A opção tomada nesta investigação de abordar um conceito que tem sido definido de formas muito diversas e sob a capa de diferentes termos (Ashmore e Jussim, 1997), muitas vezes com matizes próprias dos idiomas em que são abordados, implicou desde logo uma procura de um sentido que se adequasse à complexidade do problema que me propunha explorar. Tendo como ponto de partida o facto de que a identidade visada por este estudo pretendia ser a auto-identidade, portanto com um significado auto- referencial, das leituras que fui fazendo, foi emergindo um conjunto significativo de termos que conceptualmente pareciam aproximar-se deste: self, self-identity, sentimento de si, conceito de si, auto-imagem, Eu, identidade pessoal, entre outros.
A investigação histórica indica que a busca da auto-identidade nas sociedades ocidentais remonta apenas à modernidade, surgindo com o despertar de um sentimento mais forte de individualidade, por oposição a uma concepção mais colectiva que predominou até à Idade Media. De acordo com Hall (1999), o “indivíduo soberano” nasce no período compreendido entre o Humanismo Renascentista e o Iluminismo, dado que até ali existia um conjunto de atributos relativamente fixos que determinavam “a posição de uma pessoa na grande cadeia do ser – a ordem secular e divina das coisas – [e que] predominavam sobre qualquer sentimento de que a pessoa fosse um indivíduo soberano” (p. 25). Um passo importante em direcção a esta visão individualista da pessoa terá sido o fim progressivo do sistema feudal, em diferentes regiões da Europa, na medida em que cada um passou a adquirir o direito de circular livremente, tomar as suas decisões e fazer as suas escolhas por exemplo, quanto ao cônjuge, à ocupação profissional ou ao lugar onde viver (Baumeister, 1997). A ideia de individualidade que se desenvolve a partir dessa época caracteriza-se por dois aspectos fundamentais: i) a celebração da especificidade e unicidade de cada pessoa, e ii) o sentimento de que existe um destino único para cada pessoa (idem, p. 193).
Segundo Baumeister (1997), existe um outro desenvolvimento importante no mundo ocidental que conduz a uma nova concepção de pessoalidade que assenta na noção de interioridade. Embora tendo origens remotas, esta noção surgiu na nossa cultura pela influência dos ensinos da Cristandade, especialmente no que diz respeito à ideia da existência de uma alma como uma parte não material da pessoa. A visão de que existe algo interior que define o próprio sujeito foi objecto de elaboração por vários pensadores ao longo dos séculos, sendo possível destacar John Locke, como um dos homens cujas ideias tiveram, provavelmente, maior influência sobre o modo como a identidade passou a ser encarada durante muito tempo. Num capítulo da sua obra Ensaio
sobre o Entendimento Humano, dedicado à questão da identidade pessoal, introduziu
definitivamente o termo self como um conceito-chave na elaboração da interioridade e do conceito de pessoalidade, embora este existisse, como substantivo, na língua inglesa já desde o início do século XIV (Danziger, 1997). Na visão de Locke, o self (o Eu) é assumido como um objecto a ser conhecido, sendo a identidade pessoal a identidade
A construção da identidade profissional
numa época de profundas mudanças sociais e culturais: “Como posso estabelecer que sou agora a mesma pessoa que era há um ano atrás?” (Danziger, 1997; Taylor, 1989). A ideia fundamental de Locke para responder a tal desafio foi o da continuidade da consciência [consciousness] do Eu, ou seja de uma consciência psicológica do Eu, a qual acompanha todas as nossas experiências mentais e que nos permite pensar a nós próprios como sendo os mesmos em diferentes tempos e espaços (Locke, 1694/1999). Como Locke (1694/1999) refere, essa consciência é essencial para o pensamento e inseparável dele, uma vez que é “impossível para qualquer um compreender sem
