Georgescu concordava com a definição de Alfred Marshall (1920) que a Economia “é o estudo da Humanidade nos negócios ordinários da vida”. Rejeitava, portanto, que o
escopo da Economia fosse aquele definido por Lionel Robbins: como dados meios são alocados para satisfazer dados fins. Não se conformava com o dogmatismo na posição dos que defendem que o estudo do processo econômico é esse quebra-cabeça com todos os elementos dados. É uma visão muito restritiva do processo econômico, que ignora questões de como são criados novos meios, novos fins e novas relações econômicas.
No nível mais primário, a atividade econômica resulta de uma luta pela sobrevivência da espécie humana. A sobrevivência requer a satisfação de necessidades básicas, que são sujeitas a mudanças. De todas as necessidades da vida apenas as puramente biológicas são absolutamente indispensáveis para a sobrevivência. Toda a nossa vida econômica se nutre de energia e matéria. Mas não é qualquer energia que é utilizada, não podendo ser energia dissipada. A energia tem que ser capaz de realizar trabalho. Diz-se que essa energia é de baixa entropia. Essa descoberta é conseqüência da Termodinâmica ter se desenvolvido a partir de um problema econômico: a eficiência das máquinas térmicas. A energia dissipada em forma de calor pela máquina não pode ser utilizada novamente. Por isso, o surgimento da Termodinâmica constituiu uma verdadeira Física do valor econômico, uma vez que distingue energia útil de energia inútil para propósitos humanos. Pode–se dizer, portanto que baixa entropia é uma condição necessária para que algo seja útil. Mas qual a relação entre os recursos de baixa entropia e o valor econômico? Tais recursos são escassos nos seguintes sentidos: 1) decrescem contínua e inevitavelmente;
2) uma dada quantidade de recursos de baixa entropia não pode ser usada mais que uma vez pelos homens (G-R, 1966).
A Lei da Entropia nos assegura que não podemos usar a mesma energia indefinidamente, queimando o mesmo carvão ad infinitum. Se isso fosse possível, não haveria escassez de fato e também não haveria resíduos do processo produtivo uma vez
que se poderia ‘reciclar’ 100%. Um país pobre em recursos naturais como o Japão não precisaria importar matérias-primas, e muitas populações não teriam sido forçadas a migrar por causa da exaustão do solo.
A literatura econômica mostra a crença de que o processo econômico pode continuar e até crescer sem precisar de recursos de baixa entropia16. Os sintomas analíticos disso são, por exemplo, a representação do processo econômico como um sistema isolado, isto é, modelos matemáticos que ignoram o fluxo de recursos naturais do ambiente. Outro sintoma é a noção de que o processo econômico é completamente circular. A epistemologia Mecânica é a principal responsável por tais concepções. Contudo, tais concepções não estão de acordo com leis da natureza. Simplificações são necessárias, mas trata-se de uma simplificação equivocada, pois não bate com a realidade física.
Do ponto de vista estritamente físico, o processo econômico é unidirecional, consistindo na transformação contínua de baixa entropia em alta entropia. Assim o processo econômico, desse ponto de vista, é entrópico: não cria nem consome matéria e energia, apenas transforma baixa em alta entropia. Mas se os processos físicos do ambiente natural também são entrópicos, então o que distingue o processo econômico? (G-R, 1966).
Como conseqüência inevitável da transformação dos recursos do ambiente, o processo econômico produz resíduos que não podem ser reaproveitados. Do ponto de vista físico, portanto, produz entropia. Mas essa não pode ser a razão de ser do processo. Afinal, o objetivo do processo econômico não é aumentar a quantidade de energia e materiais dissipados. A diferença é que o verdadeiro produto de tal processo não é um fluxo físico
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Um exemplo é o livro-texto “Introdução à teoria do crescimento econômico” de Charles Jones (2000), que sequer menciona o ambiente seja como provedor de recursos naturais (ignorados por Jones) seja como assimilador de resíduos do processo produtivo.
de resíduos, mas sim o aproveitamento da vida, ou um fluxo imaterial de bem-estar. Sem reconhecer o propósito humano não se está no mundo econômico. Se se admite que a vida em geral tenha a capacidade de se manter, se expandir e reproduzir, e de resistir à tendência universal de degradação entrópica das coisas, e, portanto, o propósito de se perpetuar, o que distinguiria o processo econômico dos biológicos?
Os dispositivos de captura de energia variam entre as espécies, mas são caracterizados pelo fato dos organismos nascerem com eles. Os organismos cujos dispositivos de captura de energia, órgãos, sejam mais eficientes em direcionar a energia disponível levam vantagem. Alfred Lotka (1956) deu o nome para esses órgãos de instrumentos
endossomáticos: asas e bicos de pássaros, chifres, mas também a constituição biológica
humana, seu corpo, são exemplos. Com pequenas exceções marginais o homem é o único animal que usa em suas atividades “órgãos” que não fazem parte da sua constituição biológica. Os economistas chamam isso de equipamento de capital, mas o termo instrumentos exossomáticos de Lotka enfatiza que o processo econômico entendido de maneira ampla é uma continuação do processo biológico. Os instrumentos exossomáticos possibilitam ao homem obter a mesma quantidade de baixa entropia com um gasto menor da própria energia do que se ele utilizasse apenas seus órgãos endossomáticos, pois parte do metabolismo é transferida para fora do corpo. E mais do que apenas utilizar instrumentos, os homens produzem seus instrumentos, usam instrumentos para fazerem mais instrumentos.
A evolução exossomática da Humanidade, mudanças no modo de produção de instrumentos por meio de instrumentos, cria novos meios, novos fins e novas relações econômicas. E era esse processo amplo de reprodução material das sociedades que passou a interessar Georgescu.