5. Discussion and conclusion
5.1 Limitations and suggestions for future research
A unidade de análise é um Agrupamento de Escolas37 situado num Concelho do Distrito de Braga. Este Agrupamento tem como particularidade o facto de ter sido sujeito, no ano lectivo 2001/2002, ao Programa de Avaliação Integrada das Escolas, promovido pela Inspecção-Geral da Educação. Com base no programa mencionado e nas especificidades do contexto e da sua implementação, procurámos analisar e interpretar criticamente o modo como o processo se desenvolveu (como foi vivido pelos diferentes actores, que vantagens e/ou inconvenientes reconhecem ao mesmo) e a forma como estes mesmos actores problematizam as questões da avaliação escolar em geral. Todas estas questões nos motivaram na tentativa de proceder a uma reconstituição dos factos e à identificação das racionalidades inerentes ao processo de avaliação externa implementado pela IGE.
A escolha da temática de investigação e da localização geográfica da unidade de
37 Neste sentido, “o agrupamento de escolas é uma unidade organizacional, dotada de órgãos próprios de administração e gestão, constituída por estabelecimentos de educação pré-escolar e de um ou mais níveis e ciclos de ensino, a partir de um projecto pedagógico comum […]” (Decreto-Lei n.º 115A/98, de 4 de Maio, artigo 5º). Da unidade em análise fazem parte, apenas, estabelecimentos de educação pré-escolar (09) e do 1.º ciclo do ensino básico (10), sendo designada, pelas características das unidades educativas, de Agrupamento Horizontal.
análise prendeu-se com dinâmicas de carácter essencialmente pragmático, associadas a aspectos inerentes à biografia do investigador (Mills, 1965; Bogdan & Biklen, 1994)38, dos quais destacamos o facto do investigador exercer a actividade docente no Agrupamento e como tal ser protagonista do Programa de Avaliação aí implementado.
Referindo-se à escolha do estudo, Bogdan & Biklen aconselham o investigador a não escolher um tema e um contexto com os quais esteja pessoalmente envolvido, constituindo-se o investigador, na perspectiva de Woods (1987), um observador
comprometido39.
A este propósito António Costa salienta: “a familiarização com o objecto de estudo é um contraponto indispensável ao igualmente necessário distanciamento” (A. Costa, 1986, p. 136). Contudo, entendemos que estes dois factores (familiarização e distanciamento) em nenhum momento se constituíram como impedimento ao trabalho de investigação; o investigador procurou, e pensámos ter conseguido, o distanciamento necessário que lhe permitiu abordar o contexto de investigação com a imparcialidade que um trabalho desta natureza exige. Por outro lado, a familiarização com o objecto de estudo assumiu uma importância fundamental em todo o processo, facilitando os mecanismos de participação, nomeadamente no acesso aos documentos essenciais à nossa investigação e aos informantes privilegiados (A. Costa, 1986, p. 132)40 ou
testemunhas privilegiadas (Quivy & Campenhoudt, 1992, p. 69). Tal como refere
Barbier, “relativamente a certos pontos, os participantes numa acção são os únicos a deter as informações necessárias” (1990, p. 215). Por outro lado, e não menos importante, esta proximidade permitiu ganhar tempo, factor que adquire ainda mais
38 A noção de investigação e investigador aqui apresentada enquadra-se na perspectiva de Robert Bogdan & Sari Biklen, ao afirmarem que “ a grande maioria das investigações qualitativas são aquilo que se designa por investigação do ‘cavaleiro solitário’, isto é, o investigador enfrenta, isoladamente, o mundo empírico, partindo só, para voltar com os resultados” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 108). Por outro lado, os autores, referindo-se à agenda do investigador, destacam a necessidade do investigador atender às condições práticas que devem estar na base da investigação, referindo-se, particularmente, à biografia do investigador, à relação que o mesmo estabelece com o tema e com o contexto de investigação, à localização das fontes de dados e à necessidade do investigador obter, dos órgãos responsáveis pela organização, uma autorização formal para que o processo de investigação a desenvolver na mesma se concretize (cf. Bogdan & Biklen, 1994, pp. 86-87).
39 A este propósito, Peter Woods escreve “[…] em qualquer investigação a longo prazo é difícil evitar ver-se envolvido de alguma forma na vida do grupo ou da instituição. As minhas experiências, por exemplo, têm-me levado a pensar em ‘observador comprometido’” (Woods, 1987, p. 55).
40
A propósito deste conceito, tido como indispensável para a inserção no tecido social local, António Costa destaca: “é frequente arranjar ‘informantes privilegiados’, interlocutores preferenciais com que contacta mais intensamente, ou de quem obtém mais informações sobre aspectos a que não pode ter acesso directo” (A. Costa, 1986, pp. 132). E de seguida acrescenta: “por vezes estes ‘informantes privilegiados’ são escolhidos por terem lugares de preponderância na unidade social em estudo. […] isso quer também dizer que tem uma visão particular das coisas, a qual o investigador tem que procurar captar e levar em consideração. E implica igualmente que não tem acesso nem a aspectos da vida social local que os outros, precisamente por causa daquela preponderância, lhes ocultam, nem por maioria de razão, à visão particular destes últimos. Além disso, onde há clivagens sociais significativas […] os relacionamentos preferenciais do investigador com algumas personagens abrem umas portas mas fecham outras. É necessário gerir muito bem esses relacionamentos. Nem sempre é possível, nem desejável, evitar tomar partido – mas é obviamente vantajoso não criar laços demasiados unilaterais” (A. Costa, 1986, pp. 139-140). A este propósito, ver, também, Raymond Quivy & Luc Van Campenhoudt (1992, pp. 69-70).
relevância quando a actividade de investigação tem de ser conciliada com a actividade profissional.
O contacto com os informantes privilegiados possibilitou ao investigador observar e analisar as diferentes relações e interacções sociais dos mesmos, o seu dia-a-dia, as suas estratégias de vida e o quadro de representações sociais respectivo. Por um lado, enquanto observadores participantes, recolhemos informações como, entre outras, a reacção dos diferentes actores no período em que se desenvolveu a avaliação e depois de concluído o processo, que só faz sentido quando registada no momento da ocorrência dos factos. Por outro lado, o contacto com os entrevistados foi também facilitado, mesmo com os que no momento da realização das entrevistas se encontravam a exercer funções noutra organização educativa. De todos os actores educativos envolvidos neste processo obtivemos o máximo de disponibilidade e colaboração.