apreender que consegue compreender” (p. 443). A questão da “memória” da consciência
é uma ideia muito relevante nesta concepção do Eu que vai ser importante, mais tarde, no desenvolvimento do conceito moderno de identidade. Para Locke (1694/1999) é a consciência que confere unidade ao Eu, não estando aquela dependente da existência a todo o momento de um filme das nossas vidas. Como afirma, é pela consciência que
possui dos pensamentos e das acções do presente que o Eu é agora para si
próprio, e assim será o mesmo Eu na medida em que a mesma consciência se
possa alargar a acções passadas ou futuras; e não seria duas pessoas, pela distância temporal ou pela alteração da substância (...) a mesma consciência une essas acções distantes numa mesma pessoa, independentemente das substâncias que contribuíram para a sua produção. (pp. 444, 445)
A identidade pessoal diz respeito à singularidade de um ser racional e consiste na identidade da consciência e não na identidade da substância (material). De facto, para Locke trata-se de uma realidade imaterial, nas suas palavras um “espírito imaterial” que habita a pessoa humana e é aquilo que “pensa em si e que, na constante mudança do seu corpo, é o que o mantém o mesmo e é o que ele apelida como ele próprio” (idem, p. 449)
A identidade pessoal reporta-se, portanto, a uma autoconsciência distinta das outras experiências mentais ou das acções, o que Taylor (1989) designa como a experiência do Eu (self) neutro ou pontual [punctual], uma vez que este é definido em abstracto, independentemente de quaisquer preocupações constitutivas, e cuja “única propriedade constitutiva é a autopercepção” (p. 49). Esta visão do Eu, deu origem a uma longa tradição empirista baseada na ideia de que é possível separar as pessoas dos seus actos e
experiências (Danziger, 1997). Segundo Danziger (1997), os indivíduos “não se manifestam nas suas acções e experiências – eles possuíam-nas, ficam por detrás delas como seus proprietários” (p. 142). O self passou a ser encarado como uma “possessão privada” (idem, p. 143) que cada um procura em si próprio, tornando-se num objecto de atenção e de conhecimento pessoal
A visão acerca do indivíduo que predomina no período do Iluminismo, tem também uma forte influência do pensamento cartesiano, nomeadamente, na conhecida (e actualmente, controversa) dicotomia entre a mente e o corpo, ou seja, entre a “coisa pensante” [res cogitans] e o “corpo não pensante” [res extensa] (Damásio, 1997, p. 254). Segundo Descartes, aquilo que define a pessoa é, em última instância, uma substância mental ou um Eu incorpóreo. Nas suas próprias palavras, reconhece o seu “Eu” como uma substância “cuja essência integral é pensar”, afirmando: “a alma através da qual sou o que sou, distingue-se completamente do corpo (...) e, ainda que não houvesse corpo, a alma não deixaria de ser o que é” (idem, p. 255).
Esta concepção do self como substância ou essência é acompanhada, neste período, pela ideia de que se trata de uma entidade fixa e imutável que acompanha a pessoa ao longo da sua existência. Trata-se de uma visão essencialista do indivíduo, cuja origem se atribui aos pensamentos do filósofo grego Parménides, e que pode ser resumida no seu célebre enunciado: “O devir está excluído do Ser” (Citado em Dubar, 2000, p. 2).
Por um longo período, a questão da identidade do self (ou self-identity, em inglês), direccionou-se, segundo Polkinghorne (1988) para a compreensão dessa essência que permanece e que define a individualidade da pessoa. Este autor chama a atenção para o facto de que o próprio termo self-identity (em inglês) encerra em si duas noções antagónicas – a de diferença e a de uniformidade ou semelhança – na medida em que, “ “self” (ipse), é aquilo que é o oposto do não-Eu [otherness] e da estranheza [strangeness]; e “identidade” (idem) é aquilo que permanece o mesmo, o singular extremo, o oposto da mudança” (p. 146).
