3. Teoretisk rammeverk
3.8 Intern merkestyrke
A categoria sentido existencial da crise procura expressar o significado atribuído ao percurso da crise como um todo, ou seja, ao que a crise simbolizou para a pessoa.
QUADRO 6: SENTIDO EXISTENCIAL DA CRISE
Participantes Sentido existencial da crise
Lucio crise como reavaliação do trajeto profissional e da busca ligada ao pai; crise como desidentificação com a persona;
Cesar crise como possibilidade de voltar-se a si [sic]; crise como desidentificação com o sucesso [sic];
Adriano
crise como confronto consigo e aprofundamento [sic]; crise como amadurecimento e separação dos pais;
crise como possibilidade de compreensão da sua contribuição profissional; Amanda crise como possibilidade de compreensão da vocação;
crise existencial em decorrência do confronto com a morte;
Paula crise como possibilidade de crescimento profissional; crise como reflexão sobre o que está deixando de lado;
Odair
crise existencial [sic] em decorrência do adoecimento;
crise como desenvolvimento de mecanismos na tentativa de controlar os riscos via melhor avaliação das decisões de trabalho;
Noelia crise como mudança de valores [sic];
Larissa crise como uma oportunidade de olhar para si;
Joaquim crise como marcas profundas que não serão esquecidas [sic]; crise como reflexão sobre a identificação com a empresa;
Cecília
crise consigo mesma [sic];
crise como reavaliação da trajetória profissional e frustração por não ter atingido a posição que almejava.
Todos relataram a jornada percorrida, atribuindo espontaneamente um significado para a crise, de acordo com seu contexto de vida. As trajetórias descritas foram capturadas e resumidas no quadro acima. Em alguns casos, os próprios participantes articularam frases as quais resumiram o que a crise simbolizou para eles. Tais frases foram captadas no quadro acima e estão ressalvadas por [sic]. Em outros casos, a jornada mencionada pelo participante foi condensada em uma frase que pudesse refletir o sentido da crise descrito por ele.
A maioria se referiu à crise de forma positiva, associando-a a uma oportunidade de desenvolvimento, aprofundamento ou crescimento, mesmo que tenha reconhecido alguma dor associada. Por exemplo, Cesar relatou: “[...] eu sou muito grato a elas (crises) porque eu acho que é numa crise que você realmente aprende, é numa crise que você se depara consigo próprio [...] a crise é a destruição ou a morte em função
de um novo nascimento, de uma renovação, de um crescimento e isso sempre é muito bom [...].” Houve, no entanto, alguns participantes que não relataram aspectos positivos da crise, associando-a apenas à dor e à frustração, como, por exemplo, Joaquim, que se referenciou à crise como uma doença que deixa marcas profundas as quais não serão esquecidas.
Os sentidos existenciais da crise relatados indicaram, em sua maioria, a associação da crise a uma oportunidade de reflexão introspectiva, ilustrada por alguns participantes como “voltar-se a si”, “confronto consigo” ou “oportunidade de olhar para si”.
Em alguns casos, a oportunidade de reflexão parece ter resultado em novas maneiras de se assumir, tais como: a desidentificação com a persona ou com o sucesso, a separação dos complexos parentais descritos a partir da morte dos pais ou de uma maior responsabilidade em lugar da dependência dos pais. Por exemplo, Cesar que narrou reconhecer o quanto ele se identificava com o sucesso, descrito na passagem: “[...] a segunda crise eu acho que foi me mostrar que o (//) que o meu ego é facilmente alimentável pelo meu sucesso, que eu tenho capacidade de criar um monte de coisas que, em última instância, alimenta o meu ego, de alguma forma o meu ego toma conta de mim e me ensurdece. [...] O que fundamentalmente estava errado, eu acho que estava errada a minha confusão entre o meu trabalho, o meu sucesso, com a minha pessoa, entre (//) tudo aquilo que vai, digamos, um trabalho com sucesso e se você é o CEO de uma empresa, há uma série de tentações, com as quais você é submetido, seja por dinheiro, por poder, por contrariedade, por processos ou pelo o que for, e você talvez comece a perder o chão, sabe, quem você é, quem que é o mundo, o que é a empresa, o que são os colegas, [...] e o que nós somos em tudo isso, qual é o nosso papel. Não somos (//) ninguém é mais do que ninguém, ninguém é Deus, ninguém é campeão, ninguém é nada, não.” A partir dessas reflexões, Cesar descreveu mudanças de atitude e de significado existencial, indicando uma elaboração.
