Possivelmente a crítica epistemológica mais importante de Georgescu, já presente na introdução de Analytical Economics, se refere ao fato de a Economia Neoclássica considerar o processo econômico como um fenômeno mecânico, independente do lugar e do tempo histórico. O que a Mecânica entende por espaço e tempo não é no sentido de lugar/local e tempo cronológico, mas sim ‘distância indiferente’ e ‘intervalo de tempo indiferente’.
Seu segundo e mais importante livro, The Entropy Law and the economic process de 1971, é dedicado quase que exclusivamente a mostrar a diferença irredutível entre a Mecânica e a 2ª Lei da Termodinâmica, a Lei da Entropia, uma lei evolucionária. Existe uma diferença entre o tempo histórico ‘T’, e o tempo dinâmico ‘t’ da Mecânica, coisa já reconhecida por Schumpeter13. Mas, Georgescu mostrou aos economistas que a raiz dessa distinção não está nas ciências históricas, e sim no coração da própria Física, entre a Mecânica e a Termodinâmica. Mostrou que, mesmo do ponto de vista físico, a Economia não pode ignorar o tempo histórico, pois a produção econômica é uma transformação entrópica.
Entropia é o conceito utilizado pelos cientistas para explicar, por exemplo, por que os cubos de gelo derretem numa calçada quente. A Lei da conservação da energia não explica tal fenômeno. Com apenas essa lei, seria possível que o calor saísse do cubo de gelo, contanto que a mesma quantidade de calor fosse para o ar. Se isso pudesse acontecer o cubo de gelo ficaria mais frio e o ar mais quente. A entropia serve para explicar por que o calor sempre flui de objetos mais quentes para os mais frios, e por que esse processo é espontâneo. Assim, ela está relacionada com as mudanças que ocorrem inerentemente à conservação da energia de um dado sistema. A energia em sua forma calor tende a se dissipar homogeneizando temperaturas. Acontece que para realizar trabalho, no sentido físico, um sistema necessita de um diferencial de temperaturas.
O conceito de trabalho na Física pode ser entendido como “maneira de transferir energia em ação coerente”, portanto deve ser visto como um processo e não como uma coisa
(SCHNEIDER & SAGAN, 2005: 27). Como o calor tende a perder essa capacidade de transformar energia em ação coerente, é a forma mais inútil e degradada de energia.
Toda transformação energética envolve produção de calor. Mesmo uma geladeira, que existe para manter uma temperatura interna abaixo da do ambiente externo, só consegue realizar tal função, pois há uma entrada de energia elétrica constante, e uma dissipação de energia para ‘fora dela’ em forma de calor. Embora uma parte do calor possa ser recuperada para algum propósito útil, não se pode aproveitar todo o calor justamente pela sua tendência a se dissipar. Assim, a Lei da Entropia diz que num sistema isolado a degradação da energia tende a um máximo, e que tal processo é irreversível.
Para que se entenda melhor a noção de entropia, se faz necessário recordar da ciência que surgiu para estudar o calor, a Termodinâmica. Quem desenvolveu os elementos fundamentais para as bases da Termodinâmica foi o físico e engenheiro militar francês Sadi Carnot (1796-1832) em seu livro “Reflexões sobre a potência motriz do fogo”, publicado em 1824. A máquina a vapor começava a ter grande importância na época, contudo não havia a preocupação de recorrer a uma sistematização teórica com intuito de avançar na produção de potência motriz do calor. Carnot se dispôs a analisar a máquina a vapor e propôs uma teoria sobre o seu funcionamento, descrevendo inclusive um ciclo ideal capaz de proporcionar o máximo rendimento à máquina. Carnot concluiu que o calor flui do corpo mais quente para o mais frio; e que é impossível converter completamente o calor em trabalho – uma parte é sempre ‘perdida’ numa transformação energética (SCHNEIDER & SAGAN, 2005: 39).
As descobertas sobre a conservação da energia tornaram difícil a conciliação entre as conclusões de Carnot e a concepção de calor como forma de energia. Foi o físico alemão Rudolf Clausius (1822-1888) quem se propôs a fazer tal conciliação,
combinando a noção de desperdício necessário nas máquinas a vapor, com a idéia que a energia se manifesta de várias formas e que ela não pode ser criada nem destruída. Dividiu o calor (quantidade de energia) pela temperatura (medida da intensidade da energia), formando uma nova relação que inevitavelmente aumentava com o tempo. Era parecida com a energia, mas tinha uma direção. Assim, Clausius chamou tal razão de entropia, emprestando tal palavra com significado de transformação em Grego. (SCHNEIDER & SAGAN, 2005: 43).
Clausius avançou o trabalho já realizado por Carnot formalizando as duas primeiras leis da Termodinâmica e introduzindo a noção de entropia. A 1ª Lei diz que a quantidade de energia num sistema isolado é constante, enquanto a 2ª Lei diz que a qualidade da energia num sistema isolado tende a se degradar, tornando-se indisponível para a realização de trabalho. Portanto, a forma embrionária da entropia está na idéia de que as mudanças no caráter da energia tendem a torná-la inutilizável. A energia desperdiçada ou “perdida”, ou seja, a energia que não pode mais usada para realizar trabalho, é considerada a produção de entropia de um sistema. Um sistema isolado não pode trocar matéria nem energia com o exterior. Estritamente falando, apenas o Universo como um todo atende essa exigência. Por isso, Clausius afirmou na sua formulação das duas primeiras leis da termodinâmica que:
1) A energia do universo é constante
2) A entropia do Universo tende a um máximo.
