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Desde 2006, os cadernos de apoio pedagógico foram distribuídos aos alunos da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Em 2012, este dispositivo gerou debates e reflexões. Em relação a este tópico, observamos que, durante o processo de aplicação dos questionários aos professores, no primeiro semestre de 2011, a circulação do material ocorreu normalmente. A opinião dos docentes quanto à sua utilização se centralizava na redução de sua liberdade de planejamento.

Contudo, no segundo semestre daquele ano e nos primeiros meses de 2012, na ausência destes conteúdos impressos, visto que a circulação foi interrompida, constatamos que houve alterações na maneira de pensar o trabalho pedagógico com as linguagens comunicacionais em Língua Portuguesa.

Sendo assim, em busca do entendimento da assertiva acima, esboçaremos os pontos de vista dos educadores pesquisados, continuando os diálogos com nosso referencial teórico.

“Sim. O material pronto é limitante, mas eu não fiquei presa ao Caderno de Apoio. Quando o Caderno chegou, eu tinha que trabalhar os conteúdos elencados para a área e no 8º ano (7ª série) são elencados textos jornalísticos, nos quatro bimestres, ou seja, durante todo o ano letivo. Mas, por exemplo, a notícia que tinha lá era velha, de 2009 e 2010, já não chamava mais a atenção, aliás, era sobre vacinação de idosos, uma temática que para os adolescentes

42 Dispositivo, para Giorgio Agamben (com base em Foucault), “é qualquer coisa que tenha de algum modo a capacidade de capturar, orientar, determinar, interceptar, modelar gestos e os discursos dos seres viventes”. Agamben divide o existente em dois grupos: de um lado, os seres viventes (ou substância) e, de outro, os dispositivos em que estes são incessantemente capturados.

não é nada atrativa. Aproveito e registro aqui minha crítica, neste sentido, aos elaboradores. A estratégia que utilizei foi encontrar uma notícia atual, voltada a um assunto que chamasse a atenção deles. Na verdade, confesso, seguia rigorosamente a ordem dos gêneros apresentada neste caderno. Porém, em relação aos temas propostos, não. Então, recorria a informações do universo adolescente, senão o trabalho pedagógico perde a funcionalidade em sala.” (Escola 2: Docente B - idade: 35 anos, 10 anos de magistério, 8º ano)

“Antes, honestamente, pensava que o material de apoio municipal era muito fragmentado, fiz inúmeras críticas a ele. Contudo, com a adoção dos livros didáticos do Ministério da Educação (MEC) e a retirada de circulação daquele material do município, posso confessar: ai, que saudade do material impresso daqui, quero que ele volte logo! Digo isto porque, sinceramente, o livro do governo federal, o qual utilizo, eu vejo como fora da realidade dos alunos. Deixe-me explicar: os vocabulários, os enunciados e os gêneros textuais parecem distante demais destes jovens, pois priorizam contos e algumas crônicas, mas muito antigos, como: Contos da Terra, de Edgar Alan Poe, de 1800, e abordam muito pouco sobre os gêneros jornalísticos, os publicitários nem são trabalhados, excetos em alguns anúncios.” (Escola 4: Docente C - idade: 46 anos, 22 anos de magistério, 9º ano)

Em suas falas, as referidas professoras demonstraram certa dicotomia acerca do uso dos cadernos, pois, de um lado, afirmaram que o material cerceava a ação pedagógica devido à “obrigatoriedade” de uso, implícita e até explícita, por parte de gestores, pais e comunidade escolar.De outro lado, com a disponibilização do planejamento anual, proposta curricular e o material na web, apontaram a sensação de vigilância e controle do ensino em sala de aula.

Em Barueri, no ciclo final, 8º e 9º anos do Ensino Fundamental (7ª e 8ª séries), os gêneros jornalísticos são predominantes, com espaço também aos publicitários, textos cujas mensagens suscitam posicionamentos, análises críticas e autonomia.

Por falar em autonomia, resgatamos Jacques Rancière em O mestre ignorante: cinco lições sobre a emancipação intelectual (2002) que nos traz essa busca emancipatória ao retratar o método do professor Joseph Jacotot . Este por sua vez, entendia, portanto, que a relação mestre-aluno pautava-se pelos diálogos entre aquele que sabe e aquele que não sabe. Após, ser exilado, percebeu que é possível ensinar sim quem não sabe, pois em sua visão, temos condições iguais de inteligência, contudo precisamos de estímulos.

Para Jacotot, segundo Rancière (2002) “o aluno será capaz de aprender qualquer coisa. Qualquer coisa pode aprender por si, utilizando o que sabe, observando o que está a sua frente, dizendo o que viu, verificando o que disseram”. Neste método:

“O aluno deve ter tudo por ele mesmo, comparar incessantemente e sempre responder à tríplice questão: o que vês? O que pensas disso? O que fazes com isso? E assim até o infinito. Mas, esse infinito não é mais segredo do mestre, é marcha do aluno” (RANCIÈRE, 2002:44).

