No modelo tecnicista, segundo Libâneo (1986),
aprender é uma questão de modificação do desempenho: o bom ensino depende de organizar eficientemente as condições estimuladoras, de modo que o aluno saia da situação de aprendizagem diferente de como entrou. O ensino é um processo de condicionamento através do uso de reforçamento das respostas que se quer obter. (p. 31).
Já de acordo com Delizoicov e Angotti (1992, p. 26), “o modelo tecnicista teve grande influência na década de 60 e grande repercussão na década de 70”, momento em que o mundo passava pela crise energética e por agressões ambientais, resultado da grande industrialização. Na história do Brasil, esse foi um período (final da década de 1960 e início da década de 1970) em que a sociedade ficou sob o poder da ditadura militar, ou seja, momento em que o povo brasileiro perdeu o poder de exercer a crítica e a participação e o país vivia o nacionalismo e a internacionalização econômica, sendo que grande parcela da população foi submetida a arrochos salariais.
Em dezembro de 1968, foi baixado a Ato Institucional (AI) nº 5,26 por meio da Lei nº 5.540/68, com a qual os militares promoveram a reforma no ensino superior, além de extinguirem a cátedra, introduzirem o regime de tempo integral e dedicação exclusiva aos professores, criarem a estrutura departamental, dividirem o curso de
26 Concede ao Presidente da República plenos poderes para atuar como Executivo e Legislativo. O
Decreto-Lei nº 477, editado em 26 de fevereiro de 1969, durante a ditadura militar, definiu infrações disciplinares praticadas por professores, alunos, funcionários ou empregados de estabelecimentos de ensino público ou particular. Na prática, o decreto estabeleceu rito sumário para demissões e desligamento de professores, funcionários e estudantes que praticassem infração disciplinar considerada subversiva nas universidades brasileiras (BRASIL, 196 9).
graduação em duas partes (ciclo básico e ciclo profissional), criarem o sistema de créditos por disciplinas, instituírem a periodicidade semestral e o vestibular eliminatório, e implementarem a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (BRASIL, 1968).
Já a Lei nº 5.692/71 promoveu mudanças na estrutura organizacional da educação nacional, determinando a ordenação dos períodos, séries, faixas ou etapas a serem vencidos pelos alunos para completar seus estudos, em todos os graus de ensino. Segundo o texto da lei, o currículo tinha, agora, como pressuposto proporcionar ao aluno a formação necessária ao desenvolvimento de suas potencialidades, como elemento de autorrealização, qualificação para o trabalho e preparo para o exercício consciente da cidadania, tendência essa visivelmente tecnicista (BRASIL, 1971).
Nesse contexto, segundo Libâneo (1986),
o objetivo central da introdução do modelo tecnicista nas escolas brasileiras, era o de adequar a o sistema educacional dentro do regime militar e do sistema capitalista de produção.Produzir indivíduos competentes para o mercado de trabalho transmitindo informações precisas e objetivas. (p. 16).
Quanto aos materiais utilizados nesse modelo, o livro texto passa ser a peça- chave, sendo imposto, segundo Krasilchik (1987),
o modelo chamado de estudo dirigido, termo mal aplicado a exercícios, em geral compostos por questões de múltipla escolha que depe ndiam apenas na leitura ou, mais raramente, questões dissertativas que requ eriam transcrição literal do texto, assim passa o professor a ser um aplicador de programas prontos, elaborados não por ele. (p. 30).
Já entre os conteúdos a serem desenvolvidos, estão as leis e os princípios científicos; cita, ainda, Libâneo (1986, p. 29) que a matéria a ser ensinada é “apenas o que é redutível ao conhecimento, observável e mensurável; os conteúdos decorrem assim,da ciência objetiva, eliminando-se qualquer sinal de subjetividade.”
A relação professor-aluno, por sua vez, acontece de maneira que os papéis estão bem definidos, cabendo ao professor transmitir a matéria e efetivar a aprendizagem do aluno e esperando que este receba e guarde as informações transmitidas pelo professor. Aliás, no modelo tecnicista, o importante é transmitir o
conhecimento de maneira eficaz, de modo que o papel da escola baseia-se nas aptidões individuais, preparando o aluno para desempenhar papéis e se adaptar às regras e valores da sociedade pelo desenvolvimento da cultura individual.
Libâneo (1986) descreve que, nesse modelo, a escola
funciona como modeladora do comportamento humano, através de técnicas específicas. Organiza o processo de aquisição de habilidades, atitudes e conhecimentos específicos, úteis e necessários para que os indivíduos se integrem na máquina do sistema global. Tal sistema social é regido por leis naturais (há na sociedade a mesma regularidade e as mesmas relações funcionais observáveis entre os fenômenos da natureza), cientificamente descobertas. Basta aplicá-las. A escola atua no aperfeiçoamento da ordem social vigente, articulando-se diretamente com o sistema produtivo e empregando a ciência da mudança do comportamento, ou seja, „tecnologia comportamental‟. É interesse da escola produzir indivíduos „competentes‟ para o mercado de trabalho, transmitindo eficientemente informações precisas, objetivas e rápidas. (p. 16).
Para tanto, a metodologia desenvolvida envolve o arranjo e o controle das condições ambientais e a comunicação técnica, objetivando unicamente a transmissão do conhecimento; assim, as relações pessoais e afetivas são desconsideradas e se faz uso da tecnologia educacional, através da programação por passos, visando a um comportamento adequado e ao controle do ensino. Nas escolas públicas, a aplicação dessa tecnologia instrucional aparece, segundo Libâneo (1986), das seguintes formas:
planejamento em moldes sistêmicos, concepção de aprendizagem como mudança de comportamento, operacionalização de objetivos, uso de procedimentos científicos instrução programada, audiovisuais, avaliação, etc ., inclusive a programação de livros didáticos. (p. 30).
Além disso, o processo de ensino-aprendizagem ocorre através de objetivos tecnicamente definidos, de forma que o ensino considerado de boa qualidade é aquele em que o estímulo é organizado, fazendo com que o aluno saia do processo diferentemente da maneira que entrou, ou seja, analisando a aprendizagem, com o objetivo de sequenciar seu processo através da execução do programa proposto. Nesse sentido, para Libâneo (1986, p. 18), “o ensino é um processo de condicionamento através de reforçamento das respostas que se quer obter.”
O modelo tecnicista, portanto, coloca os alunos diante de uma verdade objetiva das Ciências, desenvolvidas em atividades práticas, através da instrução programada e de um hábil planejamento enriquecido com recursos da técnica, como objetos, experimentos, vídeos, computadores e outros, sendo que, nessas aulas, os alunos e, também, os professores colocam-se como ouvintes, frente a uma verdade científica apresentada e não contestada.