Assim, no Iluminismo podemos encontrar uma ancoragem muito significativa da forma como a auto-identidade foi sendo encarada ao longo dos tempos e influenciou a
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identidade da pessoa constituía o centro essencial do Eu (ou self). Hall (1999) sintetiza a concepção iluminista de pessoa como tratando-se de:
um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de acção, cujo “centro” consistia num núcleo interior, que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia, ainda que permanecendo essencialmente o mesmo – contínuo ou “idêntico” a ele – ao longo da existência do indivíduo. (pp. 10, 11)
Diversos movimentos foram trazendo novas dimensões à ideia de um self ou Eu substancial, como foi o caso do Romantismo, no século XIX. Apoiando-se no conceito religioso de ‘destino’, expandiram-no para a noção moderna de ‘vocação’, como algo que faz parte da natureza particular de cada pessoa e que cada um tem de descobrir no seu interior e persegui-lo ao longo da sua vida (Baumeister, 1997). Também na época vitoriana se observam as consequências da visão do self como uma substância, na medida em que tendia-se a encarar “as acções visíveis e as aparências meramente como pequenas pistas sobre o vasto domínio interior da pessoa” (idem, p. 197). Baumeister (1997) considera paradigmática desta concepção do self vitoriano a forma como o detective Sherlock Holmes solucionava boa parte dos misteriosos crimes dando atenção a aspectos muito particulares e, aparentemente triviais, das personagens, que depois o levavam a compreender factos fundamentais sobre estas.
No entanto, ao mesmo tempo que se desenvolvia esta concepção sobre o self e a identidade, surgiam também algumas vozes contra-corrente, constituindo David Hume uma das mais significativas (Danziger, 1997; Holland, 1997). Rejeitando a ideia de que existisse esse núcleo interior denominado self, que fosse a morada dos pensamentos, Hume considerava-o apenas como o somatório das percepções e das experiências da pessoa. O self, do seu ponto de vista, não poderia ser a origem da unidade da identidade pessoal, uma vez que não existia nenhuma substância que funcionasse como elemento unificador dessas experiências (Polkinghorne, 1988).
Progressivamente, alguns pensadores passaram a encarar a identidade como uma construção e não como uma substância e, como tal, a recusar a sua imutabilidade. No entanto, a ideia da mudança inerente a tudo o que existe e, consequentemente, à pessoa
humana também, não era nova, encontrando-se já nos escritos do filósofo grego Heraclito, nomeadamente na sua célebre expressão: “Não é possível banharmo-nos duas vezes nas águas do mesmo rio”. Segundo Dubar (2000), na perspectiva heracliteana não existem essências eternas visto que tudo muda. Em particular, a identidade muda estando comprometida com o tempo histórico e com o ponto de vista adoptado. Esta posição filosófica é designada por alguns autores (e.g., Dubar, 2000) como nominalista. William James terá sido, provavelmente, o percursor moderno do estudo do self e da identidade como conceitos científicos, através de um livro que publicou em 1890, particularmente no capítulo intitulado The Consciousness of Self (Ashmore e Jussim, 1997). Terá sido, igualmente, um dos principais proponentes do conceito de identidade pessoal (ou auto-identidade) como tratando-se de uma ideia que a pessoa constrói acerca de si própria, que envolve um esforço de síntese entre as várias ideias e facetas do indivíduo (Polkinghorne, 1988). Segundo Meltzer et al. (1975), o conceito geral de self apresentado por James diz respeito “à soma total de tudo aquilo que o indivíduo pode chamar de seu” (p. 6). Ao contrário da abordagem metafísica do self que caracterizava os seus antecessores, James passa a considerar a importância dos processos sociais para a sua construção, de tal forma que defende a coexistência de vários selves na mesma pessoa, entre eles o self social, o qual é definido do seguinte modo:
Propriamente falando, o homem tem tantos selves sociais quantos os indivíduos que o reconhecem e preservam uma imagem dele na sua mente. Ferir qualquer uma destas suas imagens significa feri-lo. Mas, como os indivíduos que preservam as imagens estão, naturalmente, em classes, praticamente podemos dizer que ele tem tantos selves sociais quantos grupos distintos de pessoas existem acerca de cuja opinião ele se preocupa. (James citado em Meltzer et al., 1975, p. 6)
Na perspectiva do Interaccionismo Simbólico, para o qual James deu uma importante contribuição, o self não se trata do núcleo interior que a pessoa tenta atingir, mas um processo fluente de interacção entre as suas tendências impulsivas e as atitudes e respostas dos outros face a ela própria. Para a construção da identidade da pessoa são fundamentais a síntese e integração dessas diferentes respostas sociais. Os
A construção da identidade profissional
eu real”, no entanto, este não é imutável nem existe num vazio social, antes “é formado e
modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem” (Hall, 1999, p. 11).
