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No percurso filosófico de Husserl, na constituição de sua compreensão

fenomenológica acerca das vivências, ele expõe, detalhadamente, seu entendimento por

ato, em Investigações Lógicas, Cap. II, §10. Faz uma referência a Brentano, que vai à

essência do conceito de consciência no sentido de ato psíquico, e classifica os

fenômenos em psíquicos e físicos. Dessas duas determinações, Husserl empreende-se à

essência dos fenômenos psíquicos ou dos atos e não se atém às classificações

brentanianas, embora fundamentais para a Psicologia no seu todo.

Para o fenomenólogo, apenas temos em vista uma coisa como sendo importante

para nós. Essas são as diferenças essenciais específicas da relação intencional, ou da

intenção, constituinte do caráter descritivo genérico do ato. Entendemos, em Husserl,

atos como ação intencional onde um objeto fenomênico

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, como objeto intencional é

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Valemo-nos da expressão “objeto fenomênico” para dizermos do que se destaca, com os atos de

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“visado”, é “tido em vista”, ou seja, de acordo com Husserl (2006), em todo ato vigora

um modo de atenção. A realização de atos intencionais em um movimento complexo em

que se interligam sensações encarnadas, de modo a eclodir em um perceber o enlaçado

nesses atos, vai constituindo as vivências do fenômeno. Nessas vivências, o fenomenal

se dá como fenômeno.

O fenomenal, conforme Bicudo (2011), ao ser aclarado pelo olhar intencional

daquele que olha, já é fenômeno, isto é, já está enlaçado pela percepção

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. Destacamos

“daquele que olha”, pois nos lança à perspectividade. O fenomenal, assim entendido em

Husserl, revela-se como unidade fluidora de modos múltiplos de aparição, “[...] sempre

de novo cambiantes, de perspectivas particulares, de particulares diferenciações do aqui

e do ali subjetivos ” (HUSSERL,2013,p.15).

Visar a um objeto fenomênico é diferente do modo do juízo, que o toma,

valorativamente, como verdadeiro ou falso. Atos, segundo Husserl, em sua maioria são

vivências complexas cujas intenções são múltiplas. Para ele, “[...] é indubitável que,

pela análise desses complexos, chegamos sempre a caracteres intencionais primitivos

que, segundo a sua essência descritiva, não se deixam reduzir a vivências psíquicas que

sejam de outro tipo” (HUSSERL, 2012, p. 316); indubitável, também, que a “intenção”

mostra diferenças específicas que precedem a facticidade psicológica empírica.

A palavra ato vem do latim, actus: movimento; impulso; ação. Ales Bello (2006,

p. 32) nos traz que o termo ato está também em Husserl expresso pela palavra alemã, de

raiz latina. Akt. A autora nos diz que ele usa também outra palavra que só existe em

alemão, Erlebnis, formada de três partes, sendo que leb assemelha-se com a palavra

inglesa life, que significa vida. Essas acepções nos impulsionam ao entendimento,

conforme o exposto por Bicudo (2010, p.30), de que atos nos dizem de experiências

vividas, indicando ações que efetuamos e as quais vivenciamos. Falamos, assim de

constituição de pessoa humana, constituindo as coisas e os outros semelhantes com os

quais a comunicação dessas vivências se dá.

Retomemos as ideias essenciais desta seção.

Concernente à compreensão acerca das vivências, apreendemos sua característica

essencial. O conceito fenomenológico de vivência, sendo intencional, distingue-se do

conceito usual, que diz do processo de viver. Husserl trata desta distinção; diz que

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Segundo a autora, “[...] esse o sentido de afirmar-se que, para a fenomenologia, nada há fora da

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vivenciar, enquanto complexão de acontecimentos externos

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, consistindo em

ajuizamentos e outros atos, nos quais esses acontecimentos se dão em aparição coisal,

tornam-se “[...] uma aparição objetiva e, frequentemente, objetos de um ato de posição

referido ao eu empírico” (HUSSERL, 2012, p.300).

Contextualizando essa compreensão, se dissermos: “Vivenciei a promulgação da

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988”, o sentido dessa vivência,

conforme entendemos, reúne um acontecimento externo; o eu próprio, nesse discurso,

coincide com o eu alheio; refere-se a um conteúdo objetivo, abrangente, podemos dizer,

uma soma total, um todo real. Essa, uma confluência com o dito por Husserl acerca da

complexão de acontecimentos externos, sendo assim, diferente de vivências

intencionais.

