• No results found

6.3 Semi-Automatic Parameter Extraction From Photographs

6.3.2 Leaf Dialog

A maioria dos teóricos que tratam da existência de uma cultura global tem suas reflexões desenvolvidas a partir de uma crítica à imposição que a cultura ocidental exerce em relação às demais culturas do globo. Ahmet Davutoglu afirma que cultura global e pluralismo cultural vivem um dilema, que o conceito de cultura global pressupõe a tese da unidade da civilização, a qual evoluiu para um referencial espaço-temporal eurocêntrico; uma concepção errônea que tem origem na ilusão egocêntrica ocidental e acaba se tornando uma ameaça ao pluralismo e a riqueza da diversidade cultural.

Como forma de exprimir de maneira objetiva a gama de questões que estão envolvidas neste processo Davutoglu (2004) se utiliza da análise de Arnold Toynbee apresentada em seu livro A Study of History. Ele fala de cinco palavras-chave nesse processo de globalização cultural. São elas: unidade de civilização, trajetória de conquistas econômicas e políticas, nativos, ilusão egocêntrica, e ilusão do progresso. Cada uma dessas expressões é capaz de revelar algo que está subscrito na história da cultura contemporânea e descrever, através de conceitos, o atual dilema entre cultura global e pluralismo cultural.

Nesta abordagem o primeiro erro que leva ao problema é conceber uma unidade de civilização, pensar que se tem uma unidade social pelo simples fato de a civilização ocidental ter, através de seu sistema econômico e consequentemente político, atingido o mundo inteiro. Trata-se de uma visão superficial, pois se os mapas econômicos e políticos foram ocidentalizados, os mapas culturais permanecem em grande parte como eram antes do imperialismo ocidental. Sobre a utilização da expressão „nativos‟ devemos concordar que não passa de um termo depreciativo, o qual retira o tom cultural e faz perceber os outros como animais selvagens, como parte da fauna e da flora locais, e não como homens.

O contraste entre a hegemonia política e econômica da civilização ocidental e a resistência cultural de outras entidades civilizacionais produz uma psicologia exclusivista, através do uso do conceito de nativos, como uma categoria absoluta para definir outros (DAVUTOGLU in BALDI, 2004, p.106).

A ilusão egocêntrica corresponderia à “suposição de que existe apenas um rio de civilizações, o nosso, e que todos os outros são seus afluentes ou se perdem nas areias do deserto (DAVUTOGLU, 2004, p.107)”. Aí está a origem da terminologia “o outro” utilizada

pelo autor e que encontra correspondente no uso da palavra “nativos” bem como na expressão “o resto”; todas empregadas para enfraquecer as demais entidades civilizacionais que não se identificam com a do sujeito, porque assim o fala quem assim pensa. Esta autopercepção egocêntrica é o obstáculo fundamental no processo de diálogo civilizacional e compreensão mútua, que deveriam ser as precondições essenciais para uma coexistência pluralista.

A ilusão egocêntrica, juntamente com os demais conceitos utilizados pelo autor para descrever o atual dilema entre cultura global e pluralismo cultural, mostra-nos que o que existe na verdade é uma exclusão geopolítica que acontece, na maioria das vezes, como resultado de um falso universalismo, o qual apresenta o particular e o geral como sinônimos do geral. Esse falso universalismo é atribuído principalmente ao projeto iluminista e sua dependência da razão descontextualizada, mas tem reflexos no pensamento desta época, sendo denominado por Flores, pejorativamente, de “filosofia pós-moderna”. Aliado à exclusão geopolítica este pensamento forma os elementos essenciais caracterizadores da ordem mundial atual.

O universalismo, como uma conceituação respeitada, baseia-se em valores, necessita de um conjunto deles que seja aplicável a todos os seres humanos, independente de sua formação civilizacional, raça, religião, cor, ao passo que considerações geopolíticas implicam sempre diferenciações hierárquicas numa estrutura de poder. Essas duas características conflitantes tornam-se elementos essenciais da ordem mundial atual; os valores universais como retórica justificadora e a exclusão geopolítica como realidade política vigente (DAVUTOGLU in BALDI, 2004, p.132).

