Contexto de criação de algumas empresas do pólo
Neste grupo se observou dois tipos de criação de empresas. Um deles é semelhante ao que havia sido notado no grupo dos graduados, em que há a associação de duas a três pessoas para a montagem de uma empresa de calçados. O SGN1 fala sobre este tipo de criação:
“Aí juntamos um pessoal e formamos uma empresa. Eu tinha meus 20 acho que 21 anos, 22 anos então desde lá começamo a trabalhar para formar empregos, né? E... Eu tinha vários sócios; até os meus 30 anos eu tinha 4 sócios, depois fiquei... aí depois, mais dois anos aí nós separamos a primeira sociedade que ficou com dois com uma empresa e mais 2 com outra empresa. Depois desses 2... Depois de dois anos, por interferência de
famílias, tudo, acabamos separando também e... cada um seguiu a sua trajetória, graças a Deus. Já faz 2 anos que eu estou sozinho com a empresa, né, inclusive eu tenho 2 empresas, por ‘n’ motivos e depois que eu me separei, que eu fiquei sozinho, que através até mesmo do sindicato, que eu me associei, eu fiquei sabendo do Projeto, né, do APL.”
O outro tipo de criação de empresas, identificada somente neste grupo de participantes, refere-se às empresas terceirizadas. Percebe-se que a criação desse tipo de empresas começa com uma empresa comum já existente no mercado, cujo dono recebe uma oferta de trabalhar para outra empresa maior, oferta esta mais segura, e algumas vezes, até mais lucrativa do que ter uma empresa comum. A seguinte fala do SGN2 relata sobre esse tipo de criação de empresa:
“Depois a Pé com Pé me convidou para terceirizar para eles. Eu pus na balança, porque eu produzia naquela época, 800 pares por dia. Ele ofereceu para eu terceirizar para fazer 3 mil pares por dia. Então que coloquei na balança e achei que era mais futuro terceirizar, que é mais sossego e mais garantido e o lucro seria até mais. Aí fui. Não me arrependi não. Faz 6 anos que eu estou lá, estou bem, graças a Deus. Não é assim uma coisa de arrebentar de ganhar dinheiro, mas tem uma tranqüilidade, né, sossegado, eu ameaço de parar, porque eu já... Minha idade já está avançada, eu ameaço de parar, ele não deixam: “não, de jeito nenhum, vai aí... tocando, vai...” E assim eu vou tocando, né? Estamos lá até hoje. E pretendo trabalhar mais um ano ou dois e parar também.”
Identificou-se ainda um caso particular de criação de uma das empresas terceirizadas em que o dono da empresa maior fez a oferta de terceirização não para outra empresa, mas sim para um funcionário, e se propôs a abrir uma empresa para ele como seu sócio. O SGN3 relata essa experiência:
“Aí eu acertei com ele e fui para a empresa Pé com Pé em 2000. Depois disso eu recebi uma proposta de outra empresa para ir trabalhar. O dobro de salário. Eu cheguei no Wagner e falei: Wagner, eu preciso sair, me afastar da empresa, eu quero fazer de uma boa… de um bom senso porque eu estou indo para a outra empresa”. Ele pegou e falou assim: qual foi a proposta que você teve? Falei assim: “não, é o dobro daqui”. Ele falou assim: “não, então esquece essa proposta, eu vou por você como meu sócio na sua unidade. Tá… o seu setor hoje vale 700 mil reais, que é o investimento de máquinas e nós vamos conversar e você vai ser nosso sócio. Vamos abrir uma empresa para você”. E aí abriram o setor de corte, mais o bordado, eu tinha 107 funcionários… e junto com eles. E deu muito certo.”
O SGN4, por ter uma experiência em representação e venda nacional e internacional, relata uma variação de como constituiu a sua empresa, também característica desse grupo:
“Em 2007 para 2008 essa pequena empresa quebrou aqui em Birigui; eu abandonei a outra representação porque eu tava…eu tinha me envolvido com a… com essa, com a parte de exportação, e aí… essa empresa quebrou; eu tinha, tenho um grande amigo que é meu sócio também hoje aqui na empresa, de montar um negócio. “Vamos para a China
ver o que a gente pode fazer lá”. Queria importar sapato, mas eu achei que não era adequado e montei uma indústria que vai completar agora em agosto 2 anos. Dessa indústria eu importo materiais, importo partes superiores do calçado para poder montar o sapato aqui”.
8.2.3. Fatores significativos dos participantes
Formação religiosa
A experiência religiosa de alguns empresários deste grupo é também determinante na formação e no modo como pensavam e como participaram do Cooperar para Competir. Segue o relato do SGN1 acerca de sua experiência religiosa e a relação que ele fez dela com o programa:
“Foi quando eu fui convidado. Falei: ‘imagine, ficar lá...’. Eu sou muito religioso, eu prego retiros também, eu sei o que é falar em público para o pessoal, para jovens, mas... assim... é interessante a forma deles dois passarem. É bacana. Eu gostei. E cada módulo, né, tem uma abordagem de um assunto. Foi muito bom...[...] então, ah, tá, então, quando eu era mais jovem nós ficávamos 3, 4-5 dias de retiro. Aí sim... Eu fui por essa experiência, assim...porque como a gente já tem essa experiência de... de... ficar em lugares até meio retirado, só ouvindo palestras... . Em si eu sou católico, mas bastante praticante. A gente tem uma comunidade chamada Maria de Nazaré, que... a... a gente trabalha com jovens assim em recuperação de entorpecentes. Sabe? Então, é uma comunidade terapêutica, então a gente ajuda na formação, a gente sempre tá levando, toda semana, palestras, para eles, incentivos, motivações para eles continuarem, não desanimarem. Então, nos domingos de vistia, que a gente vai quase todos os domingos nós vamos lá visitar, ficar com eles. Ficamos às vezes em retiro com eles também. É uma forma, né, de tá levando também... essa forma, né, pra... Talvez a gente só com palavras não resolve nada, mas talvez com a presença, dizer ‘Olha, dá certo, vamo lá, é possível...’, algo acontece, quer dizer, alguma coisa de bom a pessoa está pegando sempre. Eu vejo nesse ponto o quanto é importante tá falando do Cooperar para Competir dentro assim da área profissional, do trabalho... Então é mais isso. Viajei, né?”