No Brasil, a principal fonte de P utilizada na alimentação animal é o fosfato bicálcico, no entanto, esta apresenta um custo relativamente elevado. Diante desta situação existe grande interesse em avaliar fontes de P não convencionais. Nesse sentido, os fosfatos de rocha mostram-se como alternativa ao uso de P em dietas de animais. A partir da década de 80, o uso dessas fontes de P têm sido estudadas por inúmeros pesquisadores, principalmente voltadas para suínos e aves. São escassas as pesquisas visando avaliar a utilização de diferentes fontes minerais para equinos, principalmente fontes alternativas de P, que poderiam reduzir o custo da suplementação e da alimentação como um todo (Tosi et al., 1999).
A farinha de ossos, o primeiro produto a ser utilizado no mundo como fonte de Ca e P suplementar, tem apresentado uso restrito, principalmente devido ao fato de apresentar sua composição com qualidades variáveis e sua oferta limitada. Além disso, com o advento da doença da vaca louca seu emprego com essa finalidade tende a desaparecer (Lopes, 2001).
Carbonato, sulfato e óxido de Ca são comumente formas inorgânicas de Ca (Highill, et al., 2005, citado pelo NRC, 2007). O consumo voluntário das fontes de Ca não é muito efetivo pelos equinos (Hintz, 1987), sendo uma possível alternativa para este problema a sua mistura aos grãos ou a outros alimentos palatáveis para o atendimento do consumo das suas exigências.
O P pode ser ingerido pelos animais como mono, di ou trifosfato, ou na forma orgânica, como fitatos, fosfolipídios ou fosfoproteínas (Pizzolante, 2000).
As fontes de P inorgânico comumente encontradas são: ácido fosfórico (24% P), fosfato bicálcico (18,5% P), fosfato de rocha (9% P), fosfato de rocha defluorinado (18% P), fosfato diamônico (20-23% P), fosfato dissódico (20,5% P), fosfato monocálcico (21% P), fosfato monossódico (22,4% P), trifosfato de sódio (25,3% P), fosfato supertriplo (17,5% P), fosfato monoamônico (21% P) e fosfato termomagnésio (7,5% P) (Lima et al., 1999).
O fosfato de rocha ou rocha fosfática é a rocha fosfatada simplesmente moída. É o minério de fosfato beneficiado por concentração física na sua forma natural. Os depósitos de fosfatos de rocha podem ter duas origens geológicas: ígnea e sedimentar (Chaves, 1994).
O fosfato bicálcico e os fertilizantes fosfatados solúveis, tais como o superfosfato triplo e o monoamônio fosfato, são fabricados a partir da mesma matéria-prima, ou seja, da rocha fosfática (Cardoso, 1991). Inicialmente, a rocha fosfática é tratada com ácido sulfúrico, resultando numa mistura de ácido fosfórico e sulfato de Ca (gesso). O fosfato bicálcico é obtido adicionando-se calcário ao ácido fosfórico, ao passo que com a adição de mais rocha fosfática ao ácido fosfórico produz-se o superfosfato triplo. A principal forma do P no superfosfato triplo é o fosfato monocálcico, solúvel em água. O monoamônio fosfato é produzido pela reação do ácido fosfórico com a amônia em fase gasosa (Cardoso, 1991).
Na Tabela 1 podem-se observar as concentrações médias de Ca e de P de algumas fontes para utilização na alimentação animal.
Tabela 1. Concentrações médias de fósforo e cálcio de algumas fontes de fósforo
Fonte Fósforo % Cálcio %
Fosfato bicálcico 18 23-24
Farinha de osso autoclavada 24 10,5
Farinha de osso calcinada 31,4 16
Monoamônio fosfato 23 -
Superfosfato triplo 20-21 15
Fosfato de rocha de Tapira 14,8 33
Fosfato de rocha de Patos 10,6 23
Fosfato de rocha de Araxá 10 36
A biodisponibilidade de um nutriente é a proporção ou a porcentagem do seu consumo que pode ser absorvida pelo intestino, tornando-se disponível para o uso no metabolismo ou para a estocagem nos tecidos (Veloso et al., 1991). Também pode ser expressa em termos relativos que compara o ingrediente considerado a outro tomado como padrão, ao qual é atribuído valor de 100% (Lopes, 2001).
