A Venezuela foi um dos países mais escolhidos pelos portugueses e madeirenses para emigrar. Apesar de se dizer que nem sempre foi possível, pois a emigração para este país esteve interdita, por força da lei, até 1931, veremos que já anteriormente havia êxodo de emigrantes para esse país.
Pelas informações que fomos recolhendo nos periódicos e nas estatísticas, diríamos que foi em 1945 que os primeiros emigrantes madeirenses viajaram directamente da Ilha da Madeira para a Venezuela. Nessa data, começam a surgir os primeiros anúncios nos periódicos da partida de emigrantes madeirenses da Ilha para este país. No entanto, ao consultar no A.R.M. os Índices dos passaportes de 1872-1900 e de 1901-191534, para comprovar que antes de 1945 não tinha havido emigração
madeirense para a Venezuela, apercebemo-nos de que estávamos errados.
Encontrámos o registo de um emigrante, Domingos Vieira Baptista, casado com Maria Augusta Quevedo, que, apesar de ser natural de Canárias, partiu da Ilha para a Venezuela em 1874.35 Para a nossa curiosidade, em 1897, o madeirense João Machado Lima requisitou o passaporte para três criadas, Helena Juliana da Costa, Maria do Amparo e Maria José, de São Miguel (Açores), com destino a Venezuela.36
Para dar continuidade à pesquisa, vimos os livros número 9 a 18 dos Registos de passaportes e vistos, do Governo Civil do Funchal. Este material foi útil para a elaboração de uma tabela com os primeiros 50 emigrantes madeirenses que chegaram a Venezuela no século XX, que está no anexo um. O primeiro foi Joaquim de Pontes Junior, solteiro, com 20 anos. Era natural do Funchal, de Santa Luzia. O registo do seu passaporte, nº 768, está datado de 04-11-1926. Este madeirense trabalhava no comércio, sabia ler e era a primeira vez que emigrava. Os seguintes seis emigrantes partiram em 1930, todos naturais da Calheta.
Fizemos, também, uma tabela com os primeiros emigrantes madeirenses do sexo feminino que emigraram para a terra dos bolívares (anexo dois). Encontrámos, nos
34 - cf. Índices dos passaportes 1872-1900 e 1901-1915, Arquivo Histórico da Madeira, Edição Secretaria
Regional do Turismo e Cultura, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Arquivo Regional da Madeira, Funchal, 2000 e 2005.
35 - Índices dos passaportes 1872-1900, Série Índices dos passaportes 1, Arquivo Histórico da Madeira,
Edição Secretaria Regional do Turismo e Cultura, Direcção Regional dos Assuntos Culturais, Arquivo Regional da Madeira, Funchal, 2000, p.109.
ficheiros dos passaportes do A.R.M., a informação de que em 1899 foi registado o passaporte nº 3 a Maria José Cabral, casada, com 50 anos. Emigrou para a Venezuela com duas filhas, Celestina Cabral, com 16 anos, e Amália Cabral, com 17, para se juntar ao marido, Juan Pereira Cabral. Foi, possivelmente, a pioneira na reconstituição do núcleo familiar neste país. Encontrámos, somente, o próximo registo a 23-06-1945, que corresponde ao passaporte nº 1777, de Virgínia da Graça Raiz Rocha, 35 anos, casada, doméstica, natural do Funchal. Há, portanto, um espaço de 45 anos sem qualquer registo de emigração feminina para a Venezuela.
A emigração madeirense para o país em questão está fortemente relacionada com a emigração para Curaçau. De facto, muitos madeirenses chegaram a Venezuela procedentes dessa ilha, nos finais dos anos 30 e início dos anos 40, logo que terminou o período de trabalho estabelecido por contrato:
Foi no período compreendido entre 1937 e 1940 que se observou a saída […] para as refinarias do Curaçau, donde, decorridos que foram alguns anos, e terminados os contratos que lá os tinham levado, muitos preferiram não voltar mas sim procurar outro país mais promissor do que a sua pequena ilha, indo então para a vizinha Venezuela.37
O importante comerciante madeirense João Rodrigues de Aguiar, fundador da Casa da Madeira, em Caracas, foi um desses exemplos: “Estava no Curaçau. Um dia olhei para o mapa e vi como a Venezuela, ali mesmo ao lado, era grande. Filho de uma ilha pequena, pensei então que um país tão grande era necessariamente um país rico. Por isso vim.”38 Quando chegou a Caracas, em Dezembro de 1938, estavam registados no
consulado apenas sete portugueses. João Rodrigues de Aguiar é um dos comerciantes mais antigos de Caracas, “ardente e entusiasta propagandista de Portugal e dos portugueses nas terras altas daquele país.”39
Muitos outros madeirenses optaram por emigrar, primeiramente, para o Brasil, devido às facilidades de emprego, mas com o desejo de mais tarde viajarem para a Venezuela: “[…] as saídas para Venezuela foram ainda incentivadas através de ligações
37 - DN, 01-07-1971, p.5.
38 - JM, 10-02-1959, p.1. 39 - DN, 11-11-1948, p.4.
com o Brasil, em virtude da maior facilidade de obtenção de contratos de trabalho […].”40
Foram estes primeiros emigrantes que mais contribuíram para a ocupação e para o desenvolvimento do país dos bolívares:
Lutaram imenso, pois, nessa altura, o país era ainda atrasado, tinha um subsolo riquíssimo, mas carecia de gente, de braços, para se desenvolver, mas começaram desde logo a vislumbrar o que representaria num futuro muito próximo aquele país e dai, começaram a chamar familiares e amigos.41
Como imaginamos, muitos chegavam à Venezuela com poucas condições financeiras e necessitavam de ajuda até que conseguissem angariar dinheiro suficiente para o seu sustento. João Nascimento, comerciante em Macuto, perto de La Guayra, teve um papel fulcral na vida desses emigrantes. Era conhecido como “aquele que emprestava a primeira cama e os primeiros dinheiros aos madeirenses desembarcados no vizinho porto de La Guayra. Foi ele o conselheiro, o orientador, o pai de tantos e tantos emigrantes que por ele têm hoje verdadeira amizade [...].”42 Foi, digamos, um
banqueiro dos conterrâneos para poupar o dinheiro ganho na terra estrangeira, numa época em que muitos se depararam com pensões pequenas, sem ventilação, onde dormiam cerca de quatro ou cinco pessoas, sujeitos às mais diversas doenças. É curioso o facto de se dizer que os portugueses foram os pioneiros na introdução de lições de higiene na Venezuela.