3. Methodology
3.2 Conducting the experiment
respeito à sequência perguntas-respostas (cf. Foddy, 1996, p. 21). Esta tese é complementada por Yáñez Casal ao afirmar que um dos principais pressupostos em que a teoria se baseia “[…] é que os comportamentos humano-sociais de um indivíduo processam-se e constituem-se como respostas às acções intencionais dos outros […] exteriorizadas em símbolos que são interpretados adequadamente nos processos sociais”. De acordo com o autor, “as acções sociais dos indivíduos não são simplesmente dados, expressões de forças sociais exteriores, tais como sistemas, instituições, estruturas, costumes, tradições, e valores […], mas sim actos e actividades construídas e protagonizadas por cada actor social num processo social contínuo de interpretações de sentidos […]” (Casal, 1996, p. 42). Para uma perspectiva similar, ver Louis Cohen & Lawrence Manion (1990, pp. 63-64). Por sua vez, Robert Bogdan & Sari Biklen referem que o interaccionismo simbólico é compatível com a perspectiva fenomenológica: “[nele] encontra-se a asserção de que a experiência humana é mediada pela interpretação. Nem os objectos, nem as pessoas, situações ou acontecimentos são dotados de significado próprio; ao invés, o significado é-lhes atribuído. […] O significado que as pessoas atribuem às suas experiências, bem como o processo de interpretação, são elementos essenciais e constitutivos, não acidentais ou secundários àquilo que é a experiência. Para compreender o comportamento é necessário compreender as definições e o processo que está subjacente à produção destas. […]. As pessoas não agem com base em respostas predeterminadas a objectos predefinidos, mas sim como animais simbólicos que interpretam e definem, cujo comportamento só pode ser compreendido pelo investigador que se introduza no processo de definição através de métodos como a observação participante” (Bogdan & Biklen, 1994, p. 55). De acordo com os pressupostos apresentados, o conceito de definições, como os próprios autores salientam, reveste-se de grande importância, isto é, “as pessoas, em situações particulares […], desenvolvem frequentemente definições comuns (ou ‘partilham perspectivas’, na terminologia do interaccionismo simbólico) porque interagem regularmente e partilham experiências, problemas e passados comuns; mas o consenso não é inevitável […]. As pessoas têm problemas e estes podem levá-las a construir novas definições, abandonando as anteriores […]. O objecto da investigação é o modo como estas definições se desenvolvem. Assim sendo, a interpretação é essencial. A interacção simbólica assume o papel de paradigma conceptual, ocupando o lugar dos instintos, dos traços de personalidade, dos motivos inconscientes, das necessidades do estatuto socioeconómico, das obrigações inerentes aos papéis, das normas culturais, dos mecanismos sociais de controlo ou do meio ambiente físico” (Bogdan & Biklen, 1994, pp. 55-56). Neste sentido, ver Alain Coulon (1995, pp. 63-102); Óscar Guasch (1997); William Skidmore (1976, pp. 263-327; 1997, pp. 31-33). Por outro lado, para aceder aos princípios identificados por Blumer, relativament à teoria do interaccionismo simbólico, cf. William Foddy (1996, p. 21) e Yáñez Casal (1996, pp. 42-43).
A sociedade desempenha uma importante função, enquanto fonte e origem das categorias fundamentais, a partir das quais se desenvolve todo o processo do conhecimento sociológico. Contudo, Durkheim não deixa de referir que a única denominação teórico-filosófica que aceita é a da racionalidade. Este pressuposto fica claro quando afirma:
“O nosso principal objectivo, com efeito, é estenderao comportamento humano o racionalismo científico, mostrando que, considerado no passado, ele é redutível a relações de causa a efeito que uma operação não menos racional pode transformar depois em regras de acção para o futuro. Aquilo a que se chamou o nosso positivismo é apenas uma consequência deste racionalismo” (Durkheim, 1995, p. 9).