Nenhum composto fosfatado apresenta P completamente disponível. Assim, a disponibilidade varia de acordo com a fonte de P utilizada, sendo esta importante na seleção das fontes mais convenientes (Veloso et al., 1991).
Considerando ser o aproveitamento do P dependente da solubilidade que apresenta no ponto de contato com as membranas onde é absorvido e dos fatores que agem para mantê-lo em solução (Maciel & Leboute, 1978), a fração absorvida é diretamente proporcional à quantidade do mineral ingerida e solubilizada (Field, 1981). A determinação da solubilidade é desta forma, muito importante na avaliação da biodisponibilidade de fontes de minerais utilizadas na alimentação animal.
Sendo assim, a concentração de P em um alimento tem pouco significado nutricional, a não ser que seja acompanhado de informações sobre sua disponibilidade biológica (Mabe, 1997).
A técnica de solubilidade em ácido cítrico a 2% vem sendo a mais utilizada para predizer o valor biológico dos fosfatos (Duarte et al., 2003). Os métodos in vivo mensuram os parâmetros biológicos e/ou desempenho zootécnico, tais como absorção verdadeira, alternando retirada e fornecimento do elemento ao animal (Ammerman et al., 1965), digestibilidade verdadeira (Heinze et al., 2004), níveis séricos, atividade da fosfatase alcalina (Vinocur et al., 1999; Mélo, et al., 2012), teor de cinzas na costela (Wise et al., 1991), velocidade de crescimento (Tosi et al., 1999), exame radiológico, bem como a técnica de diluição isotópica com o uso de radioisótopos (Vitti et al., 2008).
Lopes et. al. (2003) a partir do estudo do fluxo de P entre os compartimentos fisiológicos ou anatômicos de equinos, avaliaram a absorção e disponibilidade desse mineral com o P proveniente de diferentes fontes de fosfato (Fosfato de Tapira, fosfato de Patos de Minas, fosfato bicálcico e farinha de ossos) utilizando-se um modelo determinístico e compartimental, onde o trato gastrintestinal, os ossos e tecidos moles, em conjunto, representaram os compartimentos, em fluxo bidirecional com o sangue. Estes autores verificaram que o P excretado nas fezes e na urina e o fluxo bidirecional de P dos tecidos moles e ossos para o sangue não são influenciados pelo tipo de fonte de P, quando os fosfatos Tapira, Patos de Minas, bicálcico ou farinha de ossos são adicionados às dietas de equinos; o
fluxo de P do trato digestivo para o sangue depende do tipo de fosfato existente nas dietas, sendo maior nos fosfatos bicálcico, Patos de Minas e farinha de ossos; a disponibilidade biológica e a absorção real do P nos fosfatos Patos de Minas e da farinha de ossos em dietas de equinos são similares à do fosfato bicálcico, sendo que estes constituem então, fontes alternativas para suplementação dietética de P em equinos.
Tosi et al. (1999) avaliaram o desenvolvimento corporal de 18 potras com idade média de 11 meses e peso vivo médio de 250 kg, alimentadas com três dietas contendo fosfato bicálcico (FB); 50% de fosfato bicálcico mais 50% fosfato de rocha de Tapira (BT) e fosfato de rocha de Tapira (FT), incorporados ao concentrado (1,5% do peso vivo/animal/dia) e ao sal mineralizado (50g/animal/dia), a partir do efeito dos diferentes níveis de flúor e P presentes no fosfato de rocha de Tapira sobre o desempenho destes animais. Os autores verificaram que o nível médio de flúor nas dietas FB, BT e FT foi, respectivamente, de 53,0; 90,0 e 184,0 ppm. Segundo os autores, o consumo diferenciado de fluoreto nas diferentes dietas não acarretou efeitos sobre os parâmetros ganho de peso, perímetro torácico, perímetro do joelho e perímetro da canela. Os animais que receberam a dieta contendo exclusivamente fosfato de rocha apresentaram menor aumento de altura na cernelha (1,27cm) quando comparados àqueles que receberam dietas contendo fosfato bicálcico (1,55 e 1,30cm), não sendo recomendável a utilização do fosfato de rocha de Tapira como fonte exclusiva de P na dieta de equinos.