2. Theoretical framework
2.1. Lean production
No que se refere às pesquisas sobre o cotidiano, o olhar do historiador passou a abranger o global, valorizando as mudanças contínuas e estabelecendo diálogos entre o local e o mundial. Segundo Jean-Marie Pezes (2005) a saída do porão ao sótão, onde as massas silenciosas foram colocadas em primeiro plano, levou o historiador ao cotidiano, fazendo com que a pluralidade fosse percebida como meio fundamental para compreender o contexto em que os atores sociais estudados estavam envolvidos. A partir deste amplo e complexo processo definido por Braudel na metade do século XX como longa duração histórica, é possível compreender mudanças e permanências, continuidades e descontinuidades na história.
Com base no que colocou Shackel citado por Hall (2000:17), long-term history can be discussed in terms of centuries or evem millennia. It reveals trends and broad changes and filters out the idiosyncracies of individuals and short-term events. É nesta história lenta, onde o tempo dura décadas e até mesmo séculos, e onde há possibilidade de se realizar análises de micro-histórias, é que minha pesquisa foi inserida, percebendo costumes e hábitos, a relação da sociedade com a paisagem urbana, evidenciando os personagens esquecidos, que se tornaram invisíveis aos olhos da historiografia tradicional.
Na longa duração histórica não há fronteiras delimitadas, nela, o processo de escravidão negra mesmo que regional, deve ser entendido primeiramente como um processo global e como o sistema escravista iniciado na Europa a partir do final do século XVII atingiu proporções intercontinentais, não é possível escrever sobre uma história isolada no tempo e no espaço físico, mas, uma história onde os tempos se sobrepõem possibilitando relações com o tempo presente.
Um dos problemas enfrentados pelos historiadores para se compreender esse longo processo apontado por Vainfas e Souza (1998), é o desconhecimento da história africana. Segundo Paul Lovejoy (2002) o tema escravidão possui uma amplitude e sua disseminação na África ocupou uma área geográfica cada vez maior, difundindo-se para fora das regiões envolvidas no comércio exterior. Partindo deste princípio, cabe ao historiador da escravidão conforme alerta João José Reis (1996), investigar a história dos africanos anterior à travessia do Atlântico, onde o lado africano deve ser levado em conta por fornecer dados muitas vezes desconhecidos à pesquisa histórica.
De acordo com a estimativa realizada por Manolo Florentino (1997:7), entre os séculos XVI e XIX, 40% do contingente negro traficado desembarcou em portos brasileiros, sendo possível afirmar que a escravidão foi por muito tempo uma característica nacional, pois nenhuma outra região americana esteve tão ligada ao tráfico de africanos como o Brasil. Nas Américas, aproximadamente 15 milhões de africanos foram importados através de um sistema visto inicialmente, como legítimo aos olhos tanto da sociedade européia quanto da sociedade africana (REIS, 1996).
Para Fage (1995:233) o início do empreendimento europeu na África não ocorreu de forma premeditada, em vista disso, os europeus desconheciam os produtos produzidos na África, sendo a Ásia seu alvo de interesse. Em busca de novas rotas comerciais, os portugueses estabeleceram contato com os africanos localizados na costa centro-ocidental, onde estava o reino do Congo. Sabe-se que a entrada oficial dos portugueses no reino do
Congo teve início no século XV quando Dom João II ordenou que navios percorressem a costa da África com a finalidade de estabelecer os primeiros contatos. Além de instituir uma tentativa de comércio através de uma entrada pacífica e cristianizadora, os portugueses visavam obter a partir do Congo, a comunicação com o interior através de uma rede de vias comerciais existentes em toda sua extensão.
Com base no que colocou Nei Lopes (1988) a África possuía uma extensão de terra que somava cerca de 8.000 km de norte a sul, e 7.600 km de leste a oeste, totalizando 30.000.000 m² de superfície. Dividido em cinco grandes regiões, Norte, Central, Ocidental, Oriental e Austral, o continente africano em meados do século XV já tinha recebido a visita do português Antão Gonçalves, seqüestrador de um casal de africanos com o propósito de comprovar na Europa que realmente existia um país de negros.
Após a entrada na nova terra alguns portugueses ficaram no reino do Congo com o objetivo de aprender a língua e estabelecer os primeiros negócios com os congoleses. Em 1491 foram trocadas embaixadas entre as cortes de Portugal e do Congo e enviado um contingente de sacerdotes para converter primeiramente o monarca e depois os chefes dos clãs, com um processo de cristianização que atingia primeiramente o alto escalão e em seguida, o restante da população. Depois de dominarem o idioma, a cultura do povo que seria cristianizado e estipularem estratégias para o processo de conversão, os missionários enviados pelo rei português introduziram uma mudança na forma de pregação nos cultos, coincidindo com as idéias nativas de imortalidade da alma e de destino póstumo.