Esses modos de aparição nos lançam na dimensão da temporalidade, dos

horizontes de atualidade e de potencialidade da vida. Cada cogito, diz Husserl

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, traz em

si próprio uma potencialidade, que lhe é imanente, que lhe abre a possibilidades de

vivências, voltadas ao mesmo objeto intencional e, realizáveis a partir do eu. A

experiência vivenciada tem uma duração, pois é um processo; de acordo com Bicudo

(2011), ela não diz de uma realidade puramente subjetiva; a experiência é a articulação

mundo e experiência. As vivências se dão no agora, e suas unidades de sentido enlaçam

uma mescla temporal, voltando e reunindo o passado vivido, como possível abertura ao

futuro, no contexto total de seus sentidos e significados. Assim, “Passado e Futuro estão

presentes à experiência, constituindo um horizonte que acolhe a interpretação”

(BICUDO, 2011, p.34).

A percepção prossegue e delineia antecipadamente um horizonte de

expectativa, como um horizonte de intencionalidade apontando para o

vindouro enquanto percepcionado, portanto, para futuras cadeias perceptivas.

Mas cada uma traz consigo também potencialidades, como „eu poderia olhar

para ali, em vez de para aqui‟, poderia dirigir de outra maneira o decurso

perceptivo do mesmo. Cada recordação iterativa reenvia-me para uma inteira

cadeia de recordações iterativas possíveis, até chegar ao agora atual e às

copresentificações que podem ser postas a descoberto em cada posição do

tempo imanente etc. (HUSSERL, 2013, p.17).

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Vivenciar os acontecimentos externos significa: ter certos atos de percepção, de cognição (seja como

for que determinem), e outros semelhantes dirigidos para estes acontecimentos. Este “ter” oferece-nos,

desde o início, um exemplo para o tipo, totalmente, diferente de vivenciar que está em questão no sentido

fenomenológico. Ele quer dizer apenas que certos conteúdos são elementos integrantes de uma unidade de

consciência na corrente de consciência, fenomenologicamente, unitária de um eu empírico. Este é, ele

próprio, um todo real, que se compõe realmente de múltiplas partes, e cada uma destas partes é

“vivenciada” (HUSSERL, 2012, p.300).

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Atentos aos sentidos desse excerto, retomamos as indagações, com as quais

abrimos este capítulo, buscando dizer dos modos pelos quais essas compreensões

engendram um pensar sobre a EaD e, também, aos modos pelos quais essa orientação

filosófica se mostra apropriada ao que estamos pesquisando, nos movendo nesse

aclaramento.

Passamos à descrição do modo como estamos vendo a atualização de um Curso de

Licenciatura em Matemática, na modalidade EaD, nessa perspectiva, intencional e,

mais focadamente, à nossa indagação de pesquisa, “Que Licenciatura de Matemática à

distância é essa, a oferecida pela UFJF?”.

Tendo anunciado que nos interessamos por compreender como a Licenciatura de

Matemática realizada à distância, acontecendo na atualização do seu projeto, buscamos

o sentido dessa atualização, ouvindo as pessoas que o vivenciam. Entendemos que

nossa investigação já se projetava nesse modo de proceder, convergindo com o

explicitado por Husserl em:

Toda análise intencional vai além da vivência da esfera imanente

momentânea e realmente dada, e certamente de tal maneira que, desvendando

as potencialidades, que agora são patenteadas de modo real e em horizonte,

ela expõe multiplicidades de novas vivências em que se torna claro o que era

apenas implicitamente visado e que, desse modo, já era intencional

(HUSSERL, 2013, p.18).

Com esse modo de análise, Husserl insere, conforme o mesmo reconhece

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, uma

nova metodologia, uma metodologia que entra em cena como possibilidade

investigativa rigorosa, onde objeto fenomênico e sentido devam ser, conforme o filósofo

recomenda: rigorosamente abordados. A Fenomenologia, aqui entendida como caminho

investigativo, desagrega constantemente, segundo o filósofo, o visar à respectiva

intencionalidade, ao expor sínteses preenchentes de sentido. “Explicitar a estrutura

universal da vida transcendental de consciência, na sua referência significativa e na sua

formação de sentido, é a colossal tarefa imposta à descrição” (Husserl, 2013, p. 18).

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Meditações Cartesianas, 2013, p.18

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