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Nas últimas décadas, a identidade tem-se tornado um assunto muito popular, em diversas esferas da sociedade, pelo menos do mundo ocidental. As razões do crescimento de interesse neste tema prendem-se com mudanças importantes no modo como nos vemos a nós próprios em relação a um mundo em que se operam profundas mudanças. Nós próprios, vamos construindo duas identidades, ou uma identidade dupla, como portugueses e europeus. Mas ser europeu pode ter múltiplos significados, particularmente ao nos encontramos na ponta mais ocidental deste continente. A mudança de perspectiva quanto à identidade por que nós portugueses temos vindo a passar, desde os anos 80, com a entrada para a União Europeia, com um movimento de aproximação e agora mais recentemente com um certo sentimento de distanciamento, pelo menos nas questões económicas, é paradigmática de processos de transformação identitária que vêm ocorrendo de uma forma mais abrangente por todo o mundo ocidental.

A mundialização dos mercados tem exercido uma enorme influência sobre o dia-a-dia das pessoas, conduzindo, por exemplo, à uniformização dos seus hábitos de consumo que, aparentemente, as aproxima dos outros, quer dos seus vizinhos, quer de outros que vivem noutros continentes. Contudo, a força da publicidade quer também fazer-nos sentir que somos únicos, que podemos renascer, rejuvenescer e transformar-nos de tal forma que “a passagem para uma nova identidade se assemelha a uma passagem pelo centro comercial mais próximo” (Jenkins, 1996, p. 8). Mas, este impacto sobre o quotidiano não se restringe aos aspectos materiais do consumo, faz-se sentir também, enquanto força da racionalidade económica, num sentido particular de existência que tende a valorizar aquilo que produz benefícios económicos (Torres-Santomé, 2002), o que configura uma certa identidade.

À globalização da vida económica junta-se a globalização gerada pelas tecnologias da informação e comunicação que transformou a sociedade industrial e mecânica, da época moderna, na sociedade da informação da nossa era pós-moderna (Hargreaves, 2000b). Existem actualmente, segundo Hargreaves (2000), não só novos modos de produção e novas formas de experiência em que o virtual tem um lugar importante, mas também

uma alteração profunda nos “padrões de identidade” (p. 9). O conceito de globalização aplica-se também à intersecção da presença e da ausência, às relações sociais, na medida em que existe uma intensificação à escala mundial das “relações que ligam localidades distantes de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilómetros de distância, e vice-versa” (Giddens, 1998, p. 45).

Outras das marcas do nosso tempo é a transformação acelerada, em boa medida decorrente do domínio da sociedade da informação. A esse propósito, Giddens classifica o mundo actual como “desenfreado”, pelo ritmo das mudanças e também pelo “âmbito ou a profundidade com que afecta as práticas sociais e os modos de comportamento preexistentes” (1994, p. 14).

Uma outra dimensão pela qual se pode analisar as grandes alterações provocadas pela globalização é a chamada “compressão espaço-tempo” (Hall, 1999; Hargreaves, 1998), associada à sensação de aldeia global e do imediatismo das respostas. O tempo tem-se tornado um bem precioso e “um factor de produção crítico”, de forma que “o conhecimento é usado para encolher os intervalos de tempo” (Toffler, citado em Hargreaves, 1998, p. 92). Se todos podemos colher benefícios do encurtamento do espaço e do tempo que as novas tecnologias da informação e comunicação nos proporcionam no nosso quotidiano, a verdade é que esta dimensão da era pós-moderna tem igualmente impactos menos positivos, para os quais Hargreaves (1998) chama a atenção. Assim, a compressão espaço-tempo pode:

 multiplicar as inovações, acelerar o ritmo de mudança e encurtar os prazos limite de implementação, de tal modo que as pessoas experimentam sentimentos de culpa e sobrecarga intoleráveis, bem como de incapacidade para atingir os seus objectivos;

 levar as pessoas a concentrar-se na aparência estética da mudança ou do desempenho, e não na qualidade e substância da própria mudança ou desempenho;

 exacerbar a incerteza, à medida que o conhecimento é produzido, disseminado e posto de lado a um ritmo cada vez mais rápido;

A construção da identidade profissional

 provocar a erosão das oportunidades de reflexão e de relaxamento pessoal, conduzindo a um stress crescente e à perda do contacto da pessoa com os seus objectivos e propósitos básicos;

 valorizar de tal modo a implementação de novas técnicas e a aquiescência a novos requisitos que os propósitos mais complexos, menos visíveis, de mais longo prazo e menos mensuráveis, que implicam a atenção para com os outros e o estabelecimento de relações com eles, diminuem em importância ou são pura e simplesmente sacrificados. (p. 92)

A pessoa é apanhada numa rede que a comprime, afectando profundamente a sua vida e, naturalmente, a sua identidade. Podemos ver a sua situação retratada, de uma forma muito vívida, na personagem do Coelho Branco da fábula de Lewis Carroll, Alice no País

da Maravilhas, o qual está sempre a correr e com a permanente aflição de que vai chegar

atrasado. Segundo Hall (1999), todas as identidades se situam no espaço e no tempo simbólicos, porque estes constituem as coordenadas básicas de todos os sistemas de representação. Deste modo, o efeito de compressão espaço-tempo modela também a nossa identidade.

