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A importância do aspecto estrutural, inserido no discurso docente, remete-nos às condições e dificuldades encontradas nas ações didáticas com atividades relacionadas as linguagens da comunicação nas unidades escolares de Ensino Fundamental. Afinal, essas instituições possuem diversificadas condições socioeconômicas, com índices de variação, que influenciam na aplicação de atividades que requisitam os meios comunicacionais e suportes tecnológicos. Sendo assim, o desenvolvimento de práticas pedagógicas que se apropriam do

jornalismo e publicidade esbarra em necessidades relacionadas à existência física dos laboratórios de informática, acesso à internet e dispositivos digitais. Estes itens foram citados pelos professores, cujos depoimentos apresentaremos a seguir, legitimando a referida assertiva.

“O que acontece é a discrepância etária dos professores mais antigos que não têm tanto contato com a tecnologia. Eu, por exemplo, não sei mexer no programa Photoshop43, me considero da geração intermediária, mas consigo acompanhar estes adolescentes. Hoje é praticamente impossível falarmos em comunicação sem relacionarmos à internet. Então, o fato de existir condições na escola na qual leciono, de período integral, como um laboratório equipado de informática, com computador para cada aluno, uma sala de vídeo com data show, uma biblioteca equipada, espaço físico para atividades, me incentiva a buscar novas didáticas que alcancem com maior precisão este público. Bem diferente da outra escola em que leciono, da rede estadual, que, por falta de material e espaço, me obriga, muitas vezes, a limitar-me no material impresso que, por sinal, sou eu quem tem que fornecer, empobrecendo, de certa maneira, o trabalho em sala e não motivando a atenção dos jovens do Ensino Médio.” (Escola 6: Docente D - idade: 38 anos, 15 anos de magistério, 9º ano)

“Antes de começar a falar, quero deixar claro que a unidade escolar em que leciono no município é compartilhada, ou seja, divide espaço físico com alunos do Ensino Médio da rede estadual. Digo isto porque ela não possui laboratório de informática, o que existe é do estado e a biblioteca também é do estado. Não possui data show, o que dificulta quando, por exemplo, quero trabalhar conteúdos relacionados aos gêneros da publicidade e do jornalismo tais como as charges, os cartuns e as caricaturas, que eles gostam muito, e sem estes recursos eles não se interessam tanto. Ainda quando tínhamos os cadernos de apoio pedagógico, estes conteúdos eram coloridos e conseguia me virar em sala despertando um pouco o interesse deles. Porque não é fácil, eles têm tantos recursos, o celular, apesar da proibição do uso em sala, às vezes, falamos algo que eles vão pesquisar via celular e já vêm com as respostas imediatamente.” (Escola 10: Docente B - idade: 41 anos, 12 anos de magistério, 8º ano)

“A minha escola é compartilhada com o Estado, existe uma sala de informática do município, mas, sinceramente é preferível que o aluno não vá até lá, pois são três alunos por

43 Adobe Photoshop é um software lançado em 1996 caracterizado como editor de imagens bidirecionais, desenvolvido pela Adobe Systems.

computador e aqueles micros de lá estão praticamente sucateados. Não tem acesso à internet, os programas são ultrapassados e os jovens já não se interessam mais, então, é melhor que fiquem na sala de aula mesmo. Por isto, em se tratando dos gêneros do jornalismo, no planejamento durante o ano todo no 8º ano, prefiro o impresso (jornal e revista) e trato, a partir deles, os editoriais, notícias, reportagens e crônicas. Utilizo a biblioteca da escola, que me ajuda na inserção de projetos com o jornalismo.” (Escola 3: Docente B - idade: 39 anos, 11 anos de magistério, 9º ano)

Ela faz parte de um grupo de docentes de Língua Portuguesa da unidade escolar que realizou um projeto de jornalismo em parceira com a Revista Época (Editora Globo) no qual, por meio de reportagens publicadas fornecidas aos alunos, a editora estabelecia uma temática para o estudo da estrutura do gênero e sua produção, para exposição mensal na escola, bem como nas feiras semestrais abertas à comunidade. Este projeto contou com visitas à editora e passeios que enfocaram os assuntos abordados pelas matérias jornalísticas em sala de aula.

