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No estudo qualitativo e exploratório de fenômenos sociais é comum a utilização de técnicas que exigem contato direto com o objeto de estudo, uma vez que este tipo de estudo muitas vezes apresenta desafios diferentes e possivelmente mais complexos do que os encontrados em estudos quantitativos. Assim, a observação e a coleta de dados, por exemplo – métodos que não requerem contato com o objeto - nem sempre são suficientes para que se possa entender e analisar um fenômeno, situação que obriga a busca de outras técnicas. Dentre essas técnicas estão a entrevista e o questionário, nos quais “dá-se um grande peso aos relatos verbais dos sujeitos para a obtenção de informações sobre os estímulos ou experiências a que estão expostos e para o conhecimento de seus comportamentos.” (COOK, SELLTIZ & WRIGHTSMAN, 1987, p.15)

Os relatos verbais são, portanto, de extrema importância para uma pesquisa qualitativa e que utiliza o estudo de caso uma vez que são ricos em informações não só pelo seu conteúdo, mas também pela maneira como são dados, pois o pesquisador tem a oportunidade de observar a situação em que a resposta ocorre, as reações do entrevistados e outras características que podem complementar a análise.

Uma das formas de se obter o relato verbal é, como dito anteriormente, por meio da entrevista. A entrevista é um encontro entre duas ou mais pessoas para que uma parte obtenha a informação a qual a outra parte provavelmente possui. Mais do que isso, na entrevista não se busca apenas informação, mas o entendimento de todo um contexto oferecido, em parte, pela figura do entrevistado. Os objetivos que levam à utilização dessa técnica podem ser os mais diversos, mas, segundo Selltiz (1965, p. 286-295 apud MARCONI & LAKATOS, 2010, p. 179) são seis os tipos de objetivos geralmente observados:

a) Averiguação de “fatos”;

b) Determinação das opiniões sobre os “fatos”; c) Determinação de sentimentos;

d) Descoberta de planos de ação; e) Conduta atual ou do passado;

f) Motivos conscientes para opiniões, sentimentos, sistemas ou condutas. As entrevistas apresentam ainda diversas vantagens segundo Cook, Selltiz e Whrightsman (1987, p. 19): o índice de resposta é maior, pois é comum que as pessoas se proponham a cooperar quando o único requisito é que elas disponham de algum tempo para falar; a melhor capacidade de expressão, já que nem todas as pessoas conseguem se expressar adequadamente, ou da maneira que gostariam, por escrito; a elasticidade na duração, que permite que a entrevista seja tanto rápida ou demorada, de acordo com a disponibilidade e vontade do entrevistado, possibilitando que sejam conseguidas inclusive informações inesperadas ou complementares. Marconi e Lakatos (2010, p. 181)

complementam a lista de vantagens com a possibilidade da entrevista ser feita com pessoas de diversos segmentos da população, dependendo de sua finalidade, e com a oportunidade de obtenção de dados não encontrados em outras fontes, os quais podem ser valiosos para o estudo.

No entanto, estes autores citam também limitações dessa técnica como, por exemplo, a possibilidade do entrevistado ser influenciado, consciente ou inconscientemente, pelo entrevistador; o pequeno grau de controle sobre a situação de coleta de dados, a dependência da disposição do entrevistado em dar informações relativas ao assunto da pesquisa ou a retenção de dados por medo que a sua identidade seja revelada.

Em se tratando do estudo de caso do Programa Cooperar para Competir, a técnica utilizada foi a entrevista aberta ou não dirigida. Neste tipo de entrevista “há liberdade total por parte do entrevistado, que poderá expressar suas opiniões e sentimentos. A função do entrevistador é de incentivo, levando o informante a falar sobre determinado assunto, sem, entretanto, forçá-lo a responder”. (MARCONI & LAKATOS, 2010, p. 180). Outros autores acreditam que a entrevista aberta é utilizada quando se busca entendimento aprofundados de percepções, atitudes e motivações, pois, se bem empregada na sua flexibilidade, ela “ajuda a levantar os aspectos afetivos e valorativos das respostas dos entrevistados e a determinar o significado pessoal de suas atitudes”. (COOK, SELLTIZ & WRIGHTSMAN, 1987, p. 41) É interessante observar que, com a utilização desta técnica, é o entrevistado que define o campo a ser explorado, já que não há uma estrutura pré-determinada a ser seguida. Essa verbalização menos limitada facilita

a produção de significações fortemente carregadas de afetividade, mesmo quando se apresentam como estereótipos: o que nós procuramos pôr à luz, de fato, é a lógica subjacente às associações que, a partir da instrução inicial [dada pelo entrevistador21], irão

levar o entrevistado a abordar tal ou qual tema, a voltar trás ou progredir para outros temas. (MICHELAT, 1975 apud THIOLLENT, 1981, p. 85)

Michelat (1975) reafirma, como mostrado anteriormente, que não são apenas as verbalizações objeto de análise, mas também as hesitações, os silêncios, os risos, os lapsos, todos considerados reveladores de significação latente. A análise de todo o conjunto dá pistas sobre os modelos culturais em que estão imersos os indivíduos e a influência dos grupos sociais a que pertencem, uma vez que “cada indivíduo é portador da cultura e das subculturas às quais pertence e que é representativo delas”. (MICHELAT, 1975).