No meu próprio percurso em busca do sentido de “identidade”, a perspectiva do Interaccionismo Simbólico (IS) constituiu uma primeira aproximação que veio marcar indelevelmente a abordagem que acabei por desenvolver. Assim, mostraram-se muito significativas para este estudo as três premissas que caracterizam o IS, definidas já numa fase tardia por Blumer (que foi, aliás, quem assim denominou este movimento, em 1937):
i. Os seres humanos agem em relação às coisas de acordo com os significados que estas têm para si;
ii. Estas coisas incluem tudo aquilo que o ser humano pode perceber no seu mundo – objectos físicos, outros humanos, categorias de seres humanos, instituições, ideais, actividades de outros, etc.;
iii. O significado destas coisas deriva ou surge da interacção com os outros;
iv. Estes significados são manipulados e modificados através de um processo interpretativo usado pela pessoa ao lidar com as coisas que encontra. (1969, p. 2)
Assumindo estes pressupostos, afigurava-se indispensável para o estudo da identidade profissional a procura dos significados que os próprios sujeitos produziam sobre a sua experiência de aprender a ensinar. Deste modo, a identidade profissional visada teria de ser enquadrada na própria identidade pessoal. No decurso das secções subsequentes darei conta de mais alguns aspectos fundamentais das perspectivas do IS sobre a identidade.
O conceito de identidade, no sentido de auto-identidade, que será explorado ao longo deste trabalho de investigação, começou por se aproximar da noção de “conceito de si” (self-concept, em inglês, ou concept de soi, em francês) cujas origens remontam a William James e a que L’Ecuyer se refere, como sendo o modo como a pessoa se percebe a si mesma e que engloba “um conjunto de características (gostos, interesses, qualidades,
defeitos, etc.), traços pessoais (incluindo as características corporais), papéis e valores, etc., que a pessoa se atribui, avalia por vezes positivamente ou negativamente e que reconhece como fazendo parte dela própria” (citado em Fromage, 1999, p. 164). Trata- se de um sistema multidimensional, ligado a um vasto conjunto de perspectivas do indivíduo sobre si próprio, e que diz respeito tanto a aspectos individuais como sociais, emocionais e cognitivos, históricos e actuais, principais e periféricos, permanentes e ocasionais. O conceito de si mesmo é um sistema simultaneamente de natureza experiencial e desenvolvimentista, cujas características L’Ecuyer agrupa em cinco estruturas:
o si material, que engloba as autodescrições tanto em termos de aparência física e de saúde, como em relação à possessão de objectos ou de pessoas (e.g., as minhas crianças);
o si pessoal, no qual se integram as aspirações, emoções, qualidades e defeitos, assim como a filosofia de vida, os papéis e estatutos e o sentimento de coerência interna;
o si adaptativo, que agrupa as afirmações que implicam um julgamento sobre si mesmo, bem como aqueles que concernem às formas de reagir à realidade de modo a manter o si (autonomia, dependência, ambivalência); o si social, comportando as descrições de comportamentos em sociedade
(receptividade aos outros, dominação, altruísmo) e as referências à sexualidade;
o si não-si, que corresponde às afirmações em que a pessoa fala de outros mas sobre assuntos que lhe dizem pessoalmente respeito. (segundo LeComte, 1997, p. 11)
Embora designadas por estruturas, estas cinco vertentes do conceito de si, ou auto- identidade, não poderão ser encaradas, num sentido psicológico, como diferentes áreas no funcionamento mental do indivíduo. No entanto, fornecem um quadro bastante completo dos aspectos que poderão integrar a representação que cada pessoa faz de si própria, ou seja, do conceito de auto-identidade tal como se pretende explorar nesta investigação. Não se trata aqui de seguir uma perspectiva que valida o realismo
A construção da identidade profissional
ontológico do eu real do IS mas antes tentar responder a questões tais como as que Jerome Bruner refere:
Por que processos e relativamente a que tipo de experiências é que os seres humanos formulam o seu próprio conceito de Si mesmo, e que tipos de Si mesmo é que formulam? Será que o “Eu” engloba (...) um Eu “alargado” que incorpora a família, os amigos, os bens de cada um, e assim por diante? (1997, p. 104)
Esta posição demarca-se das correntes da Psicologia que se têm debruçado sobre o autoconceito, medido através de testes específicos, e que, segundo este psicólogo cultural, acabam por reificar o conceito de si como aquilo que é medido pelo testes, tal como se verifica com a inteligência e outros conceitos psicologizados.