Por outro lado, admite-se que o positivismo reconhece que: i) o mundo social é inacessível na sua essência – só o mundo dos factos é cientificamente analisável (fenomenalismo); ii) o mundo subjectivo, o da consciência, da intuição e dos valores, escapa à ciência (objectivismo); iii) as teorias científicas têm como único guia a observação exterior, o teste empírico objectivo, sendo a compreensão e a introspecção rejeitadas como métodos não passíveis de controlo (empirismo); iv) o centro do programa positivista é a noção de lei geral, valorizando assim uma classe determinada de fenómenos (nomotetismo); v) o verdadeiro conhecimento resulta da capacidade de predizer acontecimentos que pertencem ao domínio das leis, pelo que estabeleceu, assim, que o conhecimento das estruturas essenciais e das causas fundamentais e finais é ilusório (previsionismo) (cf. Lessard-Hérbert et al, 1990, p. 37).
Em oposição ao paradigma positivista, no qual objecto geral da investigação é o
comportamento do actor social, admitindo-se que sempre que um comportamento se
produz o seu significado é já conhecido pelo observador, no paradigma interpretativo, no qual o objecto de análise é formulado em termos da acção do indivíduo e daqueles que com ele interagem, a função da acção-significado desencadeia diferentes relações entre as formas de comportamento e os significados que os actores lhes atribuem através das suas interacções sociais. O investigador tem em atenção a variabilidade referida no momento de analisar qualquer comportamento, isto porque comportamentos idênticos do ponto de vista físico podem corresponder a significados diferentes de uma perspectiva social, como é o caso dos comportamentos que exteriorizam a identidade
social, o papel ou o estatuto dos actores numa classe (cf. Lessard-Hérbert et al, 1990,
pp. 36-39).
“[…] nas ciências sociais, tal como nas outras ciências, o trabalho que se efectua não é o da apreensão e manipulação directa do real, mas de construção de conceitos e relações entre conceitos (‘objectos de conhecimento’) que servem como instrumentos imprescindíveis para se alcançar, indirectamente, uma certa forma de aproximação cognitiva do campo da realidade considerado. É através dessa forma de aproximação/apropriação cognitiva que se define e configura uma ‘representação’ (a que alguns chamam, sem sentido pejorativo, ‘simulação’) do real cujo conhecimento se tem por finalidade última atingir e, por conseguinte, uma ‘representação’ do que tem de específico o campo da realidade sobre a qual o trabalho científico se exerce” (Nunes, 1976, p. 12 [sublinhado do autor]).
A investigação interpretativa, por oposição à investigação científica positivista inscrita num princípio ontológico materialista, baseia-se num princípio dualista, dando valor aos comportamentos observáveis, relacionados com significados criados e modificados pelo espírito.
O princípio da interpretação desempenha papel de um duplo princípio de causalidade: por um lado, e de um modo geral, os indivíduos, em função de um processo de interpretação, constroem o conhecimento da natureza e dos outros indivíduos e, por outro lado, a um nível especificamente social, as interpretações de nível geral conduzem os indivíduos a empreenderem determinadas acções (Lessard-Hébert et al, 1990, p. 40).
A sociologia compreensiva de Weber (1997)12 valoriza a compreensão, não no sentido do significado das experiências simbólicas, mas no sentido da “acção social”13; enfatiza o papel do indivíduo, com o objectivo de, a partir dele, compreender e explicar o social, razão pela qual atribui tanta importância à construção de “tipos ideais”.
As concepções epistemológicas de Weber partem da teoria kantiana do conhecimento, em quatro temas essenciais para a sociologia: i) irredutibilidade da realidade ao saber; ii) a subordinação do objecto ao sujeito na relação cognitiva; iii) especificidade da análise das condutas humanas (carregadas de motivações e significados atribuídos), face às disciplinas da natureza; iv) separação entre juízos de facto e juízos de valor (cf. Silva, 1988, p. 45).