“Em minha escola existe um laboratório de informática, mas, geralmente, eu o uso como finalização das unidades de estudo propostas. Sou adepto de usar o data show em sala de aula (levo meu notebook) e direcioná-la de acordo com o gênero a ser estudado. Fiz um trabalho com publicidade no qual apresentei diversos slogans e marcas e eles, em grupos, pesquisavam em casa e apresentavam aos colegas em sala o que encontraram e as características da mensagem. Neste caso, alguns alunos até levaram um notebook para a apresentação, nossa, a aula foi enriquecedora. Não vejo vantagem em levá-los ao laboratório e fazer pesquisa anteriormente, acho importante direcionar a busca e estudar o gênero primeiro em sala para, então, solicitar a pesquisa fora da escola e depois realizarmos a exposição grupal a todos.” (Escola 8: Docente A - idade: 34 anos, 15 anos de magistério, 9º ano)

“Eu sou do tipo que, apesar da idade, já estou com 52 anos, acompanho as transformações dos adolescentes, acredita? Gosto desta faixa etária justamente porque ela nos obriga a buscar o novo, diariamente. Não é possível estagnar com estes alunos, eles amam o mundo digital. Então, quando resolvi buscar com eles crônicas jornalísticas, eles me sugeriram os blogs44. Por isto, solicitei a pesquisa em casa, mas, como muitos não possuem

44 Blog (contração do termo inglês web log, que significa diário na web): site cuja estrutura permite a atualização rápida a partir da inserção de informações, comentários ou notícias particulares, funcionando como um diário on

acesso à internet, resolvi usar o laboratório de informática da escola. Como vários discentes já haviam encontrado blogs de crônicas famosos, foi mais fácil o trabalho, cronistas como Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, foram os mais procurados, a justificativa é que eles tratam de assuntos que os alunos já assistiram em notícias ou programas de televisão.” (Escola 6: Docente E - idade: 52 anos, 27 anos de magistério, 8º ano)

Com base nos depoimentos, é possível visualizar que a razão instrumental continua sendo um desafio permanente, como destacou Hugo Assmann (2000); no tocante à aprendizagem e ao conhecimento, lembra que chegamos a uma transformação sem precedentes de ecologias cognitivas45, tanto das internas da escola como das que lhe são externas, mas que interferem profundamente nela.

Os docentes pesquisados se encontram em locais nos quais a infraestrutura institucional interfere nas metodologias aplicadas em sala, sobretudo ao tratarmos dos textos midiáticos. Entretanto, este aspecto não pode ser considerado somente de forma negativa, pois eles mesmos declararam que, muitas vezes, são “obrigados” a modificarem sua prática por conta dos recursos materiais disponíveis. Ainda discursam como se a tecnologia e os próprios meios comunicacionais fossem recursos e suportes, demonstrando que não romperam totalmente com o conceito instrumental e que muitas vezes não se percebem como mediadores deste aspecto.

Inspirado em Paulo Freire, Moacir Gadotti (2003) acredita que o compromisso do professor emancipador é dar sentido ao ensino e à sua função na sociedade. Para o autor, depende exclusivamente do docente buscar um novo posicionamento de organizador do conhecimento.

Durante as entrevistas, muitos dos educadores se mostraram preocupados com as modificações ocorridas socialmente e afirmaram não estar tão preparados para as alterações comunicativas e tecnológicas ocorridas nas últimas décadas. Destaque dado aos gêneros digitais, que estão presentes em sala de aula pela exigência do público de alunos, ou seja, os adolescentes, por estarem imersos neste mundo, levam à sala estas composições textuais e não apenas forçam, de certa maneira, a alteração do planejamento dos docentes, mas também

45 O conceito é de Pierre Lévy, definido como o estudo das dimensões técnicas e coletivas da cognição. “O meio ecológico no qual as representações se propagam é composto por dois grandes conjuntos: as mentes humanas e as redes técnicas de armazenamento, de transformação e de transmissão das representações. A aparição de tecnologias intelectuais como a escrita ou a informática transformam o meio no qual se propagam as representações.” (Lévy, 1993, p. 138)

configuram estas mensagens no cotidiano das aulas, um processo que se torna cada vez mais natural.

Portanto, além dos recursos materiais e físicos, questões de cunhos pedagógicos e da interface foram muito presentes nos conteúdos das entrevistas, bem como discursos acerca de ações que legitimam uma prática nem tão libertária quanto se presume. Apresentamos, a seguir, depoimentos sobre estes itens.