A análise pormenorizada de Davutoglu é de grande valia para se pensar os fatos, mas se a procura é por soluções o caminho não pode se estender no sentido da problemática, e sim na busca pelo antídoto para a anomalia. Se por um lado o ocidente capitalista tem sua parcela de culpa, por outro, temos o endosso dos demais que, ao comprar a forma de ver o mundo anunciada na propaganda acaba por desprestigiar a sua própria tradição, carregada de significados e de tantos contributos para a riqueza do mundo e do ser humano.

Deste modo não podemos falar em vilões. Se por um lado os povos ocidentais são responsáveis pela maneira imperialista como adentraram as culturas estrangeiras, tem hoje, em grande parte, o consentimento das mesmas. Podemos até dizer que isto é fruto de um desejo inconsciente de se aproximar do desenvolvimento, desejo este que acaba por conduzir todos à vala comum do consumo, do individualismo, enfim, dos valores que as sociedades capitalistas hiper desenvolvidas cultivaram.

O fato é que tornou-se comum afirmar que um dos principais problemas vividos pelos direitos humanos no contexto atual é a sobrevivência pluralista das culturas e tradições

civilizacionais autênticas frente a uma cultura global criada pela civilização ocidental hegemonista-monopolista. Segundo os especialistas, a civilização ocidental, na tentativa de globalizar e impor seu paradigma hegemônico, marginalizou as outras culturas, e o pior é que parece haver o endosso de tais culturas marginalizadas, as quais pensam fazer parte de um processo inevitável.

O caráter monolítico do paradigma vigente deve ser eliminado e dar lugar a uma cultura global real, composta por elementos de diferentes civilizações e patrimônios culturais, e isso se faz mediante a adoção de um novo paradigma educacional com base na idéia de pluralismo cultural e civilizacional. O multiculturalismo não é um problema, ele enriquece o mundo e os seres humanos; ter consciência da importância da diversidade é matéria de educação para uma sociedade cosmopolita; para tanto, a civilização ocidental deve revisar sua autopercepção rumo à inclusão, enquanto as outras devem reestruturar e reformular suas heranças de modo a torná-las elementos mais presentes e indispensáveis à cultural humana como um todo.

Filósofos como Davutoglu e Panikkar cobram uma postura ativa por parte das culturas mais peculiares, de modo a investir na educação e valorização das mesmas aumentando a percepção para com sua tradição e ressaltando a importância desta para as pessoas enquanto entidades portadoras de uma memória, de uma mensagem de continuidade. No passado a importância dos antepassados para a sobrevivência harmoniosa de uma sociedade era mais reconhecida. É preciso resgatar a necessidade que o ser humano tem de se sentir parte de algo, de ser parte de uma história da qual é hoje protagonista; isso é de fundamental importância no encontro do sentido da vida do indivíduo e na promoção do bem estar da comunidade e de seus sujeitos, enfim no processo de realização da paz.

Este reexame da percepção civilizacional é considerado pré-requisito mais importante para o diálogo e a interação entre culturas diferentes. A revalorização das culturas, por mais estranhas que nos pareçam, é hoje uma necessidade já que, no dizer de Davutoglu (2004), “A universalização do self secular pós-histórico e da história secular egocêntrica da civilização ocidental em uma era de globalização alienou o ser individual não-ocidental de sua própria autopercepção e da existência de sua própria sociedade (p.136-137)”.

Questionados sobre uma cultura global falaremos em igualdade na diversidade, e não em hegemonia ou uniformidade. Olharemos para o que nos une e não o que nos separa e buscaremos apresentar formas de superar a dicotomia entre o global e o local, o ocidental e o resto, enfim, todas estas aporias que têm impedido o homem de se reconhecer no outro. Dos estereótipos é impossível brotar algo, os estigmas só causam sofrimento e uma simples

mudança de perspectiva é capaz de transformar a diversidade em riqueza e a estranheza em beleza.

É comum aos que se dispõe a encontrar soluções eficientes de maneira conciliatória e inteligente que, deve-se aprender a tolerar e apreciar a diversidade cultural, pois cada povo tem algo peculiar para oferecer à sociedade e ao bem-estar da humanidade. Esta postura que se caracteriza pela abertura para com a diferença, prática da tolerância ou simplesmente pela moralidade ética nas relações internacionais, pede operadores versados em interculturalidade, ou que ao menos sejam capazes de reconhecer que estão vendo o mundo de suas próprias e singulares janelas.

1.2.3 Interculturalidade e cultura cosmopolita: arranjos jurídicos para uma sociedade em