A perspectiva metodológica weberiana baseia-se, essencialmente, em dois
12 Para Max Weber, o conceito “sociologia” designa: “uma ciência que pretende compreender, interpretando-a, a acção social e, deste modo, explicá-la causalmente no seu decurso e nos seus efeitos” (Weber, 1997, p. 21).
13
A este propósito, Max Weber especifica: “por ‘acção’ deve entender-se um comportamento humano (quer consista num fazer externo ou interno, quer num omitir ou permitir), sempre que o agente ou os agentes lhe associem um sentido subjectivo. Mas deve chamar-se acção ‘social’ aquela em que o sentido intentado pelo agente ou pelos agentes está referido ao comportamento de outros e por ele se orienta no seu decurso” (Weber, 1997, p. 21). No sentido de complementar a abordagem ao conceito de
acção social, cf. Weber (1997, pp. 43-86; 1983, pp. 73-117). Num outro tipo de interpretação da acção em Weber, Raymond
Aron refere que o autor parte de quatro tipos de acção: “a acção racional relativamente a um fim (zweckrational); a acção racional relativamente a um valor (wertrational), a acção afectiva ou emocional, e por fim a acção tradicional” (Aron, 2002, p. 478).
axiomas: i) a realidade observável contém aspectos e variações incomensuráveis, embora o conhecimento daí resultante seja sempre limitado; qualquer elemento ou aspecto do real, qualitativo ou quantitativo, particular ou geral, da ordem da natureza ou da ordem da cultura, pela pluralidade de dimensões que engloba, nenhum conceito ou conjunto de conceitos pode explicar de forma adequada; ii) todo o objecto social de estudo é um pequeno fragmento da realidade e a sua escolha resulta do significado, do interesse e do valor que os indivíduos lhe atribuem. Assim, Weber afasta-se do positivismo naturalista, do idealismo racionalista e do romantismo conservador. Contudo, tendo em atenção a subjectividade que o caracteriza em relação ao conhecimento, é notável o comprometimento com os imperativos da objectividade que ele reconhece e exige no processo científico das ciências sociais (cf. Casal, 1996, pp. 28-30)14.
Na perspectiva de Silva, a validade deste método, enquanto construção intelectual, permanece associada a um “processo de apropriação cognitiva do real” que em circunstância alguma representa a realidade tal e qual ela é. O real que pode ser apropriado cognitivamente é o real aparente, fenomenal, e nunca o universo metafísico dos números, das essências ou das causas primeiras. O conhecimento é sempre aproximativo e fragmentário (cf. Silva, 1988, p. 45).
A construção do tipo ideal é o dispositivo metodológico criado por Weber para dar sentido aos procedimentos exigidos pela investigação científica, procedimentos já por si utilizados, sem, no entanto, se constituírem numa nova concepção metodológica.
É neste sentido que Giddens refere:
“Um tipo ideal é elaborado através da abstracção e da combinação de um número indefinido de elementos que, se bem que sejam todos eles extraídos da realidade, raramente ou nunca nos surgem sobre essa forma específica. […] Um tipo ideal não é ideal num sentido normativo: não implica que a sua realização seja desejável. Podemos construir um tipo ideal de assassinato ou de prostituição […]. Um tipo ideal é um tipo puro num sentido lógico, e não num sentido exemplar: ‘Na sua pureza conceptual, essa construção mental não pode existir empiricamente na realidade’” (Giddens, 2000, p. 201)15.
No entanto, o próprio Weber (1949), citado por Silva, referindo-se à obtenção do tipo ideal, escreve:
“Obtém-se um tipo ideal pela acentuação unilateral de um ou mais pontos de vista e pela síntese de um grande número de fenómenos concretos individuais, que são difusos, descontínuos, mais ou menos presentes ou então ocasionalmente ausentes e que são ordenados de acordo com esses