3. Teoretisk rammeverk
3.2 Ledelsens rolle
Esta categoria inclui as falas dos participantes em relação a três temas. O tema evento culminante se refere à ocorrência de um evento externo, também denominado culminante, desencadeador da crise; o tema percepção subjetiva da crise remete à percepção do entrevistado em relação às questões centrais que emergiram com as crises ligadas aos possíveis motivadores pessoais e à história de vida individual; e, por último, o tema percepção subjetiva do mercado corporativo procurou capturar as falas relativas à percepção do mercado corporativo e da empresa em que o participante estava inserido, quando vivenciou a crise.
O Quadro 2 indica a categoria desencadeante da crise e os três temas associados. QUADRO 2: DESENCADEANTE DA CRISE
Participante Evento culminante Percepção subjetiva da crise
Percepção subjetiva do mercado corporativo
Lucio Demissão questionamento sobre a busca profissional;
empresas representam ganhos financeiros; mercado é muito competitivo;
estrutura matricial gera confusão; Cesar Demissão identificação com o
sucesso;
empresas criam programas de reconhecimento que estimulam o ego; Adriano Nascimento do
filho
questionamentos sobre significado do trabalho e sua contribuição profissional;
empresas são extrativistas massacrando as pessoas;
Amanda Morte dos pais
questionamentos sobre o significado do trabalho e o legado que quer deixar;
empresas representam aprendizados e oportunidades;
empresas buscam a meta pela meta coisificando os funcionários;
Paula Falta de promoção rejeição por não ter sido escolhida;
empresas representam aprendizados e oportunidades;
empresas mudam as regras sem consideração às aspirações de carreira;
Odair
Dificuldade em lidar com chefe e adoecimento
trabalho como risco de adoecimento e morte levando-o a avaliar melhor as escolhas profissionais;
política pode ser mais importante do que o desempenho;
existência de práticas antiéticas em ambientes corporativos;
Noelia Divórcio
busca do significado do trabalho além “de números” e da necessidade de
reconhecimento;
empresas representam oportunidades; empresas representam ganhos financeiros; avaliação de desempenho não é coerente
com os feedbacks recebidos; pouco reconhecimento;
regras e diretrizes de trabalho mudam constantemente;
pessoas são medidas pelos números;
Larissa “Assédio moral”
necessidade de valorização dela e do outro levando-a a lutar por justiça;
empresas representam aprendizados; resultado está acima das pessoas; falta de consideração com o ser humano; falta de coerência entre o que é dito e o que
é praticado;
Joaquim Inquérito investigativo
identificação com a empresa;
empresas representam ganhos financeiros; empresa defende sua imagem colocando-se
contra os funcionários se for preciso;
Cecília Falta de promoção
desvalorização, falta de reconhecimento e fracasso em relação às expectativas de carreira;
empresas representam aprendizados e oportunidades;
empresas representam ganhos financeiros; meritocracia é injusta, o que conta é
marketing pessoal e relacionamento; relacionamentos são falsos;
Em todos os casos, foram apontados eventos culminantes que levaram os participantes a entrarem em crise. Dentre os dez participantes, sete relataram crises em decorrência de eventos relacionados ao trabalho, tais como: demissão, dificuldade de lidar com o chefe, assédio moral, inquérito investigativo, falta de promoção. Por exemplo, Cesar relatou o episódio da seguinte forma: “[...] até que uma sexta-feira, no fim do dia, eu fui chamado numa sala de reunião, entrei e ele (chefe) e a líder de recursos humanos [...] me comunicaram que eu (//)17 esse era o meu último dia de trabalho e eu deveria sair da empresa sem cumprimentar ninguém e sem pegar as minhas coisas, também.“ Os demais participantes descreveram eventos culminantes ligados à vida pessoal, como, por exemplo, divórcio, nascimento do filho e perda dos pais.
Se nem todos os eventos externos estão relacionados ao trabalho, todos relataram crises no trabalho em decorrência dos eventos culminantes ocorridos. Por exemplo, Adriano contou que: “[...] quando o filho nasce, você é confrontado com alguma realidade. E eu lembro exatamente no dia que ele nasceu, na sala de parto, estava com a mãe dele e aquela história, vamos gravar uma mensagem para P. [...] e falei isso: o que eu quero para o meu filho? Eu desejo que você seja honesto consigo mesmo. [...] eu me toquei do (//) logo em seguida só tinha um jeito de eu ter alguma chance de ele ser honesto consigo mesmo, se eu fosse. E aí eu comecei a me confrontar com as minhas questões, com várias questões minhas [...].”
O evento externo marcou a entrada na crise como um estopim, um motivo gerador de vários questionamentos e reflexões relacionadas à história de vida e aos motivadores pessoais. O tema percepção subjetiva da crise procurou capturar essas elaborações.
Todos os participantes revelaram percepções subjetivas da crise, as quais foram: questionamento do significado do trabalho e do legado a deixar, necessidade de reconhecimento e valorização, identificação com a empresa e com o sucesso, questionamento sobre os motivadores da busca profissional, trabalho como possibilidade de adoecimento e morte. Por exemplo, Joaquim relatou perceber sua identificação com a empresa: “[...] então muitas vezes você se coincide com a própria empresa, a tua vida, seja por um problema de horas, seja pela tua postura [...].