“Nós somos conhecedores da Língua e pelo contato, ou melhor, pela exigência social de entendermos melhor as mensagens dos meios de comunicação e seus gêneros, somos induzidos a aprofundar nossos conhecimentos acerca deles. No material da rede está explicitado, ainda que sucintamente, a estrutura destes textos, tais como a notícia, com base estrutural específica, o lead. Entretanto, é adaptada de acordo com o meio em que estará sendo emitida (impresso, televisão, rádio ou internet). Por isto, apesar de utilizar outros recursos com os gêneros do jornalismo e da publicidade, incluí também diferentes aparatos. Eu vou ser sincera, tomo por base alguns pontos do material, sim, e creio que, sobretudo os professores novatos e aqueles que não são tão ligados às mensagens do tipo não verbais, como as publicitárias, necessitam deste norteador. Sendo assim, observo como grande perda a sua retirada de circulação. Outro fator que acho importante neste aspecto é o fato do aluno ficar ‘sem direcionamento’, pois necessita ter o material concreto para visualização e manejo.” (Escola 8: Docente B - idade: 52anos, 24 anos de magistério, 8º ano)

“O lado bom do material é que ele segue, rigorosamente, o planejamento anual de Língua Portuguesa do município. Então, facilita o tratar dos textos jornalísticos e publicitários. E o fato de estar inserido nos cadernos dos alunos obriga-nos o seu estudo. Digo isto porque não adianta, o adolescente até vai para a internet buscar informações, mas precisa de estímulo e, geralmente, isto começa na sala com o impresso, passando pela televisão que o atrai ainda com a maior força, para depois ser direcionado para as redes sociais etc.” (Escola :7 Docente B - idade: 36 anos, 17 anos de magistério, 8º ano)

“Inicialmente, quando analisei o plano de ensino do 8º ano, pensei, poxa vida, vou lecionar pela primeira vez para este público e vou tratar de gêneros do jornalismo o ano todo, como fazer isto? Mas, como os alunos ainda estavam com o material em mãos, percebi que seria mais fácil a elaboração das atividades. É óbvio que estes textos necessitam de

atualização e formulações de novos contextos. Contudo, numa sala com 40 alunos, sem recursos tecnológicos e/ou material impresso, fica quase impossível fazer uma ação pedagógica qualitativa. A temática que o jornalismo e a publicidade trazem no cotidiano são muito dinâmicas e aproveito para apresentar e exigir habilidades tão cobradas em nossa disciplina: leitura, interpretação e produção textual.” (Escola 9: Docente A - idade: 42 anos, 22 anos de magistério, 8º ano)

Para analisar as entrevistas, recorremos à ordem discursiva de Michel Foucault, para quem a organização do que é dito ou não utiliza determinados mecanismos de controle; nas palavras do autor: “a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar poderes e perigos, dominar seus acontecimentos aleatórios” (FOUCAULT, 2008:8-9).

O francês entende que o sistema educacional, com os saberes e poderes que traz consigo, é uma maneira de manter ou modificar a apropriação dos discursos. Sendo assim, instrumentos como currículo, proposta de área, plano de ensino e o material pedagógico, caso da rede de Barueri, tornam-se legitimadores dos poderes instituídos e são ratificados como dispositivos.

O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação e uma fixação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes? (FOUCAULT, 2008:44-45)

Em outras palavras, Adilson Citelli, quanto os encadeamentos hierárquicos no ambiente educacional, elucida a construção da organização dos conteúdos em sua análise sobre como os documentos oficiais se tornam verdadeiros “manuais” com definição de objetivos, habilidades e avaliações.

Pela via da estrutura escolar, considerando sua lógica institucional presente, parece não existir outra forma de aprender senão tendo em mira os conteúdos como finalidades em si e que aliados a outros postos na mesma série terminariam por legitimar as unidades (de conhecimento) chamadas de disciplinas. (CITELLI, 2004a:109)

Em relação às linguagens comunicacionais, constatamos críticas sobre a forma como são elencadas no material de apoio existente. Entretanto, com a retirada de circulação deste, abriu-se uma lacuna que provocou modificações no comportamento de muitos educadores quanto às próprias ações didáticas. De acordo com os relatos os docentes de Língua Portuguesa começaram, de maneira mais sistemática, a procurar novos recursos, meios e aparatos tecnológicos e pesquisar mais acerca da temática. Os alunos também perpetuam esta institucionalização, ainda que sob a leitura do “direito adquirido” forçado pelos pais e comunidade escolar.

Em contrapartida, a inserção dos textos de comunicação no currículo, ou seja, na proposta da disciplina de Língua Portuguesa pela Secretaria de Educação, é um processo que parece natural. Entendemos como natural algo que os professores admitem ser necessário e já foi incorporado ao cotidiano de suas práticas. Nas entrevistas, os docentes foram incisivos quanto às mensagens da mídia como objeto de estudo na disciplina, corroborando o que já afirmara Georges Snyders, ou seja, com esses textos fazendo parte dos conteúdos curriculares, é possível dar-lhes um tratamento crítico adequado, aprofundar o superficial e romper com o que houver de generalização e preconceito.

O pedagogo aponta para a distância entre a escola, leia-se também professores, e o mundo, com o dia-a-dia dos alunos, o que, na visão de Snyders, parece ser a verdadeira vida.

Para investigar o distanciamento entre professores, alunos e instituição, apontado por Snyders, incluímos em nosso roteiro de entrevista perguntas sobre a infraestrutura e a tecnologia no tratamento com os meios comunicacionais e suas linguagens, considerando a área de atuação dos sujeitos e o contexto físico das escolas municipais.

Abaixo, os depoimentos sobre a temática investigada.