Simultaneamente, o futuro parece ser menos previsível, gerando sentimentos de incerteza e insegurança mesmo entre aqueles que, anteriormente, pareciam ter “assegurado” o seu futuro, nomeadamente, através da obtenção de um diploma universitário. Como refere Jenkins (1996), a preocupação actual com a identidade será, provavelmente, em boa medida:

Um reflexo da incerteza produzida pela mudança rápida e pelo contacto cultural: os nossos mapas sociais já não se ajustam às nossas paisagens sociais. Encontramos outros cuja identidade e natureza não são claras para nós. Já nem sequer estamos seguros quanto a nós próprios; o futuro já não é tão previsível como parece ter sido para as gerações anteriores. (p. 9)

A juntar a estas transformações que afectam a forma como nos vemos a nós próprios, há a destacar a perda dos grandes referentes morais, dos projectos colectivos e das próprias “causas” morais (Dubar, 2000), assim como a perda de confiança na Ciência e na Tecnologia na busca racional do progresso (Hargreaves, 1998). Surgem as grandes

questões da legitimação do saber científico pondo em causa as suas metanarrativas, o que é definidor da condição pós-moderna (Lyotard, 1989). Precedeu-a, segundo o filósofo francês Jean François Lyotard, a era da narrativa das Luzes, em que “o herói do saber trabalha para uma boa finalidade ético-política, a paz universal” (p. 12). Uma das grandes narrativas da Ciência moderna consistia, pois, na ideia de emancipação da humanidade, a qual representava “a emancipação progressiva da razão, da liberdade e do trabalho e o aumento da riqueza pelo avanço da Ciência e da Tecnologia” mas que deixou de fazer sentido devido às graves crises que se fazem sentir hoje (Fernandes, 2000, p. 17).

Uma das consequências do fim das certezas morais e científicas tem sido o surgimento da preocupação com a própria pessoa como um valor fundamental e a adopção de certos estilos de vida, enfim, um centramento sobre o indivíduo (Dubar, 2000; Giddens, 1994). Substituindo os grandes valores que constituíam um referente importante na vida das pessoas, surge, de acordo com Touraine (2001), “um individualismo da autenticidade e da abertura aos outros”, o que na sua opinião se inicia “nos comportamentos mais próximos: a preocupação com o corpo, a estética”, na medida em que “a estima por si pressupõe o olhar do sujeito sobre si próprio” (p. 112). Por seu turno, Giddens (1994) salienta a relevância que a escolha de um estilo de vida assume na construção da auto-identidade devido à perda de peso da tradição e da ordem tradicional, bem como do confronto entre o local e o global. Existe um crescimento exponencial da preocupação com a interioridade, que é visível tanto na expansão dos sistemas de aconselhamento como no uso de drogas psicotrópicas (Dubar, 2000; Giddens, 1994; Hargreaves, 1998). Deste modo, quer consideremos, como Giddens (1994), que nos encontramos numa ordem pós-tradicional da modernidade, quer num mundo pós-moderno, como Hargreaves (1998), parece indiscutível que o sentido de individualidade e a auto-identidade, são profundamente afectadas pelas condições que caracterizam a sociedade actual, e que se tem transformado num “projecto reflexivo contínuo, tendo de ser constantemente refeito e reafirmado” (Hargreaves, 1998, p. 80). O conceito de identidade aparece frequentemente associado à ideia de crise, o que segundo Mercer se justifica pelo facto de que “a identidade somente se torna uma questão quando está em crise, quando algo que se supõe ser fixo, coerente e estável é

A construção da identidade profissional

deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza” (citado em Hall, 1999, p. 9). As crises identitárias relacionam-se com comportamentos económicos e relações sociais que se consideram estar também em crise e que parecem ser singulares quanto às suas manifestações e duração e aos mecanismos que a prolongam (Dubar, 2000).

A identidade tem vindo a ser amplamente abordada em várias áreas das Ciências Sociais, entre as quais, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, as Ciências Políticas, a Geografia, a História e a Filosofia, podendo até mesmo ser encarada, segundo Jenkins (1996), como um dos temas unificadores do debate intelectual na década de 90. No entanto, este afigura-se um conceito muito complexo e, segundo Hall (1999), também pouco desenvolvido e muito pouco compreendido nestas Ciências. Colocam-se então duas questões fundamentais nesta investigação: Será prudente trabalhar um conceito que parece ser tão ‘escorregadio’? Que ganhos poderão daí advir? Os argumentos apresentados, ao longo desta secção introdutória, apontam no sentido de que as identidades estão sofrendo transformações relevantes e que este é, portanto, um tema sobre o qual é possível produzir conhecimento novo. Deste modo, pensar a construção da identidade do professor em início de carreira, afigura-se um desafio intelectualmente estimulante, num momento em que muitas forças que caracterizam a actual condição social parecem apontar no sentido da desconstrução, dúvida e incerteza.