Conquistados os chefes tribais e realizados os primeiros contatos com os traficantes de escravos locais, Lopes (op. cit) salienta que começaram a ser oferecidas e vendidas aos portugueses, pessoas condenadas e prisioneiras de guerra, caracterizando o território do Congo como uma importante fonte de escravos. Anterior à chegada dos portugueses já havia na África uma escravidão doméstica e de linhagem, onde os escravos africanos eram trocados por sal, ouro e marfim através do Saara, e também comprados pelos comerciantes dos reinos prósperos como mão-de-obra para transportar mercadorias nas trilhas percorridas a pé, conhecidas somente pelos comerciantes africanos. Segundo Florentino (1997:92), entre 1510 e 1520 já havia notícias de prisioneiros kimbundu sendo vendidos como escravos provindos do sul do Congo, e em meados do século XVI, os traficantes de escravos já ocupavam uma hierarquia social que se destacava neste reino. Thornton apud Funari (1999:79) também aponta que o comércio de escravos na África era voluntário e os reinos não eram de forma alguma obrigados a fornecer escravos aos europeus. Os
contrabandistas africanos por sua vez, manipulavam o preço dos cativos podendo ser considerados sócios tanto dos mercadores quanto das autoridades européias no desenvolvimento do comércio de escravos.
Além deste fator, a escravidão fornecia um grande contingente de escravos obtidos através de guerras, ataques e seqüestros. Também havia casos de escravidão por procedimentos judiciais e religiosos, punições por roubo, assassinato, adultério e bruxaria (LOVEJOY, 2000). No Congo, a escravidão auxiliou no fortalecimento dos exércitos e como conseqüência, houve um aumento de territórios conquistados transformando-o em um reino poderoso.
No Brasil colonial, a escravidão negra surgiu como mão-de-obra eficaz para o trabalho na exploração das riquezas naturais, nos engenhos e nas plantações. Florentino (1997) e Kátia Mattoso (1990) apontam que o tráfico enquanto negócio atendia um determinado perfil de empresa traficante e atingia níveis de rentabilidade que tornavam a empreitada portuguesa um meio eficaz de aquisição de mão-de-obra barata.
Depois que os primeiros portugueses chegaram ao território brasileiro, não houve uma colonização maciça para a exploração dos recursos naturais existentes. Somente após algumas décadas, Portugal assumiu definitivamente a colônia em um turbulento processo de disputa de território que envolveu outros países europeus.
Como a escravidão interna na África atingiu outros reinos, este fator fez com que viessem para o Brasil, escravos de diversas etnias e regiões, no entanto, a região congo- angolana9 ao fornecer um grande número de africanos, acabou abrangendo a maioria dos cativos, denominados erroneamente como provenientes do Congo ou de Angola. Além desta nomenclatura, os cativos africanos passaram a ser chamados de acordo com os portos de embarque, ocasionando um abandono da pátria de origem e a criação de novos elementos de denominação.
Entre as principais regiões africanas que enviaram escravos ao Brasil através do tráfico estava a costa ao Sul do Equador, a costa Oriental e a costa Ocidental da África.
9 Conforme Munanga (1995) a palavra “Congo” anteriormente era utilizada para referenciar o antigo reino
africano. Atualmente remete-se a dois países da África Central: a República do Congo, também chamado de Congo-Brazzaville e a República Democrática do Congo, conhecido como Congo-Kinshasa ou Zaire Congo. Do antigo reino do Congo eram provenientes os congos, muxicongos, loangos, cabindas e monjolos. E do antigo reino de Angola, vinham os massanganas, caçanjes, loandas, rebolos, cabundás, quissamãs e ambacas e mais ao sul, os benguelas.
Grande parte da zona correspondente ao atual Sul/Sudeste (Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) conheceu um enorme incremento demográfico. Assim, de uma população global de 750 mil habitantes em 1790, passou-se para aproximadamente 2,5 milhões em 1830. (FLORENTINO, 1997:41).
Os portos localizados no Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil, recebiam anualmente uma grande quantia de escravos, comercializados não somente entre as regiões próximas ao porto de desembarque, mas também nas fronteiras interprovinciais. Nos portos de desembarque, os grupos de distintas regiões da África adquiriam novas identidades e resignificavam suas culturas devido aos novos contatos e confrontos sociais e culturais encontrados no Novo Mundo.