Para compreender o processo de construção da identidade profissional de jovens em início de carreira é fundamental atender às suas perspectivas e às suas interpretações, em especial procurando conhecer aquilo que é verdadeiramente importante para eles. Como Taylor defende no seu livro Sources of the Self, não é possível conhecer o que a pessoa é sem levar em conta as suas interpretações sobre si própria:
Nós somos selves apenas no sentido em que certas questões [issues] nos importam. O que eu sou como self, a minha identidade, é essencialmente definida pelo modo como as coisas têm significado para mim. (…) estas coisas têm significado para mim, e a questão [issue] da minha identidade é realizada apenas através de uma linguagem de interpretação que eu vim a aceitar como uma articulação válida destas questões [issues]. Perguntar o que é que uma pessoa é, abstraindo das suas auto-interpretações, é fazer uma pergunta fundamentalmente mal orientada, para a qual, em princípio, não pode haver uma resposta. (1989, p. 34)
No entanto, diversas correntes da Psicologia Social (começando de alguma forma com o IS) têm vindo a mostrar que as auto-interpretações emergem em contextos sociais, culturais e históricos que as moldam e que não podem, por isso, ser desconsiderados (Bruner, 1997; Danziger, 1997; Gergen, 1996). Deste modo, esta discussão sobre o conceito de identidade centrar-se-á, em seguida, sobre a dialéctica pessoal-social.
3.1.3. Identidade: entre o pessoal e o social
A identidade como conceito é tão elusiva como o senso que toda a gente tem da sua própria identidade pessoal. Mas, para além de qualquer outra coisa que possa ser a identidade está ligada às apreciações fatídicas da pessoa – feitas por si mesma e por outros. Todas as pessoas se apresentam aos outros e a si mesmas e vêem-se elas próprias nos espelhos dos seus julgamentos. (Strauss, citado em Haimes, 1987, p. 359)
No âmbito da Psicologia Social, começou por atribuir-se ao período da infância e à adolescência a preponderância na construção da identidade pessoal. No entanto, esta ideia tem vindo a ser abandonada em favor de uma concepção de identidade em permanente construção, verificando-se que existem numerosos factores que exercem uma influência significativa sobre a identidade mesmo na vida adulta (Marc, 1997). Rossan (1987) menciona diversos desses factores, alguns dos quais se situam ao nível das interacções ou de contextos sociais. Esta autora refere, por exemplo, os reflected
appraisals, que se situam na esfera das interacções com outros significativos, e se
reportam ao entendimento que a pessoa tem sobre a comunicação e acção desses em relação a si própria e como isso é sentido por ela. Também, as negociações relativas aos papéis desempenhados podem ter implicações sobre a identidade. Como indica esta autora a partir da investigação que desenvolveu, as sub-identidades (identidade associada aos papéis) de uma mulher como esposa, filha, amiga ou profissional sofrem uma transformação na sequência do nascimento do primeiro filho. Neste estudo também mencionamos as comparações sociais, especialmente, com objectivos auto-avaliativos:
Vemos os outros mais ou menos como nós próprios, fazendo coisas, expressando valores e sentimentos que podem ser comparados com os nossos próprios estilos e reacções. Com base em muitas dessas observações, aprendemos acerca da tipicidade dos nossos próprios comportamentos, vemos novas acções a tentar, reparamos nas reacções dos outros a estas acções ainda não testadas, avaliamos a variedade de modos de fazer, perceber, sentir, que ainda não são, mas têm o potencial de vir a ser, parte do nosso próprio repertório de competências e expressões. (p. 309)
A construção da identidade profissional
Essas comparações do sujeito com os outros podem levá-lo a projectar transformações pessoais com eventuais implicações na sua identidade, quer no sentido da mudança, quer no do reforço. Esta situação é particularmente visível quando se assumem novos papéis, como, por exemplo, quando alguém se inicia numa profissão.
Outras categorias de influências situam-se, segundo Rossan (1987), principalmente na esfera do indivíduo, como é o caso da avaliação de como os objectivos ou metas