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3.6 CRIN – Access to justice for children

3.6.1 CRIN – summary

Ao partirmos da perspectiva de Kellner (2001) sobre mídia e identidade, a cultura veiculada pela mídia contribui na tessitura do cotidiado. Isso porque oferece diversos elementos que contribuem na formação da identidade. Entre as formas e mensagens transmitidas, as representações contribuem na produção de sentido, constituindo imagens e abordando fenômenos que ajudam a interpretar diversos aspectos da realidade.

De acordo com Hall (2016), a representação pode ser entendida como uma das práticas centrais na produção da cultura, uma vez que é a partir da construção de significados compartilhados que há a formação desta (a cultura, aqui entendida como um conjunto de práticas, a respeito da produção e compartilhamento de sentidos entre indivíduos que compõem um grupo ou comunidade). Para o autor, a linguagem opera como um ―sistema representacional‖, capaz de atuar na construção de significados com os quais podemos dar sentido ao mundo e o interpretamos de maneira semelhante.

Em outra parte ainda, nós concedemos sentido às coisas pela maneira como as representamos – as palavras que usamos para nos referir a elas, as histórias que narramos a seu respeito, as imagens que delas criamos, as emoções que associamos a elas, as maneiras como as classificamos e conceituamos, enfim, os valores que nelas embutimos (HALL, 2016, p. 21). Em resumo, para o autor, uma abordagem construtivista da ―representação diz respeito à produção de sentido pela linguagem‖ (p.32). Um processo que não ocorre de maneira simples, uma vez que envolve a relação entre a concepção das coisas – pessoas, objetos,

ideias, etc., dos chamados mundo real e abstrato –, os conceitos e os signos atribuídos a essas, na produção de um sentido comum.

Cabe destacar que essa representação não ocorre como um simples reflexo do objeto, mas a partir da produção de um sentido dentro da própria linguagem a esse respeito. Os códigos que operam nessa construção são resultado de convenções sociais. ―Eles formam uma parte crucial da nossa cultura – nossos ‗mapas de sentido‘ compartilhados – que aprendemos e, inconscientemente, internalizamos quando dela nos tornamos membros‖ (HALL, 2016, p. 54).

Dessa maneira, o sentido também é produzido e atribuído nas diversas mídias e produtos culturais consumidos, ―deles fazemos uso ou nos apropriamos; isto é, quando nós os integramos de diferentes maneiras nas práticas e rituais cotidianos e, assim, investimos tais objetos de valor e significado‖ (HALL, 2016, p. 22). Utilizamos essa representação, por exemplo, na construção e concepção das identidades, identificação das diferenças, no que consumimos e na atribuição de valores culturais.

Já em uma outra perspectiva, a da Teoria das Representações Sociais, tais representações podem ser vistas no senso comum, nos saberes populares, nas religiões, nas ideologias e na mídia (MOSCOVICI, 1995). Elas contribuem na formação dos afetos entre o sujeito em relação ao mundo, tanto na forma como ele age em relação ao seu exterior como constrói a si próprio. Neste tópico, nos aproximamos da Teoria das Representações Sociais, que teve origem com o trabalho de Moscovici Psychanalyse: Son image et son public (1961). De acordo com Farr (1995), esse trabalho representa uma continuidade dos estudos de representações coletivas de Durkheim, estudando as representações sociais como uma forma sociológica de psicologia social.

Ao tratar da Teoria das Representações Sociais, Guareschi e Jochelovitch (1995) afirmam que ―tanto na cognição como os afetos que estão presentes nas representações sociais encontram a sua base na realidade social‖ (p. 20). Para os autores:

O modo mesmo da sua produção se encontra nas instituições, nas ruas, nos meios de comunicação de massa, nos canais informais de comunicação social, nos movimentos sociais, nos atos de resistência e em uma série infindável de lugares sociais. É quando as pessoas se encontram para falar, argumentar, discutir o cotidiano, ou quando elas estão expostas às insituições, aos meios de comunicação, aos mitos e à herança histórico- cultural de suas sociedades, que as representações sociais são formadas (GUARESCHI; JOVCHELOVITCH, 1995, p. 20).

Os meios de comunicação e seus produtos (entre eles, as telenovelas) apresentam diversas representações simbólicas que atuam no imaginário e indicam modos de entender e criar sentido em relação ao mundo, usando de emoção, paixão, imaginação, afetos.

Ainda de acordo com Jovchelovitch (1995), as representações sociais se articulam na vida coletiva e a contituição simbólica do sujeito ao ―dar sentido ao mundo, entendê-lo e nele encontrar o seu lugar, através de uma identidade social‖ (JOVCHELOVITCH, 1995, p. 65, grifo da autora). Essa relação com o espaço público é complexa, uma vez que este é o lugar da alteridade, que tanto pode fornecer as representações em relação ao Outro, como também é na alteridade que se encontra a condição necessária para o desenvolvimento simbólico do sujeito e na constituição do Eu (grifos da autora). A autora enfatiza a relevância do espaço simbólico na constituição da realidade do mundo material. Para ela, é através dos símbolos que é possível evocar referenciais de uma realidade compartilhada. Com isso, é possível desenvolver e sustentar saberes sobre a própria comunidade.

A autora destaca também o papel da comunicação nesses processos, uma vez que as representações estão inseridas na própria comunicação e nas práticas sociais. Esse fenômeno está atrelado ao tecido social, através do diálogo, discurso, rituais, padrões, arte e a cultura, que são processos de mediação social.

Sobre isso, Spink (1995) salienta as representações sociais como formas de conhecimento. De acordo com a autora, devem ser entendidas ―a partir do contexto que as engendram e a partir de sua funcionalidade nas interações do cotidiano‖ (SPINK, 1995, p. 118). Na abordagem da autora, a construção de sentido se dá a partir dos conteúdos que circulam na sociedade e as forças decorrentes do processo de interação social, que lidam com pressões para confirmar e manter identidades coletivas, dentro de um contexto ―intertextual‖. ―Ou seja, é a justaposição de dois textos: o texto sócio-histórico que remete às construções sociais que alimentam nossa subjetividade; e o texto-discurso, versões funcionais constituintes de nossas relações sociais‖ (SPINK, 1995, p. 122).

Minayo (1995) destaca o papel da linguagem como mediadora da forma de conhecimento e de interação social. Para a autora, as representações se manifestam em ―palavras, sentimentos e condutas‖. Consideradas como categorias de pensamento, de acordo com a pesquisadora, expressam a realidade, podendo explicá-la, justificá-la ou até questioná- la. Por isso, devem ser observadas de forma crítica, uma vez que podem possuir núcleos de transformação e de resistência na forma de se conceber a vida (p. 109).

Ao trazermos a discussão sobre representações sociais para as narrativas televisivas, evocamos, mais uma vez, o caráter da telenovela de apresentar-se como uma crônica do

cotidiano e da realidade partilhada. A mídia também se torna uma forma de cultura e oferece material simbólico para formação de identidade, comportamentos, e até opiniões (KELLNER, 2001). A televisão, presente na maioria dos lares do país, exerce forte influência nessa formação do simbólico, também pelas narrativas, apresentando determinados temas a serem pensados e, também, modelos de como se portar diante do que é diferente, do Outro.

Goffman (1985) utiliza o termo ―representação‖ ao tratar do desempenho de um papel por um indivíduo diante de observadores. Para o autor, o termo se refere ―a toda atividade de um indivíduo que se passa num período caracterizado por sua presença contínua diante de um grupo particular de observadores e que tem sobre estes alguma influência‖ (GOFFMAN, 1985, p. 29). Essa influência pode ser percebida nos meios de comunicação de massa, influenciando no comportamento e maneiras de pensar dos telespectadores (MENDONÇA; SENTA, 2012).

Retomando as ideias de Kellner (2001), as representações têm o poder de dar força a pensamentos conservadores, mas podem também insurgir expressões progressistas no que diz respeito às minorias (sexuais, de gênero, étnicas, entre outras), sendo espaço de abertura para a quebra de estigmas e estereótipos.

Silva (2016) destaca que, assim como as representações sociais, as narrativas das telenovelas também buscam fazer aquilo que não conhecemos como algo familiar, capazes de ―mostrar a relação dos personagens como o mundo, bem como de situar essas personagens nesse mundo‖ (SILVA, 2016, p. 35). Para a pesquisadora, as representações podem ser uma maneira em que o imaginário popular pode interagir com o contexto social, garantindo o lugar social do sujeito no mundo (através de sujeitos ficcionais que assumem os valores sociais presentes).

No caso de lésbicas, gays, transexuais e transgêneros, por muito tempo representações estereotipadas acabaram por reforçar preconceitos contra esses grupos. Segundo Beleli (2009), ao longo das últimas décadas, ocorreram mudanças na representação desses sujeitos, indo além das figuras caricatas. Porém, a autora destaca a utilização de outro discurso nas tramas que privilegiariam modos se viver de gays e lésbicas, próximos a de heterossexuais. Com isso, as personagens e histórias, mais próximas dos modos de uma família tradicional, não se desviando tanto da norma. Esses modelos privilegiariam gays ou lésbicas alinhados ao padrão de gênero que se espera, que não ―dão pinta‖, sérios, relacionamentos monogâmicos e também constituição de família pela geração ou adoção de uma criança. Para a autora, ao fugir então do esterótipo da caricatura, essas personagens iriam para outro espectro de representação estereotipada de algo que seria considerado ―normal‖ pelo público. De acordo

com Lopes (2004), o estereótipo ―tem pelo menos um mérito em iniciar um diálogo que pode dissolver o próprio estereótipo pela dinâmica dos conflitos sociais‖ (LOPES, p. 3).

Essas representações são importantes para se pensar no uso de estereótipos na construção de personagens. Se, por um lado, o uso de estereótipos na representação pode facilitar a identificação do público e ajudar na compreensão de uma realidade, por outro, não ocorre de forma neutra, trazendo uma visão simplificada em relação ao diferente. Assim como a representação, o estereótipo pode ser utilizado na construção do simbólico, ajudando a interpretar certos eventos e imagens. Em outro sentido, ao se referirem a grupos sociais específicos, podem adquirir cargas negativas em relação às suas diferenças, partindo de aspectos surpérfluos para a classificação de pessoas ou grupos (MAZZARA, 1999). Ainda de acordo com Mazzara (1999), assim como os preconceitos, os estereótipos adquirem cargas negativas em nossa sociedade, surgindo da tentência em categorizar grupos. O autor aponta três variáveis comumente utilizadas na definição dos estereótipos:

(1) o grau em que é compartilhado por um grupo social e que, portanto, faz parte da cultura; (2) o grau em que se generaliza todo o grupo objeto ou se consideram exceções; e (3) o grau em que é rígido e imutável ou é um fenômeno contingente cuja eliminação é plausível.

Nesta linha, pode-se considerar que o estereótipo é o núcleo cognitivo do preconceito (MAZZARA, 1999, p. 1, tradução nossa).

Essa projeção sobre o outro não é neutra, partindo de noções pré-estabelecidas sobre o outro. No entanto, embora esteja carregada de juízo de valor, nem sempre a carga é negativa, podendo auxiliar na compreensão do mundo. De acordo com Espíndola, a identificação dos conteúdos disponíveis em veículos de comunicação é realizada através de estereótipos (ESPÍNDOLA, 2013, p. 27). A autora ressalta que as mídias não têm poder total na formação do indivíduo, seus gostos, reações, etc., mas perpetua estereótipos e conceitos através de uma ideia de construção da realidade (p. 41).

Já para Hall (2016), o uso de estereótipos para representar a diferença, o ―outro‖, o reduz a características simplificadoras, tratadas como fixas, demarcando justamente em sua diferença. Hall difere o estereótipo da tipificação, que seria a classificação simples e facilmente compreendida e reconhecida sobre o outro. A diferença está, de acordo com o autor, na exploração desses poucos traços (geralmente depreciativos), fáceis de serem identificados e reconhecidos sobre ―o diferente‖, são depois ―exagerados e simplificados‖. Segundo Hall, para além da produção de sentido sobre o outro, ―a estereotipagem reduz,

Para além disso, a estereotipagem é uma estratégia de divisão entre o que seria considerado ―normal‖ para uma cultura e o que seria o ―anormal‖, que não deve ser ―aceitável‖. Com essa estratégia de exclusão, são delimitados os limites do que cabe dentro de uma ordem social, excluindo aquilo que não pertence a essa ordem. O diferente, mais que isso, se torna aquele que está fora dos limites, o que é considerado inaceitável e até patológico.

Hall (2016) ainda destaca que ―a estereotipagem tende a ocorrer onde existem

enormes desigualdades de poder‖ (p. 192, grifos do autor), sendo voltado contra os grupos

que são excluídos. O autor atenta para grupos excluídos (que estão fora da hegemonia de poder), e a representação desses grupos na mídia, principalmente a de negros, mas também a de mulheres e de estrangeiros – ou, no nosso caso, as representações dos sujeitos LGBTQ+.

Baccega (1998) sustenta que o estereótipo está nos padrões pré-conbebidos por meio da cultura, sendo transmitido através da linguagem, e que podem facilitar a leitura da realidade cotidiana. Os relatos, representações, o modo como tomamos conhecimento daquilo que acontece no mundo, inclusive através dos meios de comunicação, estão impregnados de noções estereotipadas, valores de uma cultura a qual aquele que relata pertence. Ao nos situarmos no mundo também através dos produtos midiáticos, passamos a receber os relatos mediados por esses meios, e esses elementos que contribuem para a formação de nossa compreensão de mundo. Contudo, a autora atenta para os limites sociais em que não são oferecidos aos sujeitos ―possibilidades reais de inserção na sua sociedade, numa interação em que ele seja efetivamente sujeito, em que ele tenha voz e sua voz seja respeitada‖ (BACCEGA, 1998, p. 9), fazendo com que o indivíduo só ―veja‖ aquilo que está pronto diante dele, impregnado de estereótipos.

Lopes (2004), chama a atenção sobre as imagens estereotipadas (negativas) de gays, lésbicas e transgêneros também nas telenovelas, que muitas vezes acabam reforçando preconceitos. Mas o pesquisador destaca que a repetição de imagens positivas únicas não dá conta das nuances das identidades e sexualidades. Só substituir as imagens negativas/grotescas por positivas resulta em uma outra extremização, ―ao criar novos esterótipos, desta vez idealizados e romantizados, como o dos personagens gays masculinos em recentes comédias românticas como o novo herói romanesco‖ (LOPES, 2004, p. 66). Não seriam então as reproduções apenas de imagens positivas que quebrariam os preconceitos sofridos por esses sujeitos. Para o autor, há a necessidade de reprodução de uma diversidade de narrativas sobre essa temática.

Essas narrativas também estão relacionadas com o pensamento de um tempo. Peret (2005) aponta que a telenovela acompanha sua época ―procurando inovar apenas em terreno em que a emissora considere ‗sólido‘, buscando atender à gama de preferências do público a fim de manter a audiência alta‖ (p. 43). A participação dos sujeitos LGBTQ+ nas produções brasileiras ainda enfrenta barreiras apesar de um movimento de maior visibilidade e destaque nas tramas nas duas últimas décadas.

Essas diferentes representações também podem ser vistas em uma primeira mirada na obra de Aguinaldo Silva e que serão analisadas nos próximos capítulos. O autor foi responsável pela criação de personagens que utilizaram da caricatura e estereótipos de comicidade e, ainda assim, se destacaram ao longo das tramas, como Uálber e Edilberto, em

Suave Veneno (1999); Téo Pereira, em Império (2014); e o Crô, em Fina Estampa (2011), que rendeu uma sequência, Crô – O Filme, lançado em 2013, comédia que alongou a história do personagem para além do encerramento da telenovela. Mas, também, trouxe à TV aberta debates sobre herança e união civil, ao abordar, em Vale Tudo (1988), telenovela em que foi coautor, colaborando com Gilberto Braga e Leonor Bassères, a morte de Cecília, que vivia uma união com Laís e tinham em comum a propriedade de uma pousada. Também o direito a adoção por casais homossexuais e por pessoas que não se enquadram no binarismo de gênero, temas abordados em Senhora do Destino (2004) e em Império (2014) – citando alguns exemplos de como os temas foram abordados em diferentes momentos.

Qual a importância, então, da representação na mídia e nas telenovelas de certos grupos sociais? Em que medida tais representações podem influenciar no reconhecimento do público – seja por parte da identificação das minorias, ou na construção simbólica dos demais espectadores a partir dessas representações? E quem são esses sujeitos que, muitas vezes, são apresentados por meio dos estereótipos? A discussão sobre identidades e sexualidades, fundamental para a compreensão de nosso trabalho será feita no próximo capítulo.

CAPÍTULO 2 – LGBTQ+: CONTEXTUALIZANDO IDENTIDADE, SEXUALIDADE