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Elements of the Lean philosophy

2. Theoretical framework

2.2. Elements of the Lean philosophy

A partir das primeiras décadas do século XX os lapeanos elegeram uma memória para ser perenizada. A identidade construída remete além do tropeirismo, o passado guerreiro da cidade devido às Revoluções Farroupilha e Federalista. Ao contrário de outras

cidades que privilegiaram aspectos religiosos, a cultura cristã e européia inicialmente foi deixada de lado na Lapa, juntamente com os dados que mostravam uma população negra significativa na região. Logo em seguida, a atenção dada às colônias de imigrantes estabelecidas no interior, desviou os olhares para a cultura branca e européia e para os bens edificados que remetiam à arquitetura mineira e paulista confeccionados com técnicas de taipa de pilão e pau-a-pique.

No final da década de 1980, o avanço da urbanização nos locais que refletiam a memória eleita, começou a preocupar algumas autoridades locais, pois as casas que remetiam à cultura de influência portuguesa e que tiveram papel na Revolução Federalista estavam desaparecendo da noite para o dia em função da construção de novos espaços e da influência de novos modelos arquitetônicos. Recorrendo às políticas públicas que selecionavam ou criavam lugares em função de uma historicidade, políticos locais e estaduais iniciaram o processo de tombamento do centro histórico17 em um conturbado momento que ficou caracterizado pelas divergências políticas e pelos questionamentos quanto às normas de uso e ocupação da área histórica. A partir do trabalho desenvolvido por Rosina Parchen (1993), o tombamento efetuado pelo governo estadual e federal, delimitou o perfil arquitetônico ainda existente na cidade, e o centro foi considerado como sítio histórico devido ao evento da Revolução Federalista.

Um ponto importante para ressalvar, é que as primeiras medidas para preservar o patrimônio histórico lapeano já datavam da década de 1937, e foram quase que simultâneas a criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – SPHAN. No entanto, somente na década de 1970 foi criado o Plano Diretor Urbano que delimitou o centro histórico preservado ao privilegiar a arquitetura civil, religiosa e militar.

Apesar dos esforços municipais e estaduais para preservar o centro histórico, em 1989 foram iniciadas as primeiras demolições e o prefeito da época, Sérgio Augusto Leoni, temendo danos irreversíveis ao patrimônio cultural, recorreu ao tombamento do setor histórico com o propósito de impedir sua destruição total. Ao descrever sobre o agitado processo de tombamento do centro histórico lapeano La Pastina Filho salientou que,

17 De acordo com a Secretaria de Estado da Cultura do Paraná (2006), o setor histórico tombado da Lapa

abrange uma área de 23,41 ha., dos quais 20% são destinados à circulação de veículos e pedestres, 2% a espaços públicos abertos e 78% a edificações. Os 235 lotes da área têm formato e dimensões bastante diversificados, com superfícies variando entre 54 a 7337m², com testadas de cinco até 93 m. lineares. Dos 235 lotes, 222 são ocupados com 258 edificações e 13 estão vagos.

Tombamento não significa congelamento da cidade e muito menos a condenação da população da Lapa a viver nos moldes do século XVIII ou XIX. Ao contrário, o tombamento pretende, com a preservação do patrimônio ambiental urbano, garantir uma melhoria da qualidade de vida da população, evitando todos os males de um desenvolvimento ilusório (LA PASTINA FILHO APUD PARCHEN, 1993:51).

Efetuado o tombamento e preservadas as casas do centro histórico, a memória construída não foi aceita por muitos lapeanos, sendo questionada como um ponto que impediu o crescimento econômico da região. Passados quase vinte anos do processo de tombamento, há dois fatores importantes para reflexão: 1. a permanência dessa visão sobre o tombamento, e 2. a não incorporação da nova geração de lapeanos da identidade guerreira e de resistência.

