimbalist e Matt Mochary, com Anderson Sá e Zuenir Ventura. O filme, que ganhou 24 prêmios internacionais, inclusive pela Associação Internacional de Documentários e, também, no Festival de Tribeca, nos Estados Unidos, foi semifinalista do Oscar em 2006, retrata a vida de seu principal vocalista, Anderson de Sá, que antes do AfroReggae atuava no tráfico de drogas.
Em outubro de 2008, Junior assumiu o comando do “Conexões Urbanas”, um programa de TV do Grupo AffroReggae, que conta sempre com a presença de artistas como Rappa, MV Bill, Gabriel o Pensador. O objetivo do programa, apresentado pelo próprio José Junior e exibido no canal Multishow6, é dar voz a pessoas que ainda são invisíveis, através da apresentação de projetos sociais
6 Multishow é um canal da operadora Globosat de televisão. No ar desde 1991, tem uma ampla gama de estilos na programação na área do entretenimento. O programa Conexões Urbanas vai ao ar às segundas-feiras, às 21h45.
tanto no Brasil quanto em outros países. Através deste programa, José Júnior e o grupo AfroReggae pretendem conscientizar a população sobre a violência social e buscar saídas para amenizar o caos em que vivemos.
E no comando do programa Conexões Urbanas, o herói-justiceiro e o artista-disfaçado se articulam no papel de apresentador de TV. O programa revela um entrevistador – o José Junior - que parece possui uma qualidade rara na TV atual: ele deixa os outros falarem. O próprio Júnior destaca essa sua virtude e acredita que escuta muito. Escutou o lado sombrio da vida e se aventurou a dar- lhe luz e forma: é daí que nasceu sua ação política e a dos seus companheiros. Escutou a calamidade da Chacina e escuta seus entrevistados, entre eles pessoas de diversas classes sociais, inclusive algumas que possuem muito pouco espaço na mídia, como prostitutas e ex-traficantes.
Esta mesma articulação e coexistência dos personagens herói-justiceiro e artista-disfarçcado aconteceu em 2003 quando Junior escreveu e lançou o seu livro “Da Favela para o Mundo”, no qual conta a história do AfroReggae e a sua própria história.
O livro, que já está na sua segunda edição, resume os desafios enfrentados pelo Junior e pelo Afro Reggae e tem como objetivo mostrar que na favela ou no mundo, a dignidade é o melhor antídoto contra a irracionalidade dos preconceitos. É a história da luta que se sobrepõe à violência, a exclusão, a discriminação para propor opções para a maioria dos jovens atendidos pelos diversos projetos mantidos pelo AfroReggae.
O livro é narrado pelo Junior em clima de contador de histórias e está repleto de referências místico-religiosas, de letras musicais, de poemas e de fotos de sua trajetória e do próprio AfroReggae. Nele, Junior busca provar que as saídas para a violência, para o narco-tráfico são possíveis e que os jovens, que fazem parte do AfroReggae, atuando em bandas musicais, rodas de capoeira, oficinas de percussão e de samba, são um grande exemplo disso. Através dos textos, entedemos que o espírito de coragem aliado a muito trabalho com
“originalidade dos métodos” é a base desta história de superação que se tornou referência.
Encontramos no blog7 de Junior, um relato que descreve como ele encara
esse novo papel, o de autor, até então, algo que não havia sido imaginado por ele:
Tenho vivido algumas experiências novas como a de ser chamado de “autor” e de “escritor”. Que doideira! Pra falar a verdade, não me preparei para tal. Dar autógrafo já rolava desde de 2001, quando lançamos o CD, mas escrever dizeres permanentes para pessoas numa fila é algo que me deixa com uma certa expectativa. Algumas pessoas me deram umas dicas do tipo: “escreve uma coisa padrão”. Mas, eu sempre fico naquela pilha: imagina se duas pessoas que se conhecem abrirem seus livros e descobrirem que escrevi a mesma coisa pra elas? Todas as vezes que tenho que autografar um livro, penso em Chico Xavier. Aquela expressão dele, com a mão na testa, de óculos escuros, psicografando; sempre vem como um start inspirador. Tem hora que saio escrevendo um monte de coisas. Olho pra pessoa e sinto vontade de passar pra ela. Quando alguém me pede pra escrever para uma outra pessoa que não esta ali é a mesma coisa que dar um presente. Aí olho pra ela e tento identificar esse indivíduo. Tudo isso eu uso como elementos pra fugir da mesmice de um texto padrão ou pra fazer o tempo passar logo e tornar aquelas sessões prazerosas.
É na articulação dos personagens artista-disfarçado e herói-justiceiro que Junior acaba asumindo uma nova faceta na sua vida: a fama. Cada vez mais Junior esté presente na mídia e nos veículos de comunicação de massa. Em novembro de 2008, foi entrevistado pelo Jô Soares em seu programa, na TV Globo e, em maio de 2007 participou do Programa Roda Viva, da TV Cultura.
7 Junior manteve um blog pessoal durante o período de janeiro de 2005 a dezembro de 2006. O blog ainda está ativo, mas as postagens. O endereço para consulta é http://afroreggae.blog.uol.com.br/.
José Junior já concedeu e continua concedendo inúmeras entrevistas. Nas diversas entrevistas, o herói-justiceiro predomina, mas a sua desenvoltura e capacidade de articulação são do artista-disfarçado. Neste sentido, percebemos que Junior realmente se tornou uma celebridade, o que denota o crescimento, cada vez maior, do personagem artista-disfaçado, agora, já não tão disfarçado assim. Isso ficou patente quando Junior participou do “Por trás da fama”, do canal Multishow. Este programa, que é dedicado a entender o que acontece nos bastidores das vidas das celebridades, já entrevistou uma série de artistas famosos como Arnaldo Antunes, Adriana Calcanhoto, Lenine, Ronaldinho Gaúcho, Juliana Paes, entre outros.
Outra coexistência que deve ser mencionada é a do artista-disfarçado com o guerreiro empreendedor. Este foi o caso da campanha publicitária do Instituto Empreendor Endeavor8, na qual Junior foi um dos “garotos-propagandas”, ao lado de grandes empresários como Luiz Seabra, fundador da Natura, Oskar Metsavah, da Osklen, Luiza Helena Trajano, do Magazine Luiza. A ONG lançou, no final de 2008, o movimento Bota pra Fazer para despertar nos brasileiros a atitude empreendedora e inspirá-los a tirarem suas idéias do papel e a criarem novos negócios. A campanha publicitária, que foi veiculada em nível nacional, apresentava comerciais de TV, peças para a internet (hotsite e banners), anúncios para mídia impressa, pôsteres e rádio.
8 O Instituto Empreender Endeavor é uma organização sem fins lucrativos, que tem como missão promover o desenvolvimento sustentável do Brasil, por meio do apoio a empreendedores inovadores e do incentivo à cultura empreendedora, gerando postos de trabalho e renda.