Em outros casos, mesmo que haja indicação de alguma reflexão, os relatos apontaram para reflexões incipientes ou esparsas. É muito difícil determinar o grau de apreensão da situação, no entanto, notou-se em algumas falas uma consistência e coesão e, em outras, apreensões mais esporádicas. Por exemplo, no relato de Joaquim apontou para uma reflexão incipiente, ao indicar a percepção sobre a identificação com a empresa, mas que parece estar mobilizado por afetos ao relatar a necessidade de
reconhecimento. O trecho a seguir exemplifica sua fala: “[...] é quase que a gente, a empresa, a gente se coincide [...] eu consigo ser o diretor da empresa o tempo inteiro, então você não consegue, nem que você queira, você não consegue tirar essa persona, essa máscara e tem que continuar vivendo. [...] e aí vejo assim: caramba, meu, e aí agora quando acontece a crise, ela (empresa) me tratou de uma forma, como um número, de uma forma [...]. Então ver isso para mim de alguma forma racionalmente você sempre sabe que a empresa é assim, mas na hora que você vive, aí fica claro [...] então, porque eu não mudei tanto o meu dia a dia, na minha relação com a empresa? [...] talvez o que me move a me matar de trabalhar, te juro que não é dinheiro [...] no fundo, se eu for bem a fundo, mesmo, talvez seja orgulho, mesmo, de ser reconhecido, de tal, tal. E de novo, talvez por carência, talvez por alguma carência afetiva, por carência, por (//) está errado te basear tanto para te cobrir outras deficiências ou alguma outra insegurança e tal. Mas então eu, mas eu estou aqui sendo honesto, talvez eu não tenha incorporado muito das coisas que eu devia ter mudado, até por esse lado racional que eu tenho, não sei te explicar direito por quê, mas a minha cabeça continua ainda um turbilhão de questionamentos aí, tal. Mas é assim. Talvez eu preciso de ajuda, né, precise de ajuda de um profissional.”
Já o relato de Cecília, por exemplo, parece apontar aparentemente para uma reflexão esparsa, ao se questionar quem fez as escolhas erradas, ela ou a empresa. ou ao argumentar que não chegou ao objetivo profissional almejado. Contudo parece estar dolorosamente voltada à falta de reconhecimento do outro.
Alguns relatos apontaram para o uso de defesas para lidar com a situação, como por exemplo, Odair, que narrou a busca por desenvolver um melhor processo de avaliação de propostas profissionais na tentativa de mitigar riscos, conforme está exemplificado no trecho: “[...] eu tenho que aprender a lidar com isso aqui. [...] porque eu não queria mais tomar decisões erradas, eu não queria mais ir para lugares errados, eu não queria mais passar por coisas que eu tinha passado. Eu falei: eu não quero morrer de novo disso aqui [...].” Esses participantes parecem seguir em frente, em busca dos objetivos habituais e de modo semelhante.
Em suma, a crise representou para todos um potencial de renovação, no qual novos questionamentos emergiram em maior ou menor grau. A maioria dos participantes indicou ter havido reflexões a partir desses questionamentos. Alguns demonstraram um aprofundamento dos mesmos ao passo que outros indicaram reflexões incipientes ou esparsas empregando aparentemente mecanismos de defesa e constituindo
personas mais defensivas para lidar com a situação. Observou-se, nos relatos, que o grau de aprofundamento parece estar relacionado com a forma como cada um lidou com os questionamentos que emergiram a partir da culminação de um evento gerador da crise. Aqueles que deram ênfase a uma reflexão introspectiva, ao invés de buscar culpados no mundo ou no outro, parecem apontar para um processo de ampliação de consciência, diferentemente daqueles que teriam adotado uma postura mais vitimizada, enfatizando inclusive exaustivamente, em alguns casos, a hostilidade do mundo.