Existem fatores determinantes na escolha dos gêneros do jornalismo e da publicidade em Língua Portuguesa no Ensino Fundamental de Barueri. Elencamos dois que acreditamos importantes neste processo seletivo: o plano de ensino oficial da área, com orientações para uso da maioria dos gêneros jornalísticos (8º ano) e também vários publicitários (9º ano). Outro aspecto a ser levantado é a imposição da condição comunicativa contemporânea, pois consideramos o fato de se tratar de público adolescente, que convive com este universo de dispositivos, linguagens e tecnologias. Apresentamos os depoimentos dos docentes acerca desta temática e os objetivos pedagógicos quanto ao uso deste material.
“Em sala, claro que o foco principal é fazer com que o aluno entenda o gênero, saiba identificá-lo e caracterizá-lo, mas também me preocupo muito com o fato dele conseguir ler, afinal, é um momento que eu posso reservar, já que na maioria das casas de meus alunos a leitura é muito escassa. Eu acredito que os textos comunicacionais possibilitam maior facilidade no tratamento com a leitura e escrita, visto que chamam a atenção do adolescente. Com estes textos, ele vai querer ler, entender, observar e recontar o que viu ou leu. Geralmente, eu peço para ele recontar a mensagem lida. Na notícia, eu queria que ele recontasse e preservasse o lead (onde, o quê, com quem?), assim observo as dificuldades com o gênero. Mas acho interessante, por exemplo, mostrar como o lead é item fundamental preservado em cada meio: digital, impresso, rádio, televisão, notícia é sempre notícia!” (Escola 10: Docente A - idade: 43 anos, 15 anos de magistério, 8º ano)
“Quando verifiquei no plano de ensino que os bimestres continham gêneros do circuito midiático, já que leciono para os 8º e 9° anos, pensei, imediatamente, na possibilidade de, por meio destes textos, exigir mais habilidades em termos de leitura e escrita. Na verdade, quando proponho o estudo de uma notícia, reportagem, entrevista ou anúncios, penso que são focos atrativos para além da estrutura textual em si e também para avançarmos nas exigências de habilidades como a interpretação. É mais fácil chamar a atenção por conta dos meios, uma matéria jornalística veiculada na televisão possibilita uma série de estudos: desde debates, análises críticas, reescrita, sem falar que podemos explorá-la no impresso; na verdade, muitos de meus alunos, por conta própria, já buscam informações e comentários na internet, celular e redes sociais (Facebook e Orkut).” (Escola 1: Docente C - idade: 36 anos, 17 anos de magistério, 8º ano)
“A crônica foi o gênero que mais explorei, talvez pela facilidade em encontrá-la nos meios e também por conter uma mensagem que eles gostam muito; tem cronistas que agradam os jovens como, por exemplo, o autor de novela Walcir Carrasco que, inclusive, possui artigos no material pedagógico municipal e meus alunos amavam. Carrasco possui uma característica que os adolescentes gostam: a mistura de assuntos do universo deles, desde o famoso namorar e ficar, até situações com a inserção de códigos da internet, blogs e celular. Os alunos buscam a informação, tanto pelo texto impresso como por outros meios, com isto, o trabalho com a análise de estrutura textual fica bem melhor. Sem contar que eles redigem usando muitos ícones e símbolos, em seus textos, o que aproveito na exploração dos sentidos, algo que o adolescente tem dificuldades de perceber. E a crônica jornalística possibilita a
exploração de notícias, reportagens, entrevistas e até de propagandas.” (Escola 11: Docente A - idade: 40 anos, 18 anos de magistério, 9º ano)
“Além dos objetivos característicos, reconhecimento estrutural dos gêneros, a questão do ensino aos alunos de linguagens comunicacionais é válida. Gostei bastante do resultado das atividades com resenhas e sinopses de filmes. Aliás, nestas atividades foi possível o uso de recursos audiovisuais, no caso, a linguagem cinematográfica no material e até outras que eles quiseram ver. Então, primeiramente, analisamos a estrutura do gênero, vocabulários, leitura, interpretação e, posteriormente, a produção deles. Mas é interessante que, para elaborar a resenha do filme, no momento da elaboração os alunos buscaram muitas fontes, principalmente a internet. Eles trouxeram para a sala sinopses e resenhas de críticos famosos sobre o cinema. Foi um estudo interessante porque aliei linguagens de gêneros distintos.” (Escola 5: Docente B - idade: 50 anos, 25 anos de magistério, 8º ano)
Manuel Castells defende que, para a inclusão do indivíduo neste novo modelo comunicacional, é necessário falar de internet. Em entrevista41, Castells expõe que estamos vivendo em um sistema de comunicação duplo, em que os meios de comunicação não reinam sozinhos; surgiu o que chama de “autocomunicação de massa” - uma comunicação que nós mesmos selecionamos, entretanto, tem o potencial de chegar às massas, ou àqueles grupos definidos em nossas redes. Sobre o questionamento acerca da inexistência de uma pessoa sem estar na internet, é enfático, afirma que essa pergunta perdeu o sentido. De acordo com o sociólogo, não vivemos na internet, mas com ela. Ela é uma parte essencial de nossa vida, além de uma cultura de liberdade.
Em relação aos circuitos midiáticos, retomamos Adilson Citelli (2010b), quanto à presença dos meios em sala de aula, para quem perguntas com base em críticas estruturais, definições de funções e acerca dos porquês do uso, do entendimento de suas linguagens, são importantes para a sobrevivência dos indivíduos no atual modelo social. Vistas desta forma, são pertinentes e requisitadas por todos, não basta apenas a constatação de que são necessárias, assim, como Castells se referiu à internet, pois a importância de sua existência neste ambiente tornou-se óbvia.
41 Entrevista de Manuel Castells, em janeiro de 2012, concedida ao programa Europa Abierta, da rádio e TV pública espanhola. Disponível em: <http://www.outraspalavras.net/2012/01/17/castells-debate-os-dilemas-da- internet/>. Acesso em 10/06/2012.
Em nossa pesquisa, constatamos que as estratégias docentes relatadas estão interligadas às necessidades que os próprios alunos apresentam quanto às temáticas e conteúdos em sala. São questões propostas a partir de conteúdos midiáticos que transpassam o planejamento proposto e exigem novas buscas de informações pelo professor para atingir as expectativas dos alunos quanto às atividades.
Dando continuidade à nossa investigação, abordaremos questões relacionadas à dinâmica dos dispositivos (planos de ensino, currículo, material pedagógico, disciplina) conceito de Giorgio Agamben42.