A afirmação “num sistema isolado a entropia nunca decresce” envolve o tempo, pois mais precisamente isso significa que a entropia aumenta na medida em que o tempo flui pela consciência do observador. Nenhuma outra lei distingue o passado do futuro. Assim, apenas a 2ª Lei da Termodinâmica define a ‘flecha do tempo’, explicando a direção de todos os processos física ou quimicamente espontâneos. A 2ª Lei afirma que
um sistema pode estar orientado apenas numa direção do tempo, justamente porque não pode voltar da maneira como foi, se o seu caminho envolve dissipação de calor. Tal lei provocou uma revisão drástica no sentido da energia e sua conservação, enquanto muitos físicos tentaram o máximo possível negar que algo de fundamental havia mudado (G-R, 1971; MIROWSKI, 1989).
A admissão aparentemente inócua de que “o calor sempre flui do corpo mais quente para o mais frio por si só” ser uma lei física, deu origem a uma crise na Física que ainda não parece ter se resolvido. A crise está no fato de que a mecânica não consegue lidar com movimento unidirecional do calor. Isso porque de acordo com a mecânica todos os movimentos devem ser reversíveis. Essa peculiaridade dos fenômenos mecânicos corresponde ao fato de as equações da mecânica não variarem ao sinal da variável ‘t’, de tempo, ou seja, não há passado nem futuro. É possível, portanto, opor duas categorias de fenômenos: locomoção reversível e entropia irreversível.
Os processos reversíveis, tipo de fenômeno estudado pela Mecânica Clássica, são “a exceção” na natureza, enquanto os processos irreversíveis constituem “a regra”. Foi justamente Clausius quem distinguiu os dois através do conceito de entropia. Os processos reversíveis mantêm a entropia constante, enquanto os irreversíveis a produzem (PRIGOGINE, 1996:25).
Todavia, como a única maneira de agir sobre a matéria diretamente é puxando ou empurrando, não é difícil entender por que a mente humana só pode compreender claramente um fenômeno se puder representá-lo por um modelo mecânico. Não é à toa que desde quando surgiu a Termodinâmica, os físicos desdobram-se em esforços para reduzir o fenômeno do calor à locomoção. O resultado disso acabou sendo uma nova Termodinâmica, conhecida como Mecânica Estatística (G-R, 1966: 75).
Na Mecânica Estatística, as leis da termodinâmica foram preservadas da mesma maneira em que Clausius havia enunciado, porém mudaram os significados dos conceitos básicos. O calor consiste em movimento irregular das partículas, que são tratadas como indivíduos qualitativamente iguais, pois apenas as coordenadas mecânicas (posição e momentum) das partículas são levadas em conta.
Ludwig Boltzmann (1844-1906), o principal expoente dessa nova Termodinâmica, descreveu a distribuição estatística de bilhões de moléculas de gás fazendo suposições sobre a velocidade média das partículas depois das colisões chegando a uma expressão que lembrava a função de entropia. Daí ele disse ter derivado movimentos temporalmente irreversíveis da mecânica (MIROWSKI, 1989: 62-65).
Entre a década de 1870 e de 1890, objeções à inconsistência de se derivar conseqüências irreversíveis de premissas reversíveis foram levantadas. A resposta de Boltzmann foi sugerir que haveria flutuações na evolução da entropia, isto é, às vezes o tempo seguiria o sentido “inverso”. Boltzmann defendeu a reconciliação entre a entropia e a mecânica até pouco antes do suicídio em 1906 (G-R, 1971: 166; MIROWSKI, 1989).
Como na época de Boltzmann, as leis da Física que afirmavam a equivalência entre passado e futuro “eram aceitas como a expressão de um conhecimento ideal, objetivo e completo”, ele teve que abandonar a idéia de direcionalidade do tempo (PRIGOGINE, 1996). Com isso, acabou dizendo que o tempo é uma ilusão humana, ou seja, que a direção do tempo é puramente uma convenção que os observadores introduziram no mundo, e que não havia diferença entre passado e futuro. Mas é impossível demonstrar
isto sem admitir implicitamente que há uma direção universal na qual os processos estão ocorrendo (G-R, 1971: 167).
Se o calor não fosse nada além de locomoção no nível molecular, aí poderia estar sujeito às leis ortodoxas da locomoção, que são por sua vez temporal-reversíveis. Entre 1850 e 1950, a atitude de muitos físicos era aceitar que a entropia pode ser reduzida à mecânica. Para isso, noções de probabilidade e aleatoriedade foram introduzidas na teoria física.
A maioria dos livros-texto de termodinâmica não indica que pode haver uma inconsistência entre a Mecânica Clássica e a Termodinâmica Clássica e que essa controvérsia que marcou a virada do século XIX para o XX pode ainda não estar resolvida. O teorema H 14 de Boltzmann era aceito como verdadeiro até os anos 1960/1970, época em que Georgescu escrevia sua principal obra The Entropy Law and
the Economic Process (1971).Todavia, hoje há uma aceitação15 entre cientistas que se preocupam com a epistemologia de sua ciência que tal teorema de Boltzmann é falso, e pelos mesmos motivos apontados por Georgescu (BEARD & LOZADA, 1999; LOZADA, 1995; MIROWSKI, 1989). Este mostrou porque a irreversibilidade não é uma manifestação do acaso. A explicação para os processos irreversíveis não pode ser encontrada na mecânica. A Lei da Entropia é uma lei irredutível da natureza, assim como a Lei da Inércia de Isaac Newton.