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O madeirense emigra à procura de melhores e de novas oportunidades, mas, sempre que pode, vem à Ilha para visitar os seus familiares e amigos, onde é recebido em euforia:

O madeirense [...] vem em excursões de saudade à Madeira e a sua chegada é anunciada com fogo estridente, como nos melhores e mais característicos arraiais da terra; desembarca ao som das filarmónicas; chora de alegria ao reencontrar os entes queridos.76

73 - DN, 18-03-1960, p.1.

74 - DN, 17-03-1960, p.1.

75 - Arturo Uslar Pietri: Médio Milénio de Venezuela, 2ª ed., Monte Ávila Ediciones, Caracas, 1992,

p.415.

Na década de 50, as agências começaram a organizar excursões à Ilha da Madeira para emigrantes madeirenses que estavam na Venezuela, possibilitando aos mesmos e aos seus familiares de conviverem todos juntos em passeios, sobretudo ao Norte da Ilha, considerado o local mais atractivo. Temos uma imagem onde podemos ver um exemplo desses mesmos convívios:

Ilustração 1

Convívio de emigrantes madeirenses que residem na Venezuela numa excursão à Ilha da Madeira in DN, 10-09-1956, p.2.

A primeira excursão de madeirenses à Ilha, dirigida pelo conterrâneo Agostinho de Sousa, proprietário da Agência de Viagens Interoceânica de Caracas, foi em Julho de 1954. No vapor Carvalho Araújo, 58 conterrâneos regressaram à Madeira, em viagem de recreio, onde “foram recebidos carinhosamente nesta cidade, aguardando-os, no cais- molhe da Pontinha, numerosas pessoas de suas famílias e amigos.”77 Através de um

concurso da rádio na Venezuela, possivelmente um destes excursionistas teve a passagem paga: “Uma das maiores Indústrias venezuelanas oferece uma passagem na excursão que se realizará à Ilha da Madeira, em colaboração com a Voz da Madeira, num interessante concurso [...].”78 Era uma forma de fazer publicidade.

No ano seguinte, 138 madeirenses embarcaram em La Guayra no Vera Cruz para usufruírem de mais uma grandiosa excursão organizada pela Agência de Viajes Madeirense, situada no El Paraíso, em Caracas, como podemos ver através do próximo anúncio:

77 - DN, 28-07-1954, p.1.

Anúncio 2

Anúncio da “Agência de Viajes Madeirense” em Caracas in Almanaque da Madeira, 1956, p.134.

Dos excursionistas de 1955, o periódico Jornal da Madeira destacou Humberto Nóbrega, que desembarcou no porto de La Guayra muito jovem, com muitas ilusões como todos os emigrantes. Humberto Nóbrega foi um dos mais prestigiosos importadores de bordados da Ilha para o estrangeiro, “bem patente na credencial nas estatísticas do Grémio dos Bordados da Madeira.”79

A Venezuela era um dos principais países para onde Humberto Nóbrega importava bordados:

79 - JM, 08-06-1955, p.2.

Anúncio 3

Humberto Nóbrega, importador de bordado madeirense em Caracas in Almanaque

da Madeira, 1956, p.144.

Caracas era, de facto, uma das cidades comerciais de maior destaque, não apenas no que se refere a bordados, como, também, a vinhos, pelo que não é de estranhar que se publicassem informações para atrair os comerciantes a exportar:

Anúncio 4 Anúncio 5

Exportação de vinhos, bordados e obra de vimes Exportação de bordados para para Caracas in DN, 21-01-1945, p.4. a Venezuela in DN, 22-10-1949, p.3.

António Camacho, Gabriel Correia e Carlos Inácio da Silva, proprietários e directores da Agência de Viajes Madeirense, organizaram, identicamente, em 1956, outro passeio para 80 madeirenses, que regressaram à Ilha no Santa Maria. O barco entrou no cais, embandeirado em arco, sendo recebido por uma salva de morteiros e uma banda de música.80

80 - DN, 05-06-1956, p.2.

De 17 a 19 de Agosto desse mesmo ano, houve uma nova excursão, neste caso orientada pela Agência de Viagens Interoceânica:

Avisam-se todas as pessoas que fizeram parte da Grande Excursão de Venezuela, organizada pela Agência de viagens INTEROCEÂNICA, que deverão apresentar-se no dia 17 do corrente, na Praça do Infante, às 8 horas da manhã, para tomarem parte do grande passeio à volta da ilha.81

Para este passeio, preparado pelo conterrâneo Agostinho de Sousa, societário da agência acima referida, foram necessários quatro amplos autocarros para “150 madeirenses, que estão trabalhando na Venezuela, e presentemente se encontram entre nós no gozo de férias.”82 A excursão incluiu almoços e diversas festas, não faltando, a

tradicional “espetada” regional, normalmente nos Prazeres. Pernoitavam em hotéis, quando necessário.

Mostramos uma foto dos autocarros, no Cabo Girão, que eram utilizados nestes passeios pela Ilha:

Ilustração 2

Autocarros no Cabo Girão durante uma excursão à Ilha da Madeira de madeirenses que residem na Venezuela in DN, 10-09-1956, p.2.

Habitualmente, os autocarros saíam da Rotunda do Infante e dirigiam-se para o Cabo Girão, a fim de os excursionistas tomarem o pequeno-almoço e tirarem algumas fotografias. A partir daqui, percorria-se a Ribeira Brava, os Canhas, os Prazeres, a Ponta

81 - DN, 15-08-1956, p.2. 82 - DN, 18-08-1956, p.2.

do Pargo e o Porto Moniz. No dia seguinte, passeavam pelo Seixal, São Vicente, Ponta Delgada e Boaventura, Santana, Porto da Cruz, Portela, Santo da Serra, Camacha, para, logo depois, regressarem ao Funchal.

Cerca de 100 madeirenses vieram à Ilha para gozar de mais uma excursão, em Abril de 1957, sob a direcção de Arnaldo Teixeira Branco. Para transmitir a ansiedade da chegada, é curioso o facto de os excursionistas enviarem um radiograma de saudação durante a viagem no barco: “Embora viagem Santa Maria decorra magnificamente aproximando-se nossa querida Madeira saudades invadem corações todos excursionistas Agência Interoceânica que saúdam suas famílias e amigos.”83

Em Junho de 1958, Julho de 1959 e Abril de 1960 houve novos passeios organizados pela Agência Interoceânica para madeirenses de visita aos seus familiares.

Notámos, portanto, que, a partir de 1954 e até 1960, estas excursões eram anunciadas nos periódicos Diário de Notícias e Jornal da Madeira uma ou duas vezes por ano. De facto, estas viagens tiveram bastante incremento na Venezuela, pelo que não é de estranhar que o número de excursionistas rondasse os 100 ou 150. Apenas por curiosidade, estas excursões são, actualmente, planeadas por um grupo de emigrantes da Freguesia do Faial.