A entrevista não dirigida exige, contudo, alguns cuidados em sua execução e, por ser um método comumente usado em pesquisas qualitativas, tem características diferentes das entrevistas encontradas em pesquisas quantitativas. Na pesquisa quantitativa há uma grande preocupação na escolha da amostra, que deve ser representativa do universo estudado e composta por indivíduos escolhidos ao acaso, de forma a não criar vieses. No entanto, na pesquisa qualitativa a preocupação amostral é diferente: geralmente o grupo amostral é pequeno e composto por indivíduos que, por si só, são representativos, porque “detém uma imagem, particular é verdade, da cultura (ou das culturas) à qual pertence.

Tenta-se aprender o sistema, presente de um modo ou de outro em todos os indivíduos da amostra, utilizando as particularidades das experiências sociais dos indivíduos enquanto reveladores da cultura tal como é vivida”. (MICHELAT, 1975)

A amostra é, portanto, composta por indivíduos que têm características importantes ao estudo, ou, ainda segundo o autor, por “variáveis estratégicas”, sendo estas definidas em função de reflexões teóricas e estudos anteriores.

Em relação à abordagem a ser utilizada na entrevista aberta, há alguns pontos que merecem reflexão afim de que se alcance melhores resultados. Rodrigues (1978) acredita que a escolha entre um contato mediado por uma pessoa de confiança do grupo a ser estudado e um contato direto, feito pelo pesquisador até então desconhecido, influencia nas respostas dadas durante a entrevista, uma vez que “falar a um desconhecido evita o surgimento de fantasias de que, começando pelo “mediador”, as informações correrão por toda a rede social do informante” (RODRIGUES, 1978, p. 41). Assim, um entrevistador previamente desconhecido daria maior liberdade e privacidade para os indivíduos. Além disso, a autora acredita que a abordagem deve ser honesta, sem qualquer subterfúgio que pudesse eventualmente facilitar o trabalho do pesquisador, mas, ocasionalmente, ser encarado como uma mentira pelo entrevistado, já que, nesse tipo de entrevista, ela acredita ser “necessária uma grande abertura emocional, de tipo contratransferencial, para se poder captar níveis mais profundos de representações dos entrevistados” (RODRIGUES, 1978, p. 37). No caso da nossa pesquisa, no entanto, o entrevistador já era conhecido pelos sujeitos, ainda que o contato tenha sido breve. Ainda assim, como explicado anteriormente, esse fato foi considerado e trabalhado para que não atrapalhasse os trabalhos.

Ainda tratando da abordagem, observa-se que o ato de falar de si mesmo ou de uma situação pode ser desconfortável ou causar ansiedade em algumas pessoas, ambas as sensações que podem ser trabalhadas pelo entrevistador para deixar o indivíduo entrevistado mais confortável, esclarecendo, por exemplo, que não há uma “resposta certa” ou um caminho que deve ser necessariamente seguido na narrativa.

A utilização do gravador é de extrema importância na técnica de entrevista aberta, mas pode causar inicial desconforto no entrevistado, sendo, portanto, a permissão para a sua utilização absolutamente necessária uma vez que ele gera um registro do relato dado. Apesar do possível desconforto, o gravador se torna, com o passar da entrevista, uma ferramenta razoavelmente inobstrusiva, desde que não seja freqüentemente manuseado durante a mesma. Algumas anotações feitas pelo entrevistador geralmente são necessárias durante a entrevista, mas não devem tirar o foco do entrevistado ou distraí-lo mais que por um breve instante.

Rodrigues (1978) defende que essa técnica exige um trabalho constante do entrevistador de limitar a interferência no relato ao mínimo. Deve ser adotada uma postura atenta, de aceitação e interesse, além de evitar comentários que qualifiquem de alguma forma o relato. A narrativa não deve ser interrompida para esclarecimentos uma vez que a linha de raciocínio é de interesse para a análise do discurso e, portanto, um local mais reservado é ideal para a entrevista. Por fim, algumas habilidades são interessantes para a condução da entrevista aberta como demonstrar paciência – valendo- se inclusive do silêncio, que incomoda bastante algumas pessoas, para que o entrevistado retome a narrativa – e encorajar a continuidade da entrevista por meio de atitudes sutis.