17
O símbolo (//) indica cortes na fala feitos pelo narrador. São frases que não foram terminadas ou ideias que foram interrompidas.
Quando ocorreu a crise [...] houve, naquele exato minuto uma super-ruptura como a empresa me via, como eu via a empresa e obviamente com a minha vida.”
Um último tema levou em consideração o cenário no qual a crise se desenrolou. Pensando nas empresas como um palco onde a crise aconteceu, procurou-se observar a percepção dos participantes em relação às experiências, vividas na empresa, que eles julgaram ter colaborado com a trajetória profissional e, eventualmente, com a crise.
Verificou-se que a maioria dos participantes salientou aspectos positivos do mercado como aprendizado, abertura a novas oportunidades de desenvolvimento e possibilidade de ganhos financeiros, mas todos teceram críticas. As críticas mais recorrentes se relacionam com o desbalanço entre os objetivos corporativos e a consideração e valorização do profissional, descritas como, por exemplo: as empresas são extrativistas, massacrando as pessoas; as empresas buscam a meta pela meta, coisificando os funcionários; no mercado da atualidade, as pessoas são medidas pelos números, e aquelas que não servem são descartadas; as empresas mudam as regras, sem consideração às aspirações de carreira. Por exemplo, Larissa comentou que, nas empresas, o resultado está acima das pessoas, permitindo inclusive que uma gestora assedie moralmente um funcionário e se mantenha na empresa, porque traz resultados. Ela mencionou a resposta que obteve de uma alta executiva, para quem ela denunciou o assédio: "A gente sabe que ela é assim, ela já maltratou faxineira, ela já maltratou o cara do ar condicionado, ela já maltratou (//), quem ela pôde, ela já maltratou, e a gente sabe que ela é assim, mas é que ela dá (//), ela apresenta resultados”.
Em geral, os participantes demonstraram a compreensão de que as empresas têm como meta gerar lucros, contudo, a maioria salientou um exagero em perseguir metas, em detrimento do indivíduo que trabalha. Um exemplo dado é a percepção de que as empresas reforçam a importância dos funcionários, em seus discursos, mas que, na prática, o que se observa é o contrário.
Foram também identificadas nos relatos outras percepções do mercado corporativo, tais como: as estruturas matriciais das empresas flexíveis geram confusão, dificultando a compreensão do sistema de poder; a meritocracia é injusta, pois o que conta é com quem você se relaciona e não a capacidade em si; mudanças frequentes de projeto que desorientam o funcionário e não permitem que se mantenha o histórico das
realizações passadas, resultando em um eterno recomeçar. Por exemplo, Cesar se referiu aos programas de reconhecimento que estimulam a competição e premiam os que são considerados melhores, destacado na fala a seguir: “Agora, as empresas, digamos, usam tudo isso, exemplo: na [empresa] tem uma tradição, hoje eu diria até um ritual que todos os anos, todas as pessoas devem ir a [cidade] e são escolhidos a ir para o pódio as pessoas que mais venderam e aí você tira uma foto com os deuses, que são [presidente e vice-presidente], e essa foto de um ser humano, que é você, com os deuses, meio que te leva para o pódio dos deuses também e você vai perdendo noção do que é o mundo.”
Enfatizam-se ainda, na análise desta categoria, as distintas maneiras de os participantes expressarem suas percepções do mercado corporativo que emergiram ao longo da entrevista. Há aqueles que relataram suas percepções como se descrevessem aspectos do trabalho, sem carregá-los de um caráter de vitimização ou de injustiça. Mesmo que o ambiente possa ser compreendido por eles como hostil, tais participantes não culparam as empresas pelas suas crises, abrindo espaço para uma análise introspectiva ligada à sua própria contribuição na situação vivida. Os relatos parecem indicar que esses participantes se voltaram mais aos questionamentos associados à percepção subjetiva da crise do que à hostilidade corporativa e, ao fazê- lo, criaram condições para uma possível ampliação de consciência passível de ser alcançada por meio de uma integração de conteúdos da sombra, os quais possam emergir.
Em suma, a partir da análise da categoria desencadeante da crise, observou-se que, em todos os casos pesquisados, houve um fato externo, denominado evento culminante, gerador da crise no trabalho. Na maioria dos casos, o evento culminante esteve relacionado a uma questão de trabalho, mas houve casos nos quais um evento de ordem pessoal se estendeu ao campo profissional. Independentemente da origem do evento culminante da crise, para todos os participantes, a ocorrência de tal evento cooperou para a emergência de questionamentos e reflexões relacionadas aos motivadores pessoais individuais e, portanto, à história de vida, levando alguns participantes a novas reflexões.
Se a trajetória de vida individual modula as experiências e reflexões subsequentes, a influência do ambiente também pôde ser observada. Todos os participantes fizeram leituras sobre o ambiente de trabalho, práticas corporativas ou relacionamentos
profissionais que contribuíram para suas vivências no trabalho e de crise e para as reflexões que emergiram.