Com relação ao primeiro fator, a historiadora Andréa Meira (2000) ao pesquisar sobre o processo de tombamento do centro histórico lapeano, aponta que uma grande porcentagem da população, não foi devidamente informada sobre o que era o tombamento, recebendo informações inconsistentes de várias pessoas, ligadas ou não as políticas de preservação, fato que dificultou o processo de preservação do patrimônio cultural lapeano e possibilitou muitas vezes, sua destruição. Sobre o segundo fator, o reconhecimento do legado tropeiro foi apontado pela nova geração de lapeanos no Inventário Nacional de Referências Culturais realizado pelo IPHAN (2006) com o intuito de saber quais eram suas referências culturais. Como resultado, o tropeirismo foi escolhido como referência cultural, pois os hábitos dos viajantes foram assimilados como cultura pela população. Como exemplo, cito o vestuário e a alimentação dos tropeiros como características dessa assimilação, onde no período de inverno, é possível observar nas ruas da cidade e principalmente no interior, pessoas usando poncho e botas de cano. Além do vestuário, o chimarrão e a comida baseada no virado de feijão, lingüiça, quirera e arroz misturado com carne, também foram reconhecidos como identidade local.

Assimilado como herança, o modo de vida do tropeiro têm permanecido tanto na memória quanto nos costumes praticados pelos lapeanos, porém, uma grande quantidade de pessoas desconhece que os hábitos culinários tropeiros provêm de uma mistura de pratos com influência portuguesa, indígena e africana.

O que poucos lapeanos percebem, é que os tropeiros não compõem uma etnia, mas eram trabalhadores que conduziam tropas e comerciantes de cargas e de animais, que provinham de diversas regiões do país. Descendentes de espanhóis, portugueses, indígenas,

africanos, dentre outros, os tropeiros possuíam uma cultura onde trajes, alimentação, linguagem e hábitos, faziam parte de um universo cultural heterogêneo.

Com relação aos tropeiros negros, Debret registrou a presença de homens livres e escravos usados como mão-de-obra no carregamento de mercadorias diversas e na condução das tropas de cavalos e muares. Nas regiões Sul e Sudeste do Brasil, esses homens trabalhavam no transporte de carga circulando junto com outros tropeiros e conforme Marcelo Godoy (2003) em Minas Gerais, por exemplo, o tropeirismo apresentava expressiva participação de escravos, onde os cativos respondiam pelos trabalhos cotidianos de condução e cuidado dos animais, carregamento e descarregamento de mercadorias nos ranchos e também, praticando outras tarefas diárias.

Sobre a memória material deixada pelos negros na Lapa, existem algumas edificações que remetem à sua presença como os muros de algumas residências oitocentistas e do cemitério católico, o Santuário de São Benedito, as senzalas existentes na cidade e no interior, e uma fonte de água. Edificadas no decorrer do século XIX, essas estruturas apontam para a existência de uma população de negros escravos e livres, que deixou no município, principalmente um legado cultural.

Geralmente, muros, senzalas e capelas são vistos pela população urbana como empecilhos da modernidade, mas para historiadores, arquitetos e arqueólogos, são vestígios de uma memória, e fornecem uma gama de informações sobre o cotidiano da cidade no período que compreendeu os Oitocentos. Impregnadas de histórias, de elementos da vida comum e de informações ainda desconhecidas pela população, tais estruturas borbulham histórias de vida, fatos desconhecidos e manifestações populares.

Ao desviar meu olhar dos bustos de heróis da guerra, dos quartos onde morreram generais e das salas por onde passou o imperador, encontrei na cidade da Lapa, mais do que indícios que remetem à presença negra, mas uma memória adormecida esperando calmamente o tempo de ser descoberta. Nesses lugares de sociabilidade, circulavam diariamente homens e mulheres, cativos e livres, que deixaram na cidade sua cultura, seus hábitos e suas histórias, documentados tanto na cultura imaterial quanto na cultura material.