Já em 1992, o autor traz à cena o dilema de ―sair do armário‖, em Pedra sobre Pedra. Adamastor, interpretado por Pedro Paulo Rangel, é diretor do Grêmio Recreativo da cidade. Apaixonado desde sempre pelo seu amigo e dono do Grêmio, Carlão (Paulo Betti). Na verdade, Adamastor tem uma verdadeira devoção por Carlão, fazendo as vezes de grande amigo, confidente e salvador.
Ficava claro para o espectador o amor incondicional que Adamastor sentia pelo seu melhor amigo, que retribuía com grosserias e chantagens para receber favores. Mas, apesar do sentimento não correspondido, não há introdução, a princípio, de outros pares ou interesses para Adamastor. Da mesma forma, a homossexualidade de Adamastor não é motivo de especulação ou escárnio de outros personagens da trama, até pelo fato de, ainda sem revelar sua condição homoafetiva, o personagem não apresenta, para os outros habitantes de Resplendor, outros indicativos dela. O estigma a respeito do personagem diante da sociedade em Resplendor, era sobre seu trabalho no Grêmio, que funcionava como uma casa de jogos e também como bordel – a atividade no Grêmio era chamada pelo personagem de ―função‖.
Foi só ao fim da trama, com a chegada do policial Paulo Henrique (Reinaldo Gonzaga), com as descrições sobre como o perfil de Adamastor reflete o perfil de um homossexual e de ainda estar escondido dentro do armário, que o personagem se entendeu como uma identidade gay – para além do amor devoto pelo amigo. Na continuação do diálogo em que Paulo Henrique trata da estética de Adamastor, o policial sugere ao gerente que há mais ―cores‖ além do preto e branco – metáfora para uma dicotômia entre sexo e orientação sexual.
Paulo Henrique e Adamstor, no quarto do dono do Grêmio:
Paulo Henrique: Quando eu cheguei aqui e vi essa chapada toda, eu fiquei
impressionado com a força da natureza. Com a nitidez das cores da mata. Do céu, da lua. Com a transparência das águas dos rios. Eu me assustei um pouco. Mas eu descobri outras tonalidades que eu não conhecia. Por que na natureza, Adamastor, não existe só o preto e o branco. Entre eles existe o cinza. E dentro desse cinza, milhares de tons diferentes. A gente nasce desse jeito. Cada um diferente do outro. Ninguém tendo a mesma impressão digital em toda a história da humanidade, mas não é louco isso? Eu fiz um curso
sobre isso na polícia. Impressões digitais. A gente tem que ser o que é, Adamastor. E se a gente tem vergonha de se mostrar como é, pra quê tá aqui? Se a gente esconde a nossa impressão digital, camufla, finge que é igual a do outro.. Que graça teria se fossem todos iguais? Né? (CLOSE NAS MÃOS) Se você, se você parar de se esconder, você vai descobrir que é diferente dos outros sim (Adamastor tira a mão). Como é diferente o cinza claro do azul escuro. Porque a natureza, Adamastor, tem lugar pra tudo. Até pras cores que ainda não foram descobertas. Eu passo qualquer hora aqui para nós tomarmos um café. Mais claro, ou mais escuro. Tanto faz pra mim. (Lola entra e interrompe o clima. Paulo Henrique sai).
Lola: Que que esse sujeito queria?
Adamastor: Tenho certeza ainda não, coração. Mas eu acho que ele está
certo, viu. Entre o preto e o branco tem o cinza. E todos são tão bonitos. Como qualquer outra cor.
Lola: Do que que você tá falando, Adamastor?
Adamastor: Estou falando que eu só me senti sozinho aqui. Sempre em
senti diferente aqui nesta cidade. Porque aqui é tudo preto no branco. Mas quem sabe eu agora não posso provar que o cinza também tem vez?
Após o processo de se entender como homossexual, o personagem passa pelo rito de se colocar como gay diante da sociedade. Adamastor não tem família – a mãe morreu – e suas companhias são as mulheres que trabalham no Grêmio, que já demonstravam saber sobre sua paixão, não havendo, portanto, a fala dele diante delas. A pessoa para quem o personagem dirige-se para revelar sua identidade gay é para o amigo Carlão – mesmo sabendo dos riscos de perder as conexões e os vínculos estabelecidos por assumir a identidade (NUNAN, 2003).
Adamastor nervoso. Antes da chegada de Carlão, arruma o quarto, passa perfume… Carlão entra.
Carlão: Então, Adamastor. Que é que você tinha assim de tão urgente pra
falar comigo?
Adamastor: Eu... Eu quero lhe falar do amor que eu sinto, que eu sentia e
sempre vou sentir por você. Gancho intervalo.
Volta neles.
Carlão: Eu acho que passou um automóvel com uma descarga aberta lá fora
e eu não entendi direito o que você falou, Adamastor.
Figuras 83 e 84: Detalhes das mãos de Paulo Henrique e Adamastor (Reinaldo Gonzaga e Pedro Paulo Rangel), no momento em que o policial utiliza as impressões digitais como metáfora para afirmar que as pessoas são
Adamastor: Passou foi? Deixe que eu fecho a janela. Pronto. Eu... eu estava
lhe falando, Carlão, do que eu sinto por você. Eu achava que era... Amizade... Esses anos todos. Só amizade. Mas, eu mesmo. Eu sozinho. Eu, comigo mesmo. Eu não assumia que o que eu sinto por você é amor.
Carlão: Espera um minutinho só, Adamastor. Você me desculpe lhe
interromper mas acontece que eu acho que não estou entendendo direito o que você tá querendo me dizer.
Adamastor: Mas, se eu estou querendo lhe explicar da minha coragem que
eu estou tendo de trazer as coisas até aqui, até esse momento. É que esse caminho está sendo muito difícil pra mim, Carlão.
Carlão: Adamastor, você não precisa perder tempo explicando nada. Vai
direto ao assunto, assim quem sabe eu consigo entender o que você tá querendo me dizer.
Adamastor: Eu... Eu vou chegar lá no ponto. Oxente. Mas, eu cheguei,
Carlão, eu falei de uma maneira até direta demais. Eu nunca pensei que eu pudesse ser tão direto. Nunca foi do meu feitio. É, porque, desde que eu resolvi sair de dentro do armário.
Carlão: E o que é que você tava fazendo lá dentro?
Adamastor: Não. Oxente. É só uma maneira de falar. A gente quando diz
isso. Bom, não importa. Aah. Eu... Você... Nós, quando… oh meu Deus do Céu. Eu estava com tanto fôlego, tava tudo tão encaminhadinho, você fica aí me olhando, com essa cara de quem não está entendendo nada. Eu estou me sentindo fraquejar, meu Deus.
Carlão: Mas é que realmente eu não estou entendendo nada.
Adamastor: Oh, Carlão. Não faça assim comigo não, por favor. Não faça
assim. Tô aqui eu sentindo a minha coragem evaporar feito água da chuva quando bate na água quente. (suspira) eu esperei tanto por esse momento a minha vida toda. Veja por favor, esse momento é importante pra mim.
Carlão: Eu sei, Adamastor. Eu to tentando lhe entender. Eu atendi o seu
chamado, estou aqui. Estou lhe ouvindo. Pois bem. Fale o que você tem que falar. Sou todo ouvidos.
Adamastor: Carlão. Você, quando a gente era meninote, criançola, eu
sempre lhe adorei, Carlão. Eu vivi a minha vida toda em função da sua. Você é a razão de ser. Você é o que dá sentido. A minha vida só tem sentido. Você é a justificativa pra eu estar aqui neste mundo agora. Carlão, eu... A minha adoração por você Carlão, é uma coisa tão... É... Eu… gosto mais de você do que de mim mesmo. É. Oxente, eu não sei mais o que dizer, como vou falar isso pra você. Eu. Eu lhe amo.
Carlão (levanta de rompante): Se é assim. Muito bem, Adamastor. E o que é
que você tinha assim de tão urgente, de tão importante pra me dizer?
Adamastor: Oxente. Não é possível, Carlão. Não estou lhe entendendo.
Eu... Eu escancarei aqui o meu coração pra você. Não é possivel que você não tenha entendido.
Carlão: Eu tô tentando entender, Adamastor. Tô fazendo um esforço danado
aqui pra ver se eu consigo entender. Acontece que não estou entendendo. Aliás, já tô começando a ficar meio aperreado. Porque tô lá com os preparativos para o meu casamento em pleno andamento no acampamento, preciso ajudar meu povo. Vamo lá Adamastor. Diga logo. O que é que você tem pra me dizer?
Adamastor (senta, com olhar de decepção, suspira...): Engraçado. Era uma
coisa muito, muito importante. Mas... de repente, eu me esqueci.
Carlão: Bom. Se é assim então. (estende a mão para Adamastor apertar) até
mais ver, Adamastor. Até mais ver. (Carlão sai).
Apesar do desprezo do seu amor desde a infância, mesmo após revelar o que sentia, o personagem se sente livre para viver sua sexualidade, prometendo ―que entrar de novo, para dentro do armário, como diria o Paulo Henrique, nunca mais!‖ (fala do personagem no último capitulo de Pedra sobre Pedra). Por fim, recebe no último capítulo a visita de um ―amante misterioso‖.
Doze anos depois, em Senhora do Destino, é a vez de Jenifer (Bárbara Borges) reconhecer-se como lésbica. Atrelada à história do romance entre as duas mulheres, está a narrativa da descoberta da própria homoafetividade/homossexualidade por parte da estudante. Desde o primeiro encontro entre as duas, Eleonora já demonstra nas cenas um olhar de interesse em Jenifer, que não demonstra ter algum desejo pela outra. Ao se cumprimentarem em um primeiro passeio, as duas levam um ―choque‖ no momento em que se tocam, uma alusão à conexão entre as mulheres. Na medida em que a trama se desenvolve e a amizade entre as mulheres se intensifica, trocam selinhos (primeiro acidentalmente) ao se cumprimentarem ou despedirem.
Após essa introdução das duas como grandes amigas, começam os comentários por parte dos homens da comunidade, que chegam a chamá-las de ―sapatas‖ – Jenifer ouve e se sente ofendida pelo xingamento, muito por não se entender como lésbica. Com a intensificação da companhia entre as mulheres, o pai de Jenifer, Giovanni Improtta, chama a filha para conversar e pergunta qual o tipo de relação entre as duas. O irmão, João Manoel, também diz que já teve que ―defender‖ Jenifer dos insultos que se referem a ela na rua, ao que Jenifer surta, quebrando vários objetos em casa: ―- Não! É tudo falso isso! Isso é uma grande mentira. Ninguém pode dizer uma coisa dessas de mim. Eu não fiz nada! Eu não fiz!‖.
A mulher corre para o hospital e conversa com a Eleonora, pois estariam dando bandeira. Eleonora revela seu interesse pela amiga.
Jenifer: da minha parte não tem nada a ver, da sua parte também não né? Eleonora: Da minha parte também, sim!
Jenifer: Então você tá dizendo que…
Eleonora: Eu me envolvi com você, Jenifer.
Jenifer: Mas então, você..., mas é a primeira vez que.
Eleonora: Você quer saber se eu prefiro meninas em vez de meninos. A
resposta é, definitivamente, sim.
Jenifer: Mas, você, você já.. Namorou com alguém? (chorando)
Eleonora: Já. já. Eu já namorei uma garota. A Kátia. Uma colega de
faculdade. Terminou porque ela se mudou pra Vitória e desde então eu tenho procurado uma pessoa, alguém, pra viver uma relação séria, limpa, bacana..
Jenifer: Você tá achando que, que esse alguém sou eu?
Eleonora: Eu adoraria que fosse! - close em Eleonora segurando a mão de
Jenifer.
Nesse contexto, uma inocência por parte de Jenifer é contrastada com uma clareza por parte da médica diante de sua afetividade e sexualidade. Em Eleonora não há uma descoberta para si, mas a autoafirmação da sua identidade para Jenifer e também para o público.
Após essa briga, Jenifer deixa de conversar com Eleonora e muda o estilo de vida. De boa filha, responsável e estudiosa, passa a frequentar baladas, beber e deixar os estudos de lado, o que causa ainda mais espanto para a família – como uma forma de amenizar, nessa narrativa, uma suposta ―culpa‖ por uma relação homoafetiva, já que era uma excelente filha, ainda que lésbica, dando a entender que seria melhor esse ―problema‖ do que uma pessoa irresponsável.
Jenifer precisa passar por um processo de se descobrir lésbica, para então iniciar um romance com Eleonora e, a partir disso, imprimir em si uma identidade homoafetiva e se reafirmar (passando pela relação) diante da sociedade.
Ao utilizar da estratégia narrativa de revelar-se para si e para o público espectador da trama, Aguinaldo Silva leva o público a conhecer e atravessar, juntamente ao personagem, as barreiras interiores diante da formação de seu próprio eu. Essas narrativas se assemelham ao processo de ―coming out of the closet‖, explorando os conflitos pessoais de autoaceitação e os envolvidos em seus círculos sociais. Em ambos os casos, a esfera privada também é levada ao convívio social e a sexualidade passa a ser integrante da formação da identidade desses